Cedê Silva/AE
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Diplomatas juvenis salvam a Líbia e o comércio internacional em três dias

Simulação da ONU e da OMC em colégio de São Paulo tem final feliz após reuniões que passam das 23h

Cedê Silva, Especial para o Estadão.edu

12 Setembro 2011 | 22h45

O embaixador do Brasil no Conselho de Segurança, Rodolfo Uras, trabalhou ao lado dos colegas da Colômbia e do Líbano em busca de uma resolução para a situação na Líbia. Como a crise gerou 800 mil refugiados, Uras teve de ceder um pouco em sua posição de rejeitar uma intervenção militar, mas, em suas próprias palavras, "como o Itamaraty sempre menciona, tendo uma postura pacífica". Chegou-se a um acordo: haverá intervenção de tropas terrestres, mas somente de países-membros da Liga Árabe ou da União Africana. O texto da resolução final, com quatro cláusulas preambulares e onze cláusulas operativas, foi aprovado por unanimidade neste domingo, 11 de setembro, na quinta edição da SINU - simulação da ONU realizada no Colégio São Luís, em São Paulo. "A principal conquista foi ter essa decisão unânime", avaliou o embaixador, que tem 16 anos e está no 2º ano do ensino médio no mesmo colégio. Seu objetivo estratégico ali era conquistar para o Brasil um assento permanente no CS.

Um dos líderes do debate foi o camarada Marco Antônio Bortolotto, de 17 anos, delegado da Rússia. Em sua avaliação, a proposta de Liga Árabe e União Africana entrarem na Líbia foi fundamental para que os países que não apoiaram as ações da Otan (leia-se Rússia) chegassem a um acordo com os demais. "Contemplamos principalmente a segurança dos civis", frisou o diplomata, um dos cinco com poder de veto. É preciso ressaltar que, no ambiente simulado da SINU, Kadafi ainda não havia caído e os rebeldes não chegaram a Trípoli - de modo que os delegados foram responsáveis por um desdobramento diferente da História. A explicação é de um dos presidentes do Conselho de Segurança: o embaixador Luis Pedro Sun, de 17 anos, hoje no 3º ano do ensino médio. 

Se naquela sala de aula os delegados passaram o fim de semana em Nova York, a poucos metros dali um grupo um pouco maior estava em Genebra, em uma longa discussão da Organização Mundial do Comércio (OMC). Prevista para encerrar às 21h, a reunião de sábado arrastou-se até às 23h05. Afinal, os ministros debatiam ali a Rodada Doha, iniciada em 2001 e paralisada até os dias de hoje. Segundo Igor Pereira de Paula, um dos diretores da OMC, "o debate começou acalorado e ficou mais forte ainda com a crise, quando Paraguai e Irlanda declararam moratória. Mas os ministros estavam muito bem-preparados". Eles passaram oito horas sem intervalo debatendo na Green Room (adequadamente, a sala de aula tinha uma parede verde). Alguns eram porta-vozes dos blocos econômicos, e os outros, sem direito à palavra, passavam bilhetinhos para os colegas. A Argentina, por exemplo, representava o Mercosul e recebia recados do Brasil (o Paraguai não estava presente).

Aos 15 anos de idade, Renan Simões, do 1º ano do ensino médio, enfrentava o desafio de representar um bilhão de pessoas. Ele foi o delegado da Índia na OMC. "Meu país tem muitas medidas protecionistas, mas elas são necessárias e foram elas que mantiveram a estabilidade na atual crise", afirmou. "Mas como tivemos três dias para resolver o que ministros reais não resolveram em 10 anos, abrimos mão de algumas delas para contribuirmos com o comércio mundial, mas sempre frisando a importância do crescimento dos BRICs", contou. "Foi maravilhoso participar da simulação, recomendo a todo mundo".

Renan queria cursar Administração ou Comércio Exterior, mas por causa da SINU pensa agora em seguir a carreira política. Ele e o embaixador Bortolotto, da Rússia, não sabiam durante a entrevista, mas dali a poucas horas receberiam menção honrosa pela atuação de destaque. Esses diplomatas juvenis podem não ter salvo o mundo de verdade. Ainda. Mas já mostraram que estão dispostos a trabalhar e estudar - e de terno e gravata - durante o fim de semana.

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