Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Diagnóstico da dislexia não pode ser confundido com falta de ensino, diz especialista

Presidente do Cenpec, Anna Helena alerta para a complexidade do tema e diz que é preciso ter cuidado neste retorno de aulas presenciais para evitar uma “pandemia da dislexia”

Ítalo Cosme, especial para o Estadão

08 de outubro de 2021 | 05h00

Nesta semana, diversas instituições realizam eventos para discutir sobre os Transtornos Específicos da Aprendizagem (TEAp). Principalmente da dislexia. Esse tipo de TEAp inquieta educadores, uma vez que, para eles, o diagnóstico não pode ser confundido com a falta de oportunidade que a criança ou adolescente tem de aprender. Por isso, é preciso atenção, principalmente na rede pública, em como as desigualdades afetam a aprendizagem de infantis em situação de vulnerabilidade.  

O alerta da educadora Anna Helena Altenfelder, presidente do conselho do Cenpec, recai sobre a complexidade e a delicadeza da dispensa excessiva desses laudos. Além dos problemas do alunado, falta estrutura na escola, formação de professores e uma rede de apoio para o trabalho pedagógico em sala de aula em muitas cidades e estados para maior eficiência na identificação dessas fragilidades.

No último domingo, 3, o Estadão mostrou que um terço dos pais e responsáveis precisam viajar, até para outros Estados, em busca de um diagnóstico, seja por falta de profissionais ou redes de saúde precárias para o acompanhamento especializado onde vivem. A média de gastos mensal é de 800 reais por família, conforme levantamento do Instituto ABCD em parceria com o Cisco do Brasil e o Instituto IT Mídia.

"Há certa dificuldade de trabalhar com crianças que vêm de contextos vulneráveis. Se formos usar parâmetros com crianças de nível mais elevado, acaba criando uma confusão de aprendizado", pontua Anna Helena, e faz a analogia: "o transtorno é de aprendizagem ou de ensinagem?"

A educadora defende que se o aluno não teve a interação em quantidade ou qualidade para desenvolver as habilidades e competências, é papel da escola trabalhar nessa questão para minimizar os impactos. Para a presidente do Cenpec, é diferente o trabalho de alfabetização de crianças oriundas de famílias com maior poder aquisitivo, com pais já letrados.

O distanciamento de milhares de crianças por quase 1 ano e meio da escola, durante a suspensão das aulas presenciais por conta da covid, deverá ter impactos na alfabetização. Por isso, é preciso maior atenção na defesa simplesmente clínica para superar essas dificuldades de letramento. "O diagnóstico de dislexia é bastante específico e complexo. É preciso cuidado até para que não tenhamos por aí uma 'pandemia de dislexia'."

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