Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Di Genio 'ampliou o acesso à educação no Brasil', diz Drauzio Varella, seu amigo de longa data

Juntos, Varella e Di Genio, fundaram em 1965, o cursinho Objetivo; empresário morreu neste sábado, aos 82 anos, vítima de infarto

Cristiane Segatto, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2022 | 20h44

Amigo de muitos anos, o médico Drauzio Varella, falou ao Estadão sobre sua parceria com o médico João Carlos Di Genio, que morreu neste sábado, 11, vítima de infarto aos 82 anos, e com quem criou o cursinho Objetivo.  

- Como você e Di Genio criaram o Objetivo? 

Começamos os dois juntos a dar aulas em um cursinho chamado Nove de Julho. Eu tinha 22 anos e o Di Genio tinha 25. Ele dava aula de Física e eu de Química. Quando eu estava no quarto ano da Faculdade de Medicina e ele tinha acabado de se formar. Um dia, jantando, tivemos a ideia de fazer um cursinho de férias. Ele dizia que a ideia foi dele. Eu acho que foi minha. Como não tivemos testemunhas, ficou assim mesmo.

O Objetivo começou assim: nós dois juntos e outros colegas que chamamos para dar aulas. Escolhemos o nome e publicamos um anúncio no Jornal da Tarde em 1966. Ele abraçou aquilo com uma força incrível. Virou a razão da vida dele. Não quis mais saber de medicina. Praticamente, ele não teve vida pessoal. A vida dele foi o trabalho. Só falava no cursinho. Um dia conversamos e eu disse que não queria continuar. Eu queria ser médico. 

- Qual foi a importância de Di Genio para a educação brasileira?  

Di Genio tem uma grande importância. Os cursinhos eram muito tradicionais. Os professores ditavam a matéria e os alunos copiaram. O Objetivo inovou. De cara, começou a fazer apostilas e a distribuir gratuitamente. Começamos a atrair os bons professores dos outros cursinhos. Ninguém se negava a ir porque pagávamos o dobro. Foi um sucesso absurdo. Virou um monopólio, praticamente, entre os cursos preparatórios de medicina. Chegamos a ter 10 mil alunos. Ele e todos nós dávamos a mesma aula 25 vezes por semana. Quando dizem que eu tenho jeito para a comunicação, digo que o que tive foi treino. Nenhum ator faz uma peça 25 vezes por semana.

Ele fez coisas muito importantes. Foi o primeiro a colocar televisão dentro da sala de aula no início dos anos 70. Soube entender, em um momento muito inicial, que não haveria universidade pública para todo mundo. É impossível. O Estado não teria condições de abrir outras USP e Unesp. Ele percebeu que havia um mercado grande de alunos que não tinham acesso às faculdades públicas.

Optou por um nicho do mercado para gente que não tinha condições de pagar muito. Às vezes, as pessoas criticavam. Diziam que o ensino era massificado, mas quanta gente passou por lá? Se essas pessoas não tivessem cursado a Unip, elas teriam cursado universidades melhores? O que surgiu depois na iniciativa privada? Faculdades de baixo nível. 

- Ele ampliou o acesso à educação?

Sem dúvida. Di Genio ampliou muito o acesso, em uma fase em que isso não estava na moda. Isso foi espalhando pelo Brasil. A Unip chegou a ser a maior faculdade privada do país. Ele fez esse trabalho maravilhosamente bem. Entendeu como o ensino à distância poderia ser feito. 

- Vocês ainda tinham uma relação próxima?

Éramos muito ligados. É uma amizade de adolescência, mas eu não tinha mais nada a ver com a Unip. A não ser quando propus para ele o projeto de pesquisa que desenvolvo na Amazônia. Ele topou patrocinar na hora. Ele enxergava o potencial das coisas. 

- Qual das qualidades de Di Genio você destaca?

Ele sabia entender as pessoas. Di Genio sabia até onde ele poderia ir com cada pessoa. Tinha essa habilidade. Isso foi muito útil na carreira dele.  

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