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Bolsonaro menospreza Ministério da Educação, permitindo que seja tomado por sanguessugas

Difícil imaginar como o Brasil sairá da crise - sanitária, educacional, institucional - que se afundou na pandemia com tanto desprezo ao fundamental

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 05h00

"A democracia deve renascer a cada geração e a educação é sua parteira.” A frase inspiradora do filósofo americano John Dewey mostra o caráter político da educação, que não poderia ser esquecido em tempos de pandemia, escolas fechadas, aumento de desigualdades e flertes com o autoritarismo.

Mas não a política dos partidos. Dos interesses de governantes despreparados ou de brigas eleitoreiras. A política como definidora da nossa participação no espaço público, dos valores, do que esperamos para a sociedade. 

A educadora e escritora americana bell hooks (se escreve em letras minúsculas), uma das mais importantes intelectuais feministas, fala também da função maior da educação em seu livro Ensinando Pensamento Crítico: Sabedoria Prática. Ela incentiva professores a criar verdadeiras comunidades de aprendizagem em suas classes, em que todos compartilham suas opiniões, seus medos e suas descobertas. E diz que os sistemas educacionais devem ser espaços em que liberdade de expressão, divergências e pluralidade sejam valorizadas na teoria e na prática.

Com declarada inspiração no brasileiro Paulo Freire, hooks afirma: a educação como prática de liberdade é acreditar que “a democracia prospera em ambientes onde o aprendizado é valorizado”. Freire dizia que os educadores têm o papel de unir ensino com a construção de um mundo mais justo e democrático.

As notícias recentes no Brasil mostram como estamos no caminho oposto. Temos um presidente da República que troca ministros porque eles não querem ir contra a Constituição. Menospreza o Ministério da Educação, permitindo e incentivando que ele seja tomado por sanguessugas que se alimentam de teorias do absurdo. 

O mais recente relatório da comissão de deputados que acompanha o MEC mostra que só 37% daqueles que lá ocupam cargos estratégicos já trabalharam com educação na vida. Antes da gestão Bolsonaro, esse índice era de 64%. E ainda houve aumento de 600% no número de militares no órgão em dois anos.

Há milhões de crianças e jovens brasileiros sem acesso à internet, que não têm a escolha de gostar ou não de aulas online – eles nem sequer sabem do que se trata. E o governo federal não investiu em 2020 nem metade das verbas de 2019 no programa que prevê mais conectividade na educação.

E ainda tirou R$ 1,6 bilhão do programa que melhora a estrutura das escolas, o que seria crucial para a construção de novos banheiros, janelas, espaço para um ensino possível durante a pandemia. Isso é política, é mostrar prioridades – ou deixar claro quais não são as prioridades.

O mesmo documento também exemplifica bem como o MEC de hoje vai contra a ideia de ensinar a pensar. Os deputados tiveram acesso aos resultados do trabalho de uma comissão que foi criada no primeiro ano do governo Bolsonaro para analisar questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Seus três avaliadores, escolhidos do círculo de amizades bolsonaristas (um deles monarquista), baniram perguntas por que, segundo eles, tinham “polêmica desnecessária”.

Como diriam os três autores citados no começo do texto, para se educar de verdade, para criar cidadãos conscientes, é preciso lidar com divergências, opiniões plurais, debater em grupos heterogêneos, refletir. “A habilidade de pensar é a marca da cidadania responsável”, diz bell hooks. 

Aprendizagem que está infelizmente muito distante de quem comanda a educação em Brasília. Difícil imaginar como o País sairá da crise – sanitária, educacional, institucional – que se deixou afundar durante a pandemia com tanto desprezo ao que é fundamental. 

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