Beatriz Calil
Beatriz Calil

Despertar a vontade de investigar é o que importa

Especialistas ressaltam que escola deve integrar disciplinas e fomentar a curiosidade

Luciana Alvarez, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 05h00

Para além da siglas e nomenclaturas, os pais podem reconhecer um colégio que trabalha bem com as ciências pela abordagem investigativa da instituição. “A escola deve criar situações que estimulam a curiosidade e nas quais os alunos podem fazer perguntas, formular hipóteses, desenvolver situações para tentar verificar ou refutar as hipóteses, registrar e analisar os resultados, tirar suas conclusões e compará-las com a literatura da área. Enfim, escolas que possibilitam aos alunos conhecer e aplicar os métodos da pesquisa científica e tecnológica”, afirma Roseli de Deus Lopes, vice-coordenadora do Centro Interdisciplinar em Tecnologias Interativas da Universidade de São Paulo (USP).

Portanto, seja com STEM, STEAM, robótica, aulas maker ou programação, o importante é fazer os alunos vivenciarem o processo de construção do conhecimento científico. “Uma boa escola consegue fazer com que seus alunos aprendam a fazer boas perguntas e desenvolvam autonomia e iniciativa para buscar respostas, até contribuindo para gerar conhecimento científico e tecnológico novo”, explica Roseli.

Segundo a professora, que é também coordenadora da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), o crescimento das abordagens que unem ciências, matemática e tecnologias se deve em grande parte ao interesse que as tecnologias provocam nos alunos. Também ajuda a maior disponibilidade e a redução de custos de meios de fabricação digital, permitindo construir protótipos com mais facilidade. “Esta ‘cultura maker’, quando encontra espaço na escola, amplia as possibilidades para os professores elaborarem e implementarem experiências de aprendizagem, indo da exploração mais livre e criativa com materiais diversos até projetos de investigação e construção de protótipos de soluções tecnológicas.” 

Propaganda

Se ficou mais barato conseguir equipamentos e laboratórios, o risco é que tudo seja incorporado pelas escolas mais como uma propaganda de inovação para atrair novas matrículas, de forma desconectada do projeto pedagógico, alerta Gustavo Pugliesi, pesquisador em STEAM da fundação alemã Alexander von Humboldt.

“É preciso olhar para a proposta de uma escola atentando-se não para quantas diferentes metodologias da moda ela tem, mas para o modo pelo qual ela consegue incorporar isso dentro do seu projeto de educação”, recomenda o especialista no assunto. 

Grande defensor da proposta STEAM, Pugliese acredita que infelizmente sua popularização não reflete uma maior valorização das ciências e tecnologias. “O crescimento tem acontecido principalmente no sentido de um mercado de serviços e produtos em torno do STEAM, e mais concentrado na rede privada”, diz o pesquisador da fundação alemã. 

Entretanto, quando bem empregada, a abordagem educacional traz várias vantagens, defende Pugliese. “O fato de valorizar a interdisciplinaridade é uma das principais contribuições que o STEAM pode trazer para o ensino de ciências. O pensamento científico está pautado pela curiosidade e pela inquietude diante do mundo observável”, explica. 

Pugliese reforça ainda a importância de os projetos estarem conectados com a realidade ao redor do estudante, de forma a integrar a ciência com a tríade tecnologia-sociedade-ambiente e promover o pensamento crítico. “Uma boa prática STEAM deve sempre partir de projetos que provoquem esse movimento de questionar o mundo e as questões que estão no entorno do estudante e de sua comunidade”, enfatiza o pesquisador.

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A ‘cultura maker’ amplia a chance de aprender, indo da criação com materiais até protótipos de soluções tecnológicas
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Roseli de Deus Lopes, vice-coordenadora do Centro Interdisciplinar em Tecnologias Interativas da USP

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