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Desenhando Trump na lousa

Nos EUA, a campanha eleitoral adentra a sala de aula

The Economist

28 Outubro 2016 | 16h03

A eleição presidencial americana deste ano está deixando os professores do país apreensivos. Normalmente, quando abordam questões políticas em classe, os educadores se enchem de cuidados. Na cidade de Nova York, uma diretriz da secretaria de educação diz que, "quando estiverem em serviço ou em contato com alunos", os professores devem "manter uma atitude de absoluta neutralidade em relação a todos os candidatos a cargos eletivos". Isso significa que os docentes não podem "usar adesivos, bottons, peças de roupa ou quaisquer outros adereços que façam propaganda de um candidato, de um grupo de candidatos ou de uma agremiação política". Em 2008, o sindicato dos professores questionou a norma na Justiça, afirmando que ela feria o direito constitucional de livre expressão dos educadores. O juiz responsável pelo caso não aceitou a alegação, observando em sua sentença que, "embora as autoridades educacionais não devam passar com um trator sobre a liberdade de expressão", é perfeitamente legítimo que "procurem evitar que a missão de promover a educação pública acabe se enredando em paixões políticas".

Não se trata de uma preocupação menor. Ao entrar em classe com roupas ou enfeites estampando mensagens engajadas, os professores comprometem sua capacidade de conduzir uma discussão imparcial sobre temas politicamente controversos. Há também o risco de que os alunos pensem que seu posicionamento representa a visão da própria escola. Nada impede que os educadores tenham uma atuação política fora das instalações escolares, ou mesmo em seu interior, desde que ela se restrinja a lugares onde eles não possam ser ouvidos pelos alunos, como a sala dos professores. Mas é importante que as bandeiras políticas fiquem fora da sala de aula.

No entanto, com o problemático desenrolar da campanha eleitoral deste ano, alguns professores passaram a se indagar se seria moralmente defensável manter a neutralidade diante dos alunos. Em março, quando Donald Trump começava a dominar as primárias do Partido Republicano, Kyle Redford, professora do quinto ano do ensino fundamental na Califórnia, publicou um texto no site do periódico Education Week, afirmando que se vira impelida a suspender temporariamente o esforço, adotado desde sempre em sua prática pedagógica, de dar aulas politicamente isentas. "Desrespeitei minha regra", explicou ela, "porque o comportamento de Donald Trump é algo que transcende a política partidária, e eu não posso deixar de chamar a atenção dos alunos para a mensagem de intolerância que ele transmite. Eles precisam saber que o comportamento de Trump não tem precedentes em nossa história" e representa "verdadeira ameaça ao nosso processo político". Em meados deste mês, numa carta aberta, dez educadores (todos eles vencedores do prêmio "professor do ano" em nível estadual e nacional) ecoaram o argumento e foram ainda mais longe.

"Somos professores", principiam os docentes. "É de esperar que permaneçamos politicamente neutros. Mas há momentos em que às normas sociais tradicionais impõe-se um imperativo moral. Há momentos em que o silêncio é a voz da cumplicidade. A eleição presidencial deste ano é um desses momentos." Mais à frente, os autores da carta afirmam que Trump representa um "perigo para a nossa sociedade", já que seu comportamento, em que há vez para intimidações, zombarias dirigidas a deficientes físicos, incitação ao racismo, discriminação religiosa, machismo e ameaças de violência física, "vai de encontro a tudo que ensinamos às crianças que temos sob nossos cuidados". Ao final da carta, os professores declaram seu apoio à candidatura de Hillary Clinton: "acreditamos que Hillary defenderá os valores americanos da civilidade, igualdade e dignidade para todos".

Chama atenção o fato de que as objeções que os educadores fazem a Trump baseiam-se mais nos atos do republicano (seu "comportamento"), do que em propostas específicas. Nenhum professor parece estar dizendo que a opinião de Trump sobre a Parceria Transpacífico é inadmissível ou que o que ele pensa em fazer com os impostos é um absurdo inominável. Mas isso não chega a ser motivo de surpresa: em nenhuma eleição americana da era moderna tão pouca importância foi dada ao programa de governo dos candidatos.

Os autores da carta aberta não chegam a dizer como pretendem incluir a eleição em suas aulas, mas tudo indica que estão decididos a manifestar com clareza sua oposição a Trump - e seu apoio a Hillary - diante dos alunos. E é aí que a coisa pega. Será que as aulas darão lugar a uma campanha para convencer os estudantes que simpatizam com Trump do equívoco de sua atitude? As crianças que discordarem da opinião do professor talvez não se sintam inclinadas a participar da discussão, receando exprimir suas ideias abertamente. É possível que os alunos mais jovens e impressionáveis, com um entendimento ainda rudimentar da política, fiquem confusos ao ouvir os pais defendendo o candidato X, enquanto o professor diz que eles deveriam apoiar o candidato Y. Seja como for, não parece adequado fazer do ativismo político o centro do esforço pedagógico. Exagerar na dose pode, ironicamente, indispor algumas crianças contra os ideais de civilidade e respeito mútuo que esses professores dizem faltar a Trump.

Isso posto, deixar a eleição (em particular, esta eleição) completamente fora da sala de aula seria desperdiçar uma oportunidade de preparar as crianças para o exercício da cidadania. Estimular os alunos a refletir critica e analiticamente sobre a democracia implica interagir com o mundo político que há mais além dos muros da escola. Assim, seria importante levantar questões sobre o que teria permitido que um empresário falastrão, sem nenhuma experiência política prévia, vencesse a indicação do Partido Republicano. Da mesma forma, ainda que o fenômeno não seja tão extraordinário, seria proveitoso indagar o que teria levado os democratas a escolher a mulher de um ex-presidente como sua candidata. Além disso, seria fundamental estimular os alunos a prestar atenção à retórica eleitoral, tanto para identificar os momentos em que os candidatos baixam o nível do debate, como para verificar a veracidade de suas afirmações mais espalhafatosas.

Não é necessário que os professores da rede pública permaneçam estritamente "neutros". Em termos etimológicos, a palavra "educação" tem o sentido de "nutrir", "cultivar", e não há como fazer isso somente com aulas áridas sobre as respectivas atribuições dos três poderes. Não há razão para se exigir que os educadores façam cara de paisagem ao discutir os desdobramentos de uma campanha eleitoral em classe. Assim como não tem cabimento impedi-los de, numa análise criteriosa, mostrar um candidato sob luz mais favorável que o outro. Mas o tom empregado pelo docente nessas ocasiões faz toda a diferença: compartilhar um ponto de vista ponderado é uma coisa; doutrinação é outra. Por mais sérias que sejam as questões em jogo, por mais inaudita que seja uma candidatura, não há motivo para que os professores entrem em sala de aula exibindo bottons e adesivos de um candidato ou que tentem enfiar a todo custo suas opiniões políticas na cabeça dos alunos. 

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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