Desemprego intelectual cresce 131%

A chance de uma pessoa com ensino fundamental incompleto arrumar emprego em São Paulo é incomparavelmente maior do que para um candidato de nível universitário. Enquanto a taxa de desemprego para o primeiro grupo cresceu 6,9% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período em 1995, o crescimento do desemprego para quem tem diploma cresceu 131%.?Esse é um fenômeno completamente novo no Brasil. Há duas décadas, era impossível imaginar que alguém chegaria à universidade e não teria trabalho?, afirma o economista e secretário de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade de São Paulo, Márcio Pochman. Os diplomados perdem menos, porém, do que os trabalhadores com ensino médio completo, que viram o desemprego no segmento aumentar em 140%.Economia em baixaPara o economista, a explicação se deve exclusivamente ao fraco desempenho da economia na última década ? e não ao aumento da oferta de cursos universitários que, segundo dados do Ministério da Educação, saltou de 6.950 em 1998 para 15.007 em setembro deste ano.?Não é falha da universidade. A participação dos universitários na População Economicamente Ativa (PEA) é de 19,3% em São Paulo, o que é muito pouco para um país como o Brasil?, afirma Pochman.Além de crescer aquém dos 5% ao ano necessários para absorver o 1,5 milhão de pessoas que ingressam no mercado de trabalho a cada ano, as poucas vagas que foram abertas são de ocupações simples. ?De cada 10 vagas abertas nos anos 90 no Brasil, 3 foram de empregos domésticos?, explica o economista.Sub-aproveitamentoUm estudo realizado pela Secretaria do Trabalho com dados do IBGE e do Ministério do Trabalho revela o grau de sub-aproveitamento da população de alta escolaridade, que tem buscado a sobrevivência em atividades que não exigem diploma. Cerca de 8% dos trabalhadores com curso superior (425,3 mil pessoas) estão inseridos em atividades abaixo de sua qualificação.Somando os 111,7 mil ?doutores?, o porcentual da PEA com nível universitário que está mal aproveitado chega a 11,3%. ?É o desemprego intelectual. Há um enorme desperdício de potencial de pessoas preparadas?, afirma Pochman.Dos 425,3 mil universitários que estavam em ocupações abaixo de sua qualificação em 2001, 19% tinham um pequeno negócio na indústria alimentícia, enquanto 12,6% trabalhavam de atendente ou recepcionista. A lista das sub- ocupações é extensa e inclui, entre outros, cabeleireiros (1,7%), babás (1,6%), carteiros (0,5%) e garçons.Boa perspectivaEntretanto, a dificuldade em arrumar emprego apesar do diploma não deve ser vista como um desestímulo ao estudo. ?As pessoas conferem à universidade um papel que ela não tem. Ela não é um passaporte para o emprego. O emprego é determinado pela situação econômica?, afirma Pochman.Quando a economia voltar a crescer, a tendência, avalia, é de que aqueles com maior escolaridade terão melhores oportunidades. Se hoje já está difícil arrumar emprego com baixa escolaridade, vai ficar mais difícil no futuro. leia também Muitos diplomas e nenhuma oportunidade Vida universitária fica mais longa

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.