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Desempenho do ensino médio está estagnado há quatro anos

Apenas dois Estados cumpriram a meta do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) nesta etapa do ensino: Amazonas e Pernambuco; dados foram divulgados nesta quinta-feira, em Brasília

Luísa Martins e Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

08 de setembro de 2016 | 12h57
Atualizado 08 de setembro de 2016 | 23h28

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) dos alunos brasileiros do ensino médio está estagnado desde 2011 e abaixo da média estipulada pelo Ministério da Educação (MEC). Dados divulgados nesta quinta-feira, 8, pelo ministro Mendonça Filho revelam, ainda, que o ensino médio da rede privada teve o pior desempenho desde o início da série histórica do indicador, iniciada em 2005.

O Ideb é o principal índice de desempenho da educação básica brasileira. É formado por dois componentes: a aprendizagem em Matemática e em Língua Portuguesa e a taxa de fluxo (aprovação, reprovação e abandono escolar). Divulgado a cada dois anos, avalia alunos do ensino fundamental e do médio públicos e privados. Foram projetadas metas para cada edição, até 2021,segundo o ponto de partida de cada rede.

Em 2015, apesar de 18 Estados terem aumentado seu índice em relação a 2013 (contando rede pública e privada), apenas Amazonas e Pernambuco conseguiram alcançar a meta estabelecida pelo MEC. Distrito Federal, Rio de Janeiro, Rondônia, Sergipe e Tocantins mantiveram a mesma nota, enquanto Goiás, Minas, Rio Grande do Sul e Santa Catarina registraram piora.

Vergonha. Considerando todo o Brasil, o indicador está em 3,7 no ensino médio, configurando o maior gargalo do ensino básico no País. Em 2013, o objetivo era alcançar 3,9; no ano passado, 4,3. “São índices absolutamente vergonhosos para o Brasil”, resumiu o ministro. Ainda assim, ele garantiu que o governo não cogita diminuir as metas e emendou uma piadinha, parodiando a ex-presidente Dilma Rousseff. “Não vamos diminuir nem dobrar a meta.”

De acordo com dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), um dos braços de cálculo do Ideb, o desempenho em Matemática é o pior desde 2005. Os avanços na área de Língua Portuguesa também andaram a passos lentos da última década para cá.

No recorte da rede estadual de ensino médio, que inclui 6,8 milhões de alunos (mais de 85% do total do País nessa etapa), o índice aumentou pouco: de 3,4 para 3,5. Outros dois Estados - além de Amazonas e Pernambuco - tiveram rendimento satisfatório: Goiás e Piauí. O restante ficou aquém do esperado.

Apesar de, no geral, concentrar alunos com maior nível socioeconômico, o que costuma levar a desempenho escolar mais alto, a rede privada também teve mau resultado. A nota geral dos alunos de escolas privadas recuou de uma avaliação para outra, de 5,4 para 5,3. Nesse universo, só um Estado bateu a meta: Roraima.

Desafios. O presidente do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Educação (Consed), Eduardo Deschamps, defende flexibilização do currículo, expansão dos colégios com jornada integral e integração com a educação técnica. “Isso já é feito no mundo inteiro. Precisamos começar logo no País porque demora para ter resultado”, diz. “Não é um problema de gestão pública ou privada. É uma dificuldade estrutural por causa do modelo do ensino médio”, avalia.

Amábile Pacios, da Federação Nacional de Escolas Particulares, também atribui a nota fraca ao currículo engessado. “São conteúdos extensos. Para dar conta de tudo, seria necessário trabalhar em todas as escolas em período integral.” 

Meta é atingida em parte do fundamental

O ensino fundamental teve avanço de notas do Ideb nos anos iniciais (1.º ao 5.º ano) e nos anos finais (6.º ao 9.º ano), mas só a primeira etapa atingiu a meta estabelecida pelo Ministério da Educação (MEC) para 2015. Essa tendência, já observada na última década, preocupa especialistas. O avanço das séries iniciais perde fôlego nas etapas seguintes - anos finais do fundamental e no médio. 

O fundamental 1, que concentra alunos entre 6 e 1o anos, superou a meta de 5,2 e ficou em 5,5. A maioria das unidades de federação cumpriu a meta, com exceção de Amapá, Rio e Distrito Federal. A evolução tem sido mais lenta em Matemática. 

Do 6.º ao 9.º ano do ensino fundamental, fase com maioria de alunos de 11 a 15 anos, o País não atinge a meta desde 2013. No ano passado, ficou em 4,5, quando o ideal seria 4,7. Ao contrário da faixa anterior, a maioria dos Estados ficou abaixo da expectativa: se saíram bem apenas Pernambuco, Amazonas, Mato Grosso, Ceará e Goiás.

No ensino fundamental 2 público, segundo o MEC, também afeta a nota a alta taxa de retenção, causada por repetência ou pelo atraso no progresso escolar. A situação é mais grave no Norte e no Nordeste. Nos anos iniciais do fundamental, 75,8%% dos municípios do País atingiram a meta. Já nos anos finais a situação praticamente se inverte: 28,6% das cidades estão no patamar adequado para 2015, considerando redes estaduais e municipais. 

Alerta. Para especialistas, o avanço mais veloz em Língua Portuguesa do que em Matemática se explica pela maior clareza sobre os objetivos de aprendizagem nos campos de leitura e escrita entre os professores do que no campo dos números. Também são apontadas como motivo do melhor desempenho no fundamental 1 as políticas públicas focadas - como o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, criado em 2007. Esse programa federal foi inspirada em modelo do Ceará, recordista no número de municípios que alcançaram a meta do fundamental no Ideb 2015. Na etapa seguinte, são mais raras políticas públicas específicas. 

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