Desbravadores sociais

Alunos selecionados para o Projeto Rondon abrem mão das férias para promover cidadania no interior do País

Ana Bizzotto, Especial para o Estado de S. Paulo

28 Julho 2009 | 10h28

As férias, esperadas com ansiedade pela maioria dos estudantes para dar um tempo dos livros, são sinônimo de muito trabalho para os universitários selecionados pelo Projeto Rondon. Eles abrem mão do descanso em julho, janeiro e fevereiro para promover ações e conhecer a realidade de munícipios brasileiros com menos de 30 mil habitantes.   Criado pelo governo militar em 1967, o projeto foi extinto em 1989, mas não deixou de existir. No ano seguinte, um grupo de ex-participantes criou a Associação Nacional de Rondonistas, que deu continuidade às operações. "Um aluno criado na capital não tem ideia dos brasis que há por aí. Se esses futuros líderes adquirem consciência da diversidade que existe, poderão contribuir para um País mais justo", diz o presidente da associação, Sérgio Mario Pasquali.   Em 2005, o governo criou o Comitê de Orientação e Supervisão do Projeto Rondon, que retomou as operações nacionais. As ações são coordenadas pelo Ministério da Defesa, em parceria com oito ministérios.   Ao todo, mais de 500 mil alunos já participaram do projeto em seus 42 anos de atividade, cada um apenas uma vez. "A demanda é muito grande. Para atender ao maior número possível de alunos, estabelecemos esse critério", afirma o coordenador-geral do Projeto Rondon, general Júlio de Amo Júnior.   Graças à sua experiência em teatro, o estudante de Engenharia Ambiental Felipe Peneluppi foi escolhido para o grupo de seis alunos da Universidade de Taubaté (Unitau) que participou da operação realizada em Restinga Sêca (RS). Ao todo, 40 equipes com 320 rondonistas de todo o País promoveram ações em 20 cidades gaúchas no mês de julho.   Além de se apresentar em uma esquete e coordenar uma oficina de formação de atores, Felipe gravou a vinheta reproduzida nas ruas da cidade por um carro de som. "Uma integrante escreveu a peça, outros se esforçaram para decorar o texto. Isso mostra a versatilidade e multidisciplinaridade do projeto. O que levaremos daqui é a troca de vivências ocorrida em uma realidade tão diferente da nossa."   Cada grupo é reunido no conjunto A ou B, de acordo com as ações desenvolvidas. O conjunto "A" promove atividades de Cultura, Direitos Humanos e Justiça, Educação e Saúde. O "B" se dedica à Comunicação, Meio Ambiente, Trabalho, Tecnologia e Produção.   Seis estudantes da Escola Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) integraram o conjunto B nos 15 dias de atividades realizadas em Paraíso do Sul (RS). "Além de pôr em prática conhecimentos adquiridos na universidade, eles exercitam cidadania, civismo, ética, patriotismo e altruísmo", afirma o professor Arquimedes Lavorenti, coordenador do grupo. Ele considera difícil encontrar alunos de apenas uma área capazes de contribuir nas diversas ações. "Cabeças diferentes pensando sobre cada tema enriquecem o resultado."   A estudante de agronomia da Esalq, Gabriela Geerdink, promoveu plantio de árvores e palestras sobre uso de agrotóxicos e aproveitamento de alimentos. "Por estar vindo de fora, trazemos coisas novas e enxergamos problemas que eles não estão conseguindo ver."   Um dos benefícios de promover as ações, segundo o aluno de Gestão Ambiental da Esalq, Lucas Rodrigues, é contribuir para a autonomia da cidade. "É o mínimo de retorno social que podemos dar como universidade pública. Além dessa contribuição, o grande ganho é nosso. O projeto nos faz reavaliar a postura profissional e o papel na sociedade."   O estudante de Psicologia da Unitau, Gabriel Ferraz, foi um dos organizadores dos cursos realizados em Restinga Sêca. "Ninguém melhor do que eles para falar da cidade e de seus problemas. Nessa troca se constroem novos saberes e isso gera transformação."   Os temas dos workshops, debates e atividades culturais são escolhidos a partir de uma viagem precursora, que é obrigatória e feita dois meses antes pelos coordenadores dos grupos. O objetivo é estabelecer um contato prévio e organizar as ações de acordo com as necessidades do município.   A professora Leonilia Vieira, coordenadora do grupo da Unitau, foi rondonista quando cursava o 2º ano de Enfermagem, em 1977. A filosofia do projeto, segundo ela, mudou bastante nesse período. "O Rondon tinha um caráter muito assistencialista. Hoje, a gente leva uma proposta aberta para ouvir a comunidade. O objetivo é capacitar gestores em várias áreas para que eles deem continuidade às ações."   A Paraíba também foi escolhida para as operações de julho. Durante duas semanas, 384 estudantes promoveram ações em 24 cidades. "Cria-se um vínculo bastante próximo entre a universidade e a população, e muitas continuam mantendo contato, mesmo a distância", afirma o coordenador-geral do Projeto Rondon, general Júlio de Amo Júnior.   Extensão O desenvolvimento de atividades do Projeto Rondon foi estendido para todo o ano letivo na Universidade de Brasília (UnB), que desde 2007 oferece a todos os cursos duas disciplinas para a elaboração de projetos sociais nos moldes das operações nacionais. "A UnB era uma das que mais participava das operações. Começamos a perceber que nossa demanda era muito grande, por isso decidimos criar as disciplinas para que mais alunos pudessem participar", afirma o coordenador do núcleo do projeto Rondon na UnB, Antônio Carlos dos Anjos Filho.   Oito turmas com 240 alunos participam a cada semestre dos projetos, que culminam na realização de viagens para localidades próximas. No mês de julho, 80 alunos promoveram atividades em seis municípios de Minas Gerais. "Um trabalho com a amplitude temática do Rondon faz com que o aluno se capacite em todas as áreas", diz Filho.

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