ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Desafios para um bom desempenho

Tempo e vida pessoal apertados podem ser prejudiciais para estudantes que pretendem se dedicar ao MBA

Guilherme Guerra, Especial para o Estado

13 Novembro 2018 | 07h00

Tempo e vida pessoal dos estudantes são os fatores que mais podem ser prejudiciais para um bom desempenho no MBA. No Brasil, são exigidas pelo Ministério da Educação (MEC) um mínimo de 360 horas na pós-graduação lato sensu, como os programas de administração de negócios com duração de dois anos. Alguns MBAs no Brasil podem chegar a até 600 horas/aula, acima do padrão internacional de 500 horas em período integral.

A aluna do MBA Executivo Internacional da Fundação Instituto de Administração (FIA), Maria Luiza Mendes, tem aulas somente a cada quinze dias, às sextas e aos sábados, em um programa de 610 horas. Quando a advogada não tem aula, ela se aperta entre a sua agenda profissional, acadêmica e pessoal e se prepara para as semanas seguintes, fazendo leituras, escrevendo trabalhos e realizando videoconferências em grupo, mas só “às 21h30 porque é quando a família dorme”, conforme diz.

Paralelamente, Maria Luiza faz um curso online de atualização sobre gestão de projetos, reservado para tomar os seus domingos. E acrescenta: “O MBA pede um planejamento fora de aula para que eu consiga ter o desempenho que quero”.

Conciliação. Desde 2017, esse tem sido o cotidiano de Maria Luiza. E é o cenário mais comum para muitos outros estudantes: trabalho, faculdade, casa. A título de comparação, o MBA nos Estados Unidos e Europa é período integral, o que faz com que o cenário brasileiro já seja atípico quando posto ao lado das grandes universidades estrangeiras. Aqui, não é possível abdicar de um programa desses por uma simples razão: os estudantes precisam ganhar dinheiro para pagar as aulas. Por isso, na maior parte das vezes, as universidades brasileiras oferecem programas à noite.

De acordo com o levantamento realizado pela Associação Nacional de MBA (Anamba) em parceria com o instituto de pesquisa Noz, 88% dos alunos que ingressaram em algum programa de administração de negócios têm vínculo empregatício. “O nosso aluno não abre mão do trabalho (para se dedicar apenas aos estudos)”, afirma o atual diretor executivo da instituição, Leandro José Morillas. 

O relatório, publicado em 2018, com base em dados do ano anterior fornecidos por 14 instituições de ensino do País, aponta também que a média de idade do estudante é de quase 31 anos e que o tempo após a formatura para ingressar no MBA é, em média, de seis anos. “No Brasil, a gente tem de entender essa necessidade do mercado por um aluno que pague suas próprias contas”, diz.

Ainda assim, ele conta que o estudante brasileiro procura brechas na rotina para acompanhar o curso. E Morillas afirma que é bem comum a participação da família, ainda que indireta, nessa empreitada de conciliação entre obrigações e sonhos. “Quando a gente vai à cerimônia de formatura deles, a gente encontra menção à família”, lembra. “Os alunos agradecem a paciência (dos parentes)”, diz o diretor executivo da Anamba.

Mulheres

A rotina que Maria Luiza cultiva desde 2017, e continuará a ter até novembro de 2019, teria sido antes nos planos da advogada. Ela planejava começar um MBA em 2011 porque pretendia abandonar o viés técnico da sua formação para investir em uma parceria de negócios no setor jurídico. Mas ela postergou o desejo quando engravidou. Agora, a criança tem 6 anos de idade e há mais tempo para conciliar o curso com o resto da vida. E Maria Luiza acrescenta: “Mulher tem isso de ser dona de casa. Foi puxado, mas foi gratificante. Teve um bom retorno”.

Da turma de 30 pessoas com quem ela estuda na Fundação Instituto de Administração (FIA), a advogada é a sexta mulher da sala, uma minoria que tem crescido ao longo dos anos, de acordo com relatório interno da faculdade feito a partir de dados das matrículas. De 2002 para 2018, o público de estudantes feminino do MBA subiu de 26% para 39%, atingindo um pico de 44% em 2014. Nos cursos de pós-graduação, entre as mulheres, o salto foi de 22% para 48%.

O diretor da Faculdade FIA, Maurício Jucá de Queiroz, reconhece esse avanço e observa o desempenho das profissionais. “É evidente a expansão das mulheres nos cursos de MBA. E é crescente. Elas são mais dedicadas e estão no mesmo nível gerencial (do que os homens)”, afirma Queiroz.

Hora certa

Quanto à idade dos candidatos a fazer um MBA, Queiroz conta que há recém-formados com 22, 23 anos tentando vagas nos programas de Administração de Negócios. No exterior, de acordo com ele, isso é um traço comum, já que por lá o MBA equivale a um mestrado e há uma inserção tardia no mercado de trabalho. No Brasil, o curso é uma especialização e a graduação já insere profissionais no mercado, às vezes durante o próprio período de faculdade.

“Tenho visto jovens recém-formados, na ânsia de mostrar serviço, buscando MBAs”, conta o diretor da FIA. “Eu entendo que essa pessoa deveria esperar dois, três anos para depois se especializar e aí procurar MBA. Precisa de experiência profissional”, afirma, apontando para a importância do networking na troca de práticas entre os seus iguais.

Queiroz frisa, no entanto, que não há critério máximo ou mínimo de idade para se inscrever em um curso de MBA. Alguém com 15 anos de formado é tão bem-vindo quanto os mais jovens. O importante é continuar se atualizando, diz o diretor da Faculdade FIA. “Todo mundo tem de voltar para o banco escolar hoje em dia.”

Depoimento: 'Depois de fazer o curso, enxergo mais à frente'

Paulo de Castro, que fez MBA de Gestão Estratégica de Negócios e Economia Empresarial na Fipe

“Decidi cursar um MBA após uma carreira bancária de 35 anos ininterruptos. Sentia que faltavam conhecimentos mais estratégicos e uma visão de como as empresas pensavam a sua sustentabilidade e como se posicionavam frente à concorrência.

Hoje, tenho 39 anos de carreira bancária em grandes bancos, atuando como superintendente comercial. Entre diversas funções, tenho a obrigação de conhecer empresas, suas estratégias e principalmente ter uma visão apurada para o estabelecimento de linhas de crédito e oferecimento de serviços bancários.

Obviamente que, ao longo desse MBA, foi exigida de mim uma dedicação em sala de aula e mesmo fora dela para que houvesse de minha parte um melhor aproveitamento de tudo que os professores da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) nos passavam em sala de aula. Ressalto minha admiração por esses mestres que de forma suave e até carinhosa nos ensinavam.

Sinto que deveria ter feito esse MBA muito tempo antes, pois o curso me ajudou a consolidar uma longa carreira e deixou dentro de mim algo que ninguém tira: meu conhecimento. Hoje, possuo uma visão mais ampla, “enxergo” estrategicamente mais à frente e me relaciono com diversas empresas com atividades diferentes, entendendo suas formas de atuação.

A rotina de um MBA e a interação com colegas de diversas empresas e bancos é puxada, pois um dos objetivos de um MBA é se relacionar com colegas e trocar ideias sobre o dia a dia de cada um e como estamos aplicando nosso aprendizado.”

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