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‘Desafios’ e autocuidado

Quando os filhos são pequenos, cuidamos deles porque eles ainda não têm condições de cuidar de si. Mas, à medida que vão crescendo, ao serem cuidados, eles aprendem, simultaneamente, o que é cuidar e como cuidar

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2020 | 05h00

Recentemente, tivemos notícias de mais dois “desafios” nascidos na internet que chegaram a crianças e adolescentes rapidamente, como costuma acontecer. No primeiro, chamado de quebra crânio, uma pessoa era convidada a participar de um jogo, mas a vítima não sabia que se tratava de uma pegadinha idiota que a derrubaria. Muita gente se machucou nessa história. O outro, mais recente, é chamado de “desafio do sal”. A meta? Derrubar um pote de sal na garganta e tentar engolir. Nem precisa dizer o quanto isso é perigoso.

Por que usei aspas na palavra “desafio”? Porque, obviamente, não se tratam de desafios e muito menos de brincadeiras. Não vou tratar da necessidade de tutela no uso da internet que crianças e adolescentes fazem. Já tratamos disso. Mas algumas questões podem nos levar a refletir. A primeira delas é o autocuidado.

Quando os filhos são pequenos, cuidamos deles porque eles ainda não têm condições de cuidar de si. Mas, à medida que vão crescendo, ao serem cuidados, eles aprendem, simultaneamente, o que é cuidar e como cuidar. Quando lembramos aos filhos que eles precisam tomar banho diariamente, lavar as mãos, escovar os dentes, quando os levamos ao médico ou para tomar vacinas, estamos ensinando como se preserva a saúde física e mental.

O autocuidado é, portanto, uma aprendizagem fruto do ser cuidado e da associação do cuidar com o ficar – ou permanecer – bem, associação essa que precisa ser atuada pelo adulto que cuida do mais novo. “Você toma banho todos os dias? Por quê?” Fiz essa pergunta a diversas crianças e a resposta mais frequente foi: “Tomo, porque minha mãe manda”. Nenhuma criança lembrou da manutenção da saúde. Talvez nunca tenham ouvido isso...

Quem cuida de si faz avaliações de risco. Avaliar risco é pensar nas consequências que um ato pode trazer e avaliar se vale a pena correr os riscos ou não. Nenhuma das crianças ou jovens que toparam essas provocações da internet fizeram avaliação de risco nem demonstraram ter, ainda que em processo de construção, o autocuidado.

Outra reflexão que quero trazer é a ausência, na vida dos mais novos, de desafios. Você já pensou qual o motivo de muitas crianças gostarem tanto de videogame ou jogos online? Justamente os desafios. Tudo o que eles querem é passar para a próxima fase, que sabem que será mais difícil.

Foi com uma criança de 8 anos que aprendi isso. Aproximando-se o fim do ano em uma escola, os alunos do 1.º ano passaram a expressar medo e resistência em relação ao próximo passo. Coordenadoras e professoras decidiram levar alunos do segundo ano para conversar com os resistentes. Logo um aluno do segundo ano perguntou quem jogava videogame. A maioria. E foi aí que ele comparou com a passagem para o 2.º ano e explicou aos colegas que eles iriam passar para a próxima fase. Que, sim, era mais difícil, mas passar de fase significava que já estavam preparados.

Frequentar a escola não tem se mostrado um desafio na vida dos mais novos. São obrigações com a família e com a instituição escolar que eles precisam honrar e cumprir, é assim que eles entendem.

Pois bem: o resultado dessas breves reflexões pode ser o de considerar a possibilidade de não estarmos ensinando o autocuidado e a avaliação de risco aos mais novos de tão ocupados que estamos em cuidar deles, inclusive quando eles já demonstram ter condições de cuidar, um pouco que seja, deles mesmos.

Precisamos também pensar se não temos colocado mais obrigações do que desafios na vida deles. Viver sem desafios na vida pode ser entediante para muitos, não é? Por último: para bem viver, pessoal e coletivamente, é preciso ter a amor à vida. Como temos – se temos – transmitido isso a nosso filhos e alunos?

 

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