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Desafio da educação de crianças em casa vem de antes da quarentena

Não é de hoje que as famílias têm abdicado, cada dia um pouco mais, desse papel tão importante na vida dos filhos.

Rosely Sayão, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2020 | 14h00

Na Inglaterra, com o retorno dos estudantes às escolas para um novo ano letivo após a quarentena – lá isso ocorre em setembro –, o órgão que fiscaliza as instituições escolares fez um levantamento de como as crianças foram afetadas pelo fechamento das escolas.

O documento apontou que as crianças menores foram as mais prejudicadas pela falta do convívio escolar: muitas desaprenderam o uso do garfo nas refeições, regrediram ao uso das fraldas e diminuíram o seu vocabulário. Crianças maiores mostraram maior dificuldade de focar a atenção e de conviver com o mundo real. Li essa notícia na internet e considerei ser esse um bom pretexto para refletirmos a respeito da educação familiar.

Desde seu nascimento, a criança fica submetida ao estilo de vida da família e aos seus ensinamentos. São os adultos do grupo familiar que a ensinam a falar, andar, a usar o banheiro, a se vestir, a se alimentar com outras pessoas, a ter atitudes de higiene, a obedecer aos pais e a outros adultos que estão regularmente juntos, a conviver com pessoas de diferentes idades e a respeitar regras, por exemplo.

Chamamos esse processo dos primeiros ensinamentos de socialização primária – o conjunto das atitudes iniciais que vão permitir à criança conviver bem com seus familiares e a ser querida em seus relacionamentos.

Não é de hoje que as famílias têm abdicado, cada dia um pouco mais, desse papel tão importante na vida dos filhos. Muitos consideram a entrada da mulher no mercado de trabalho como a grande responsável por esse fenômeno. Entretanto, há valores sociais e culturais em jogo, além da ausência da mulher em casa. Primeiramente, vamos reconhecer que, no mundo atual, vale mais quem mais tem. Numa cultura tão consumista como a que temos, é compreensível que os adultos se dediquem cada vez mais ao trabalho a fim de poder consumir mais, inclusive ofertando muito aos filhos. E dedicar-se mais ao trabalho significa, é lógico, ficar menos disponível aos filhos.

Quando os pais chegam em casa do trabalho, ou terminam o trabalho remoto feito em casa mesmo, a energia gasta foi tanta que faz com que tudo que eles queiram seja PAZ. 

Mas, com filhos em casa, é difícil ter essa paz tão desejada. Seja com transgressões e/ou demandas intensas e contínuas, o que os filhos comunicam é que eles querem PAIS. Nasce, assim, um pouco do declínio da atuação dos pais: exaustos pelo trabalho, a vida com os filhos vai para segundo plano.

Outro fator importante é a dificuldade, no mundo atual, de manter relações afetivas com os pares. Hoje, tudo e qualquer coisa é motivo para se desfazer um relacionamento entre adultos. Como é muito mais árduo viver sem essas relações duradouras, os adultos têm investido no relacionamento com os filhos.

Ocorre que essa situação provocou uma grande mudança no relacionamento entre pais e filhos. A criança pequena permitia ser educada pelos pais por receio de perder o amor deles. Hoje, entretanto, são os pais que temem perder o amor dos filhos e essa inversão mudou bastante a busca de um papel da autoridade necessária dos adultos e relação a esses filhos.

Por último, quero lembrar do valor que a juventude quase eterna ganhou no nosso mundo. O desaparecimento da infância e a invisibilidade da velhice – tão mascarada pela expressão terceira idade – mostram que ser continuamente jovem é fundamental para a manutenção de um lugar reconhecido na sociedade. E isso não significa apenas ter aparência jovem: recusar a maturidade e manter o estilo de vida juvenil deixa o lugar de adulto vago. E só um adulto consegue assumir a tarefa educativa com os mais novos.

Não precisamos ir à Inglaterra, local da notícia citada no início do texto, nem responsabilizar a quarentena e o fechamento das escolas pelo déficit do processo de socialização primária das crianças. Para ilustrar, narro um exemplo por mim testemunhado e muito familiar às escolas de educação infantil.

Por causa do trabalho remunerado da mulher, mas não apenas por isso, crianças têm frequentado escolas desde muito cedo, antes até de completar um ano. Já vi mães levando filhos de pijama e entregando a roupa para a professora colocar na criança. Vale lembrar que se o processo da socialização primária, que seria responsabilidade da família, não foi realizado, a escola arca com esse papel, o que atrasa o processo de socialização secundária, esse, sim, função da instituição escolar.

É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLÁ

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