RAFAEL ARBEX ESTADAO
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Deputados acusam Enem de 'doutrinação' por abordar feminismo

Bolsonaro e Feliciano condenaram questão que trazia texto de Simone de Beauvoir; redação tratou de violência contra a mulher

O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2015 | 16h35

Atualizada às 23h24

SÃO PAULO - Os deputados Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marcos Feliciano (PSC-SP) usaram as redes sociais para protestar contra uma questão do primeiro dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O item abordava o feminismo e trazia um texto da filósofa francesa Simone de Beauvoir, o que foi considerado uma tentativa de “doutrinação” pelos parlamentares.

“Essa frase da filósofa Simone de Beauvoir é apenas opinião pessoal da autora, e me parece que a inserção desse texto, uma escolha adrede, ardilosa e discrepante do que se tem decidido sobre o que se deve ensinar aos nossos jovens”, disse Feliciano, por meio de uma rede social. Ele ainda afirmou que o Ministério da Educação (MEC) tenta “impingir a teoria de gênero goela abaixo, com subterfúgios” para 7 milhões de estudantes.

“Mais ou tão grave quanto a corrupção é a doutrinação imposta pelo PT junto à nossa juventude”, comparou Bolsonaro em sua conta nas redes sociais. O deputado afirmou que a pergunta faz parte de uma tentativa do governo de tornar os brasileiros “idiotas”. Para Bolsonaro, o Enem é o “Exame Nacional do Ensino Marxista”.

A questão, da prova de Ciências Humanas pedia aos candidatos para relacionarem o pensamento da filósofa francesa com o seu movimento social correspondente. A resposta correta da pergunta indicava a relação com “protestos públicos para garantir a igualdade de gênero". Nas redes sociais, boa parte dos internautas comemorou a escolha do tema. 

Redação. No ano em que a menção ao combate à desigualdade entre homens e mulheres foi retirada de vários planos municipais e estaduais de educação, a “persistência da violência contra a mulher no País” foi o tema da redação do Enem. A proposta, para especialistas, sinaliza a importância de tratar o assunto, tanto na educação básica quanto na universidade.

Para escrever o texto, os candidatos contaram com uma coletânea de dados que evidenciava a violência de gênero no País. “Esse tema (violência contra a mulher) precisa ser debatido na escola. Queremos que os jovens melhorem a sociedade e que exista uma superação geracional do machismo. Para isso, eles precisam debater o assunto”, defende Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Em vários planos de educação, como o da cidade de São Paulo, metas sobre o combate à desigualdade de gênero na escolas foram excluídas após pressão de grupos conservadores e lideranças religiosas. Já a proposta de currículo nacional para a educação básica, apresentada em setembro pelo Ministério da Educação (MEC) e ainda em consulta pública, tem referências ao assunto. “A discussão sobre igualdade de gênero deve ser uma política de Estado, independente de partidos”, diz Cara.

Dificuldade. Para candidatos e professores, a proposta de redação foi mais fácil do que nos anos anteriores. A ampla divulgação do assunto na mídia, dizem, facilita. “Apesar de não ter feito texto na escola sobre isso, soube falar, porque na mídia sempre tratam da violência contra a mulher, mostram histórias e protestos feministas”, disse Lucas Soares, de 17 anos, que fez a prova na capital paulista e quer cursar Engenharia. 

Luiza Abreu, de 18 anos, “adorou” o tema. “Nós, mulheres, enfrentamos violência quase todos os dias. Não só sabemos falar sobre isso como também defender que esse tema seja mais debatido”, diz ela, também de São Paulo, que quer Direito.

Professora de redação do Objetivo, Maria Aparecida Custódio vê na Redação a tarefa mais fácil deste ano. “O candidato encontrou dificuldade bem menor do que em 2014 (quando se falou de publicidade infantil). Ano passado, ele podia se posicionar a favor ou contra”, diz.

Eduardo Calbucci, do Anglo, também acredita que a dificuldade foi menor do que nos três anos anteriores. “É um assunto mais palpável.” Diferentemente de outros vestibulares, o Enem ainda exige que o candidato apresente soluções para o tema proposto. A negação do cenário de violência, alerta Calbucci, pode mostrar um candidato “descolado da realidade”.

Mesmo assim, houve alguns na direção contrária. “É uma falta de respeito com os homens, porque trata a mulher como vítima, quando o problema, na verdade, é dela própria”, disse Hugues Maraues, de 55 anos, que fez a prova em Porto Alegre.

“Elas só querem saber de homem rico”, completa ele, que já foi enquadrado por violência contra a mulher na Lei Maria da Penha, também citada na prova. Ele diz ter defendido seu ponto de vista no texto. 

Outras provas. Segundo professores, a prova de Linguagens teve enunciados longos, o que deixa o teste mais trabalhoso. Houve referências a autores clássicos, como Graciliano Ramos e Olavo Bilac, e a músicos, como Pixinguinha e Toquinho.

Já a parte de Matemática teve nível alto, com exigência de cálculos mais complexos do que nos outros anos e até com temas menos comuns no Enem, como logaritmo. /PAULO SALDAÑA, ISABELA PALHARES, VICTOR VIEIRA e GUILHERME MENDES, NAIRA HOFMEISTER, THALES SCHMIDT, MARCEL HARTMANN, LUCIANA AMARAL e JAMYLLE MOL, ESPECIAIS PARA O ESTADO

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