Depois do vestibular, a ordem unida

Nem uma semana de aula e já aparecem joelhos ralados, queixo machucado, saudades. Mais evidente ainda é o orgulho dos calouros em fazer parte da Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Nada importa a imagem ruim que a sociedade tem da carreira que escolheram.A rotina cheia de regras, disciplina rígida e esforço físico também pouco assusta quem conquistou sua vaga em cursos que estavam entre os mais concorridos da Fuvest. O sistema é de internato e a corneta toca às 6h00 em ponto.?Alvorada?, grita o oficial dentro do quarto onde dormem cerca de 20 meninos. É ainda a segunda manhã que acordam longe de casa. Na meia hora antes do café, eles passam as roupas, engraxam os sapatos, esticam bem a cama e tomam banho.MeninasNada muda na ala das meninas. Com os cabelos soltos ? proibidos durante as aulas ? passam batom e vestem as calças jeans de cintura alta e a camiseta branca, uniforme dos calouros. Farda, só depois dos dois primeiros meses.?Tudo aqui é vibração para a gente, desde a ordem unida (aprender a marchar, fazer continência) até a sala de aula?, diz João Guilherme Dmytraczenko, de 18 anos, o primeiro colocado do vestibular.?Bom dia, senhor?, respondem os novatos, em coro, ao professor. São 8 horas e o aluno-oficial Dmytraczenko, nome que lhe foi designado, aprende que ele será um líder e nunca poderá se esconder. Há 15 moças entre os cerca de 130 rapazes na sala. Rostos sérios, um bocejo aqui ou ali, quase ninguém se arrisca a perguntar alguma coisa.Dmytraczenko é minoria num território de filhos de militares. Seus pais são dentistas e sonhavam com um filho juiz. ?Admiro a atividade policial e o bem que podemos fazer para a comunidade.?Meninos carregaramNa Academia, para todo lado, há grupos marchando, correndo e cantando hinos. ?Está difícil?, desabafa Thaís Coscioni, de 19 anos, que há três tentava passar no vestibular. Conseguiu agora, quando a disputa estava em 76 candidatas por vaga.Ainda sensibilizada, ela conta que chorou porque não conseguiu completar uma hora e meia de corrida. ?Os meninos me carregaram.? Ela sente saudades da família e do namorado, mas se diz realizada. ?Sempre gostei de disciplina. O mundo não funciona sem leis.?O colega Sergio Vasques, de 17 anos, que desistiu de um curso na universidade para ingressar na PM, também sofreu com os exercícios. Caiu e machucou o joelho.Raras desistênciasAs desistências, no entanto, são raras: só duas em 2003. A Academia dá aos jovens, além do ensino superior e da garantia de emprego, um salário de R$ 1.100. O currículo inclui ensino jurídico, tiro, ética e administração. São mais de dez horas diárias de aulas.?E ainda escutamos as pessoas dizerem: não estudou e virou gambé?, conta a aluna do 3.ª ano Karin Yuki, de 20 anos, sobrancelhas impecável, unhas pintadas de marrom.NamorosEla e as colegas falam do comportamento exigido às mulheres na PM. ?Temos que preservar nossa imagem porque as pessoas que conhecemos hoje continuarão conosco daqui 30 anos?, diz Luciana Bezerra. Todas riem e confirmam, porém, vários namoros entre alunos. ?É muito difícil para uma militar namorar um civil.?Depois de um ano de formando, o ex-aluno torna-se tenente, pulando seis degraus na hierarquia, com relação aos que ingressam na PM por concurso público e não têm curso superior. O aluno da Academia é o único que pode chegar a coronel, o mais alto escalão da polícia.

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