Dentista: mercado grande entre os que não podem pagar

São mais de 20 anos de trabalho voluntário, dois livros e um grande projeto voltado para crianças carentes. Em 1995, Fabio Bibancos, de 38 anos, ortopediatra e ortondotista de gente famosa - como a cantora Wanessa Camargo -, criou o Projeto Adote um Sorriso, com o objetivo de sensibilizar os dentistas a fazer tratamento odontológico gratuito em crianças carentes. Ele sempre sonhou em ser dentista. Após cursar seis meses de rádio e TV, Rodrigo Garcia Salla, de 19 anos, também sonha em ser dentista e trabalhar por conta própria. Para tirar as dúvidas sobre a carreira, a Agência Estado realizou um encontro entre o estudante e o dentista. Rodrigo Salla - Quando você percebeu que tinha vocação? Fábio Bibancos - O problema está na nossa educação. Somos obrigados a escolher muito cedo o que vamos ser para o resto de nossas vidas. Não acredito em vocação, temos qualidades que são aplicáveis a diversas profissões. Uma pessoa que faz rádio e TV, por exemplo, poderia ser um bom médico ou dentista também. Como você decidiu que queria ser dentista? Escolhi odontologia quando fui fazer um teste vocacional da PUC, com duração de seis meses. Tinha feito ensino médio especializado em arquitetura porque a maioria dos meus amigos fazia. Eu até gostava de fazer desenho técnico, mas no último ano vi que aquela não era a minha praia. É um acaso ter dado tudo certo. Existem bons cursos de odontologia no Brasil? Claro, temos condições de formar grandes profissionais. O que te torna um bom dentista é estar antenado em coisas que não sejam só da sua área. Muitos dentistas tem um "olhar boca", ou seja, não vêem outras coisas no mundo que não estejam ligadas a nossa área. Que dificuldades você enfrentou para se formar? Estudar e ser feliz é difícil. Quando entrei na Unesp em Aricanduva, tinha 17 anos, morei sozinho numa república. Tive que achar um equilíbrio entre a hora que queria estudar e a hora que eu queria ser feliz. O que você aconselha: faculdade pública ou particular? Em 1982, quando eu estava prestando vestibular, havia diferença. Os melhores professores, com mestrados e doutorados, estavam nas faculdades públicas. Eles também ganhavam mais. Hoje, tanto faz. Temos o Provão e você pode escolher a melhor faculdade pela melhor nota. Com o avanço da tecnologia, o mercado de trabalho está mais restrito? Hoje as pessoas não têm tantos problemas nos dentes e temos 180 mil dentistas no Brasil. A cada ano, se formam cerca de 11 mil e o mercado está esgotado. Ao mesmo tempo, os mais pobres precisam muito de dentista. Então, há um amplo mercado, mas para quem não pode pagar tratamento. Qual a maior dificuldade de ser dentista? Fico triste porque, no Brasil, a odontologia não é relacionada com a vida. Ela não é vista como uma profissão primordial, como a de médico. Isso é o mais difícil.

Agencia Estado,

26 de agosto de 2002 | 20h55

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