Decepcionadas, famílias abandonam 'escolas top'

'Cobranças excessivas' são principal fator problemático

Luciana Alvarez, O Estado de S. Paulo

19 Julho 2010 | 00h33

Ivone Neuber com os filhos, Rodrigo e Thomaz, que hoje estudam no mesmo colégio

 

Depois de apenas dois meses de aulas neste ano, Ivone Neuber decidiu trocar seu filho Rodrigo de colégio. A primeira escola escolhida estava entre as cinco melhores do ranking do Enem de São Paulo e a expectativa era grande. Mas a boa classificação não significou satisfação com o ensino para a família. Na opinião de Ivone, a cobrança era exagerada para uma criança de apenas 11 anos.

 

A gota d’água foi quando o calendário escolar impediria uma viagem em família. "Planejávamos conhecer as cidades históricas de Minas durante o feriado de Páscoa, mas o Rodrigo teria de ficar estudando, pois tinha nove dias seguidos de prova logo depois. Vi que ele estava angustiado", lembra a mãe. "Não é só na escola que se aprende. Uma viagem cultural também é importante."

 

"Todo mundo fala que é ótima, a gente teve de responder uma série de questionários para conseguir a vaga, mas outras escolas que não estão no topo do ranking oferecem uma formação mais adequada", afirma Ivone. Rodrigo hoje estuda na Escola Viva, onde seu irmão, Thomaz, já estava matriculado. Agora, ele consegue aprender sob menos pressão. "Aquele perfil de escola não era adequado para meu filho nem para minha família", diz.

 

A publicitária Simone Ribeiro cansou de ser chamada na escola do filho, também entre as melhores da cidade, para ouvir reclamações sobre o comportamento de Fernando, de 15 anos. "Em três meses me chamaram cinco vezes para dizer que ele não se dedicava o suficiente", diz.

 

Para ela, porém, o problema era muito mais do colégio do que com Fernando. "Ele é extremamente criativo, inteligente, tem vários interesses, mas tem dificuldade de ficar sentado só vendo professor falar", explica Simone.

 

A mãe não se conformou em sofrer a cobrança por muito tempo. A troca para o colégio São Domingos foi feita no meio do primeiro semestre deste ano. Em poucos dias na nova escola, Fernando já se mostrava mais interessado nos estudos.

Mesmo se aproximando da fase de vestibular, a publicitária resolveu ignorar o ranking e se preocupar apenas com o tipo de pedagogia ao escolher a segunda escola do ano.

 

Simone acredita que da segunda vez acertou na decisão, mas conta que a experiência trouxe muito sofrimento para ela e para o filho. "Errei ao buscar um suposto melhor para ele. Hoje, meu conceito de ‘melhor’ é outro", diz. "Quero que meu filho tenha uma boa formação, mas também que seja aceito e reconhecido como ele é."

 

Fernando afirma ter gostado da mudança e diz que não se importa com a posição das escolas no ranking do Enem. "O ensino não vem só da escola, depende muito do esforço do aluno", argumenta. "Não é professor pegando no pé que vai ajudar."

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