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Década em frente à tela

Quantas vezes você interrompe, tanto sua refeição quanto a presença verdadeira na reunião familiar, para dar uma olhada no celular e até mesmo responder a algumas mensagens instantâneas?

Rosely Sayão*, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2019 | 05h00

Imagine você e sua família ao redor da mesa no jantar. Quantas vezes você interrompe, tanto sua refeição quanto a presença verdadeira na reunião familiar, para dar uma olhada no celular e até mesmo responder a algumas mensagens instantâneas? E seus filhos?

Pois é: na última década, tanto o cenário doméstico quanto as relações entre pais e filhos mudaram muito devido à estreita ligação que desenvolvemos com as tecnologias, notadamente com o aparelhos plugados na internet.

Estudo global feito na última década pela empresa AVG Technologies revela, por exemplo, que 48% dos pais brasileiros admitem usar celular ou tablet no jantar. Mais: 65% deles reconhecem se distrair com o aparelho enquanto conversam com os filhos – consideram essa atitude um de seus piores hábitos –, e 40% enviam mensagens instantâneas a algum parente na mesma casa! Não é impressionante? Realmente, precisamos admitir que nossas relações interpessoais e familiares têm sido mediadas pelas tecnologias. Para o bem e para o mal.

Pais que viajam a trabalho ou que só retornam para casa quando os filhos estão dormindo contam, por exemplo, com chamadas virtuais e mensagens instantâneas, não importa o local em que estejam. Antes desses recursos, a presença dos pais na sua ausência só era possível por fotos e bilhetinhos escritos. Hoje, ver os pais ao vivo muda tudo para as crianças. E os avós que moram longe? Nada como olhar os netos e acompanhar seu desenvolvimento. Melhor ainda para as crianças que, desde pequenas, ouvem as histórias que seus avós podem contar, mesmo tão distantes.

Mas – ah, esse mas... – os prejuízos do uso desenfreado da internet nos aparelhos portáteis têm sido bem grandes, tanto para os mais novos quanto para nós, adultos. Vamos fazer algumas constatações a esse respeito, primeiramente sobre o que ocorre com crianças e adolescentes.

Muitas crianças pequenas são colocadas em contato com tablets e celulares para assistir a vídeos, por exemplo; aprendem rapidamente a rolar as páginas do aparelho para escolher o que querem. Nada de espantoso nisso, gente! Desde que a criança inicia o controle dos movimentos, aprende a tocar o que lhe chama a atenção. Há estudiosos que afirmam que, pelo menos até os 18 meses, as crianças não deveriam olhar para essas pequenas telas. Há muito mais o que fazer e descobrir na exploração que visa ao conhecimento do mundo e das relações.

Crianças mais velhas já ganham a maior intimidade com os aparelhos e perdem tempo precioso – e pequeno! – de bem se desenvolver brincando com outras crianças, por exemplo. Fora que, muitas vezes, acessam conteúdos com os quais ainda não sabem lidar. Há adolescentes que sofrem e praticam bullying virtual por puro impulso, já que estão com tudo à mão; têm realizado exposições prejudiciais da intimidade, aprendido o que não precisam e, principalmente, se isolado muito por ficarem horas colados em seus aparelhos.

A pesquisa citada apontou dados bem preocupantes: no Brasil, 87% das crianças afirmaram que seus pais usam aparelhos em excesso a ponto de ficarem bem descontentes com a situação. E, olhe só o que ensinamos a eles: 59% dos pais brasileiros admitem usar o celular enquanto dirigem, inclusive com filhos no carro. É preciso também lembrar do trabalho que parece ter duração de 24 horas por causa do uso dos aparelhos com internet. Assim, o relacionamento familiar, o amoroso, o com os filhos, a vida pessoal, enfim, cede muito espaço à vida profissional. Perdemos demais com isso porque o que segura nossa onda, sanidade, energia, é a vida pessoal e não a profissional.

No balanço geral da década, constatamos que o uso que temos feito de aparelhos tecnológicos tem sido bem menos benéfico do que poderia. E nem adianta colocar a responsabilidade nos tempos modernos e nas tecnologias. São nossas escolhas que nos impedem de usar melhor todos os recursos disponíveis. “Sou adulto” deveria ser nosso mantra e entoado toda manhã, ou a todo momento em que nos pegamos prestes a agir impulsiva e irresponsavelmente – de modo infantil. Desse modo, quem sabe o balanço dessa questão no próximo ano seja mais favorável à nós e mais benéfico aos mais novos. E que seja um bom ano para cada um de nós!

*É psicóloga

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