Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Confira as polêmicas do Ministério da Educação de Vélez Rodriguez

Propagandas em livros didáticos, exonerações relâmpago e filmagem de alunos; relembre os casos no primeiro trimestre do ex-ministro da educação de Bolsonaro

João Ker, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2019 | 08h00
Atualizado 11 de abril de 2019 | 16h57

Com uma administração conturbada à frente do Ministério da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez foi o protagonista de algumas das principais polêmicas do primeiro trimestre de Jair Bolsonaro como presidente. Indicado ao cargo por Olavo de Carvalho, o ministro passou por boicotes e uma série de recuos até o anúncio de sua demissão nesta segunda-feira, 8. O economista Abraham Weintraub será o novo chefe da pasta.

Abaixo, relembre algumas das principais polêmicas criadas por Ricardo Vélez Rodríguez no Ministério da Educação:   

‘O brasileiro parece um canibal’

Em declaração à revista Veja, o ex-ministro Vélez Rodríguez, afirmou que o brasileiro viajando é um “canibal”, pois “rouba coisas dos hotéis” e isso precisa ser revertido na escola. Questionado no Supremo Tribunal Federal (STF), ele informou à ministra Rosa Weber que foi “infeliz” na declaração.

Filmagem de alunos cantando o ‘Hino Nacional’

Vélez enviou carta oficial do Ministério da Educação a diretores de escola sugerindo a leitura de um texto com slogan da campanha de Bolsonaro, seguida do ‘Hino Nacional’. Os alunos deveriam ser filmados e a gravação, enviada ao MEC.

A mensagem causou reação no meio educacional. O Conselho de Secretários Estaduais disse que a recomendação feria a autonomia dos entes da Federação e algumas pastas indicaram que não seguiriam a proposta.

Vélez Rodríguez teve de abrir mão do slogan e indicar que gravações “precisam ser autorizadas”. O caso rendeu críticas de Janaína Paschoal e fez com que a Procuradoria Geral da República abrisse uma investigação para apurar uma possível improbidade administrativa por parte do então ministro.

Erros e propagandas em livros didáticos

Vélez teve de lidar, logo ao assumir o Ministério da Educação, com o edital dos livros didáticos de 2020. Na primeira versão, não seriam mais necessárias referências bibliográficas. Também foi retirado o item que impedia publicidade e coibia erros de revisão e impressão. Após a divulgação, o MEC retirou o texto e abriu sindicância, alegando erro da gestão anterior.

Nomeação e exoneração relâmpago de ex-MBL no Inep

Defensor do movimento Escola Sem Partido e ex-membro do Movimento Brasil Livre (MBL), Murilo Resende Ferreira foi indicado para a coordenação do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) e rebaixado do posto menos de 24h depois. Hoje, ele assume um cargo especial criado especialmente na administração Bolsonaro, no qual "ajudará no acompanhamento, análise e direcionamento do Enem".

Comissão de avaliação do ENEM

Depois que o presidente Bolsonaro criticou o conteúdo da última avaliação do Enem, em 2018, a prova agora terá que passar por uma comissão de três indicados que irão avaliar a “pertinência com a realidade social” das questões. Para especialistas, entretanto, a inexperiência dos responsáveis por esse controle coloca em risco o sigilo e a qualidade do teste, que afeta a vida de milhares de estudantes.

Governo não vai mais avaliar alfabetização de crianças

Em uma portaria publicada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), o Ministério da Educação anunciou que não faria mais a avaliação de alfabetização das crianças de até 7 anos. O ex-ministro Vélez Rodríguez afirmou que não tinha sido comunicado sobre essa decisão e, menos de 24h depois, revogou a portaria. Por fim, também exonerou Marcus Vinícius Rodrigues do cargo de presidente do Inep.

‘A ideia de universidade para todos não existe’

Em janeiro, Ricardo Vélez Rodríguez deu uma entrevista ao Valor Econômico, na qual afirmou que a “a ideia de universidade para todos não existe”. Acusado de ter uma visão elitista do ensino público, o responsável pelo Ministério da Educação precisou se explicar em um vídeo postado nas redes sociais. “Universidade, do ponto de vista da capacidade, não é para todos. Somente algumas pessoas que têm desejos de estudos superiores e que se habilitam para isso entram na universidade", explicou.

Frase falsa de Cazuza

Também à revista Veja, Ricardo Vélez Rodriguez atribuiu erroneamente uma frase ao cantor Cazuza, durante entrevista. Ao ser questionado sobre se liberdade não incluiria ensinar marxismo, fascismo e liberalismo, ele disse: "Liberdade não é o que pregava Cazuza, que dizia que liberdade é passar a mão no guarda. Não! Isso é desrespeito à autoridade, vai para o xilindró". Pelo Twitter, o ex-ministro afirmou que ligou para a mãe do cantor, Lucinha Araújo, e "desfez o equívoco".

Para Entender

O que é marxismo cultural?

Entenda o real significado de marxismo cultural, termo que tem sido cada vez mais usado pelo alto escalão do governo do presidente Jair Bolsonaro.

Evangélica como número 2 do MEC

O posto de secretário executivo do Ministério da Educação tem sido uma das principais dores de cabeça para ricardo Vélez Rodríguez. Depois de demitir Luiz Antônio Tozi, nomear Rubens Barreto da Silva e demitir este último pouco após a posse, o então ministro indicou Iolene Lima como secretária de Educação Básica.

Educadora e evangélica, Iolene foi alvo de críticas graças a um vídeo no qual aparece afirmando que faria uma educação básica com base nos princípios de Deus: disciplinas como geografia, matemática, história etc. seriam ensinadas “sobre” (sic) a ótica de Deus, numa “cosmovisão cristã”, porque “o autor da história é Deus”, assim como “o maior matemático” e o “criador dos relevos”. Iolene acabou demitida antes sequer de assumir o cargo.

Revisão da Ditadura Militar em livros didáticos

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Vélez Rodríguez afirmou que pretende revisar os livros didáticos para mudar a forma como as escolas ensinam o golpe de Estado que retirou o presidente João Goulart do poder, em 1964, e o regime militar que se seguiu até 1985.

Contrariando historiadores que estudaram o período, o ex-ministro da Educação ainda disse que não houve golpe e sim uma "mudança do tipo constitucional", além de defender que o governo de Castello Branco foi um "regime democrático de força".

A notícia gerou mal estar entre representantes de editoras e autores de livros didáticos, que frisaram o compromisso dos materiais didáticos serem baseados em estudos acadêmicos e não opiniões.

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