De conta alta à invenção antidesperdício

Nem o calor escaldante da Vila Mazzei, na zona norte da Capital, faria o arquiteto André dos Santos Silva gastar 300 mil litros de água num único mês. Adepto de banhos rápidos, ele estranhou esse volume e a conta de R$ 2 mil que teve de pagar à Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) em junho de 2008. O mistério do aumento repentino de consumo foi resolvido pelo vizinho, que lhe mostrou uma infiltração em sua parede causada por um furo na tubulação da casa do próprio arquiteto. Depois desse episódio, André decidiu que seu dinheiro nunca mais escoaria ralo abaixo: inventou um aparelho capaz de indicar quantos litros de água uma casa gasta por dia, além de bloquear o abastecimento caso o limite estabelecido no sistema seja ultrapassado. "A ideia é evitar o desperdício", explica André. "É claro que há um benefício financeiro, porque o uso da água é pago. Mas o mais importante, com isso, é a preservação da natureza."

Luís Fernando Soares,

21 Setembro 2010 | 10h40

 

Se dependesse do presidente da Associação Nacional dos Inventores (ANI), Carlos Mazzei, o aparelho, chamado de Poupa Água, já estaria no mercado há tempos. "Eu mesmo gastei R$ 6 mil com um problema de encanamento na minha casa. As tubulações de hoje são uma bomba relógio, porque ficam cada vez mais velhas e correm o risco de estourar a qualquer momento", comenta. Segundo dados da Sabesp, um cano com um furo de apenas dois milímetros pode desperdiçar até 3.200 litros de água por dia, o equivalente a 267 descargas de um vaso sanitário comum. Para Mazzei, que ajuda inventores a negociar projetos com empresas, a criação do arquiteto André, patenteada em fevereiro, tem um grande potencial lucrativo. "É uma ideia extremamente criativa e que vai se pagar rapidamente, porque evita a perda de água e de dinheiro", explica.

 

De acordo com os cálculos do inventor, que investiu R$ 20 mil no protótipo do Poupa Água, o preço de mercado do aparelho giraria em torno de R$ 500,00. Só em 2009, a Sabesp gastou R$ 261 milhões para consertar vazamentos e trocar redes de abastecimento em todo o Estado. Questionada sobre as vantagens que essa invenção poderia trazer no combate ao desperdício, a companhia informou que não tem condições de se manifestar sobre um produto que desconhece e que "ainda não está no mercado". Na falta de propaganda, André explica como funciona seu aparelho: "É como um celular pré-pago, em que a água representa os créditos e você gasta o mínimo possível."

 

Segundo os critérios da Organização das Nações Unidas (ONU) para o consumo de água, os paulistanos estão longe de gastar o mínimo possível. Enquanto uma pessoa consegue satisfazer suas necessidades básicas - beber, cozinhar, lavar roupa, tomar banho - com 110 litros por dia, em São Paulo esse número salta para 220 litros/dia. "As pessoas não têm noção de que a água potável é um recurso escasso no planeta", diz André. "Só espero que alguém acredite no meu projeto, porque ele não é apenas uma forma de economizar dinheiro, mas também uma maneira de contribuir com o meio ambiente", argumenta o inventor.

 

LUÍS FERNANDO SOARES CARRASCO É ALUNO DA FACULDADE CÁSPER LÍBERO

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