Tiago Queiroz| Estadão
Psicólogo Tiago Tamborini faz atividades de Avaliação de Múltiplas Escolhas para estudantes do 9º ano do Mater Dei Tiago Queiroz| Estadão

Psicólogo Tiago Tamborini faz atividades de Avaliação de Múltiplas Escolhas para estudantes do 9º ano do Mater Dei Tiago Queiroz| Estadão

De autoconhecimento a estágio em empresas: como as escolas reinventam a orientação para a carreira

Colégios ampliam estratégias para ajudar adolescente a encontrar seu caminho profissional e vão muito além do antigo teste vocacional e da feira de profissões

Priscila Mengue , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Psicólogo Tiago Tamborini faz atividades de Avaliação de Múltiplas Escolhas para estudantes do 9º ano do Mater Dei Tiago Queiroz| Estadão

Em um passado não muito distante, as escolas aplicavam testes e faziam feiras de profissão para ajudar os adolescentes do ensino médio a refletirem sobre a escolha da carreira. Hoje, elas investem em estratégias e experiências mais amplas, que começam com uma gama de atividades de orientação profissional, passam por questionários, atendimentos individuais, disciplinas de autoconhecimento e palestras, e chegam a cursos com professores universitários e estágios dentro de empresas.

O início das atividades ocorre em diferentes etapas, a depender de cada instituição, mas se dá geralmente após o 9.º ano do ensino fundamental, quando os estudantes têm entre 14 e 15 anos. No Colégio Faap, em São Paulo, por exemplo, o projeto de orientação profissional começa no 1.º ano do ensino médio, com seis aulas da disciplina Dominância Cerebral, em que são apresentados conceito psicológicos para incentivar o aluno a descobrir quais são os seus pontos fortes.

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O primeiro passo é o autoconhecimento. Sempre paro e pergunto: o que eu sou, o que quero fazer da vida, onde quero chegar, o que pretendo fazer?
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Marinez Rafaldini, orientadora educacional da escola

Logo nas primeiras aulas, a orientadora educacional Marinez Rafaldini projeta uma imagem ilustrativa de um cérebro dividido em quadrantes, ligados a diferentes habilidades, como criatividade, como descreveu o pesquisador norte-americano Ned Herrmann. E os estudantes são estimulados a refletirem sobre suas características.

As atividades continuam no 2.º ano, com seis aulas focadas no conceito das sete inteligências, do psicólogo Howard Gardner, também com a missão de fazer o estudante se autoconhecer. Por fim, no último ano, os alunos participam de uma semana sobre profissões, recebem a visita de professores da faculdade Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e têm a possibilidade de assistirem a aulas na graduação como visitantes. “Temos alunos que querem ver três, quatro aulas.”

No Colégio Bandeirantes, em São Paulo, as atividades são individuais e em grupo, com psicólogos e professores, explica Milena Greve, orientadora profissional da Coordenadoria de Futuro e Carreiras. Entre elas estão palestras com profissionais, feiras de profissão e atendimentos individualizados - apenas neste ano foram mais de 400 -, todas adaptadas para videoconferências e transmissões ao vivo por causa da pandemia

Além disso, a instituição também procura dar suporte a iniciativas dos alunos, como o Clube de Engenharia, criado neste ano pelo estudante Mário Augusto Neves Lopes, de 17 anos, que está concluindo o ensino médio. A ideia surgiu quando ele optou por cursar Engenharia, mas tinha dúvidas sobre qual escolher entre as dezenas de opções. “Depois das atividades (de orientação profissional) ficou bem óbvio que era Engenharia, mas pensar em qual era muito mais difícil”, diz.

Mário Augusto se juntou, então, a cinco colegas que viviam situação semelhante e criou o clube, que promove palestras com engenheiros de diferentes formações e variadas experiências profissionais, incluindo gente que não trabalha mais na área. “Eles falam sobre como foi feita essa escolha, como foi o curso, como se preparar para as atividades que exercem, o que já fizeram, o que dariam de dica para possíveis profissionais do futuro”, descreve o jovem.

Dentro da universidade

No Arquidiocesano, por sua vez, além de testes, feiras e orientação, também são realizados cursos eletivos com professores universitários e uma disciplina chamada Gestão Pessoal e Carreiras, que discute carreiras, habilidades e opções de universidades, como destaca o coordenador do Ensino Médio, Dionei Andreatta. “Sempre que possível a gente chama pessoas com profissões diferentes para fazer uma palestra”, detalha.

Já na Escola da Vila, também em São Paulo, a discussão focada em carreira é mais intensa a partir do 2.º ano do ensino médio, quando os alunos preenchem fichas sobre as opções que cogitam estudar. “Eles vão fazendo a mesma ficha umas cinco vezes até o final do 3.º ano. Tem alunos que não escrevem nada na primeira vez, nada segunda vez… Daí, a gente precisa ajudar. Também tem quem se fixe apenas em uma opção, e também temos de ajudar”, comenta Susane Lancman, diretora pedagógica do ensino médio.

Na rede estadual, o governo de São Paulo lançou no ano passado o programa Inova Educação, voltado a alunos a partir do 6.º ano do ensino fundamental. "O programa prevê a inclusão de aulas semanais de projeto de vida para todos os alunos. Nesse novo componente curricular, um dos elementos é o apoio, a orientação, para que os alunos façam escolhas mais conscientes, entendam melhor o mundo do trabalho”, afirma Caetano Siqueira, coordenador da Coordenadoria Pedagógica da Secretaria da Educação.

Escolha precoce

Esse tipo de discussão vem ganhando corpo a partir do 9.º ano do ensino fundamental, induzida pelo chamado Novo Ensino Médio, previsto em lei de 2017. As adaptações precisam estar prontas até 2022, mas há escolas que já começaram a implementá-las. 

Uma das mudanças é que o estudante terá de decidir qual itinerário formativo - como linguagens, formação técnica e profissional ou ciências da natureza, entre outros - irá fazer em complemento às atividades obrigatórias. Na rede estadual de São Paulo, por exemplo, a primeira turma a fazer a escolha será a do 9.º ano de 2021.

No Colégio Mater Dei, em São Paulo, a escolha tem o apoio do programa de "counselling educacional", inspirado em proposta australiana e voltado ao 9.º ano. A atividade é chamada de Avaliação de Múltiplas Escolhas (AMI), em que o “counselor”, o psicólogo Tiago Tamborini, auxilia os adolescentes a identificarem as próprias habilidades.

“O nosso foco não é necessariamente que o aluno faça a escolha profissional, mas que amadureça e se conecte com aquilo que envolve seus projetos”, diz Tamborini. “(Em geral) há muita aula de Matemática, História e Geografia, mas pouco se ensina sobre autoconhecimento, inteligência emocional e sociocompetências. E é fundamental falarmos sobre isso.”

Ele destaca que as escolhas podem mudar no fim do ensino médio, mas que esse tipo de discussão ajuda a amadurecer as decisões futuras. As atividades ocorrem semanalmente durante dois trimestres e meio, com exercícios, testes, discussões e reflexões, além de atendimento individual e em grupo. No início e no fim do processo há um encontro com os pais. “É um direcionamento até para que os alunos estejam mais motivados no ensino médio.”

Entre as ações propostas está uma em que o estudante precisa montar quatro listas de cerca de dez itens do que gosta de fazer mas não faz, do que faz e não gosta, do que gosta e faz e, ainda, do que não gosta e não faz. A partir disso, discutem-se os interesses e também a necessidade de, por vezes, termos de fazer tarefas que desgostamos para atingir determinados objetivos. 

Outra atividade é um plenário em sala de aula, em que alunos são divididos entre grupos que vão defender que o dinheiro traz ou não a felicidade. “Quando a discussão está acalorada, inverto os grupos, com o intuito de estabelecer a discussão sobre o papel dinheiro nas escolhas de vida.”

Um dos alunos que participou da atividade é Daniel Queiroz, de 15 anos. “Antes de começar com o counselling já tinha meio que uma ideia do que queria fazer, onde queria ir. A aula me ajudou a pensar nisso, como escolher, do que gosto e não gosto”, comenta. “Hoje sei mais ou menos que quero sair do País, estudar fora, mais na área da tecnologia. O que eu pensava antes era só o que queria estudar, não muito onde.”

Nova grade curricular

No Colégio Poliedro, os alunos fazem testes de preferências para construir a grade curricular do 1.º ano do ensino médio. Após essa experiência, no ano seguinte, são iniciados testes de aptidão e autoconhecimento, além da participação em feiras de profissões e palestras, que desencadeiam uma espécie de laudo indicativo de áreas de interesse. “São ferramentas para tentar encaixar a área de interesse do aluno de acordo com as respostas”, explica a coordenadora de Orientação Educacional do Ensino Médio, Beatriz Marcon.

 

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Escolas investem em estágios temporários para aluno experimentar vida profissional

Estudantes têm oportunidade de participar de reuniões em empresas de diferentes portes, conversar com profissionais in loco, treinar networking e se preparar para a etiqueta do mercado de trabalho

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 14h10

Para um aluno ter uma pequena amostra do que pode ser o futuro profissional, escolas particulares de São Paulo têm investido em programas de estágios temporários de até uma semana de duração. De empresas de pais de alunos a multinacionais, os estudantes têm a oportunidade de participar de reuniões, conversar com profissionais in loco, treinar networking e se preparar para a etiqueta do mercado de trabalho.

Esse é o foco da empresa Guide-U, que começa a expandir a abrangência após três anos de experiência em parceria com o St. Francis College, de São Paulo. Com o Work Shadowing Programme, ela leva alunos do 2.º ano do ensino médio para ficar por uma semana em empresas de portes variados e escritórios de profissionais liberais, onde passam por uma espécie de mentoria.

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É uma primeira visão da adultez. A ideia não é que a experiência seja só linda, mas que seja real. Não queremos convencer alguém a estudar alguma coisa, queremos que vivam essa profissão, vejam como é a vida desse profissional
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Verónica Blanco, uma das sócias-fundadoras

Também sócia-fundadora, Vivian Bradshaw descreve a experiência como um test-drive, em que é possível perceber aspectos variados da rotina, como possibilidade de ascensão, momentos de lazer, necessidade de viajar etc. Antes do breve estágio, os estudantes são preparados em um workshop sobre dress code, horários de trabalho, políticas de privacidade e outros elementos essenciais de uma rotina profissional.

Um dos primeiros participantes Diego Rocha, de 20 anos, estagiou na área de marketing da Unilever. “Achei bem dinâmico porque não ficou só na reunião, no workshop, teve um dia que a gente (ele e outro colega) saiu da empresa junto com os funcionários”, comenta. “Na época, não tinha muita noção de que tipo de carreira queria seguir, sabia que gostava da área de administração e de economia, mas não sabia exatamente o que me interessava.”

Nas reuniões, o tutor indicava quando ele podia interagir e dar ideias e quando era melhor apenas observar. “Depois dessa experiência, decidi que não queria fazer marketing. Não porque tenha sido uma experiência ruim, foi uma experiência ótima, mas descobri que não era uma área para mim, compatível com o que eu quero. Me ajudou a afunilar o que queria fazer futuro”, conta Rocha, que hoje estuda na área de economia em uma universidade em Los Angeles.

Martina Devoto, de 19 anos, fez o estágio na Camil, também no setor de marketing. Para ela, que hoje cursa Estudos Sociais em Londres, um dos ganhos da experiência foi desconstruir conceitos pré-formados, como perceber que há espaço para ser criativo mesmo em empresas de grande porte. “Uma das coisas que mais gostei é que me deixaram assistir à montagem de uma campanha de produto que seria lançada online.”

‘Estágio reflexivo’

Um programa semelhante é realizado pelo Colégio Humboldt, em São Paulo, com duração de cinco dias. Coordenadora do ensino médio na instituição, Talita Marcília descreve o Projeto Trabalho como um “estágio reflexivo”, tanto que os participantes precisam depois escrever um relatório sobre a experiência. 

Além disso, em paralelo, os estudantes participam de simulações de dinâmicas de processo seletivo e de entrevista de emprego, realizadas com funcionários de grandes empresas alemãs, como a Audi, em parceria com o RH da escola. 

A aluna Melanie Korber Silva, de 17 anos, participou do projeto na rádio do pai e ficou em diferentes setores da empresa. “Foi uma forma de conhecer esse mundo corporativo. Passei bastante tempo na comunicação e na parte financeira”, conta. Um ano depois, ela acha que a experiência a ajudou a escolher que irá cursar duas graduações simultaneamente, em Tecnologia e Design.

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Apoio sem pressão e ponte com profissionais são jeitos de pais ajudarem filho na escolha da carreira

Conceito de orientação vocacional, tão comum no passado, está em desuso; especialistas defendem autoconhecimento para jovem descobrir o que interessa

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 14h10

“Mãe, será que eu não vou me encontrar nunca?”, ouvia a pedagoga Renata Del Piccolo Campos da filha Carolina, de 17 anos. A insegurança e as dúvidas tão comuns angustiavam a mãe e a adolescente no início do ano, e elas procuraram apoio da escola.

“Não é um processo tranquilo. Quer dizer, foi tranquilo porque ela foi bem conduzida”, comenta Renata. A garota passou por um processo de orientação profissional dentro da escola e também com apoio de uma profissional indicada durante três meses e, hoje, já está certa que quer se graduar em Relações Internacionais.

Outras tantas famílias passam por questões semelhantes. Para especialistas, o suporte e a compreensão dos pais e parentes próximos é essencial nesse momento de escolha, mas é necessário tomar cuidado para que o apoio não se torne mais uma forma de pressão.

Coordenador do Centro de Psicologia Aplicado ao Trabalho da Universidade de São Paulo (USP), onde também é professor de Psicologia, Marcelo Afonso Ribeiro explica que é importante deixar claro que a escolha profissional feita na adolescência é a primeira de outras tantas da vida profissional, pois isso é uma forma de reduzir a tensão que existe muitas vezes quando se pensa na decisão como algo definitivo.

Outro ponto é deixar de lado a ideia de “vocação”, hoje em desuso na orientação de carreira, que defende um processo mais focado no autoconhecimento e discussão de opções. “É muito mais ideia de se desenvolver, de construir um caminho”, explica. Isso envolve, por exemplo, analisar as experiências do adolescente, os interesses e o que desgosta.

“Um passo antes é se perguntar o que é importante pra mim. Onde encontrar essa informação? Está mais perto do que se imagina, no cotidiano, o que se acha legal, como escolhe amigos. Pode fazer uma pergunta para o melhor amigo: ‘Por que a gente se dá bem?’. Perguntar para um primo, uma tia, um tio que pode falar com mais liberdade. Essa exploração é importante.”

Herança profissional

Nesse aspecto, ele comenta que todos recebem algum tipo de herança profissional, pela percepção que têm sobre as carreiras e o trabalho a partir da experiência de dentro de casa e dos círculos próximos. “Eles vão olhar essa trajetória, vão se basear, podem querer igual ou diferente”, diz. Por isso, é importante passar uma imagem realista, mas não totalmente pessimista ou negativa sobre o trabalho, como se fosse exclusivamente um fardo."

Além disso, em muitos casos, essa influência também tenta, indireta ou diretamente, encaminhar o jovem para determinada área. Por isso, o professor defende que a família deve ser clara nessas situações sobre quais expectativas têm, para que todos possam estar preparados para as consequências disso. “É um peso, principalmente quando não é dito.”

Segundo o professor, os pais também precisam estar preparados para entender que o mercado de trabalho mudou desde que eles próprios fizeram suas escolhas e que, hoje, as opções são distintas, com carreiras antes inexistentes. Por isso, indica que procurem se informar sobre diferentes opções que não existiam décadas atrás.

Manoela Ziebbel de Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Orientação Profissional (Abop) e professora de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), destaca dois pontos: regra e acolhimento.

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Os pais devem estimular os filhos a refletirem sobre si, tentando mais perguntar do que afirmar. Eles podem servir como exemplo para o jovem, conversar sobre como foi a escolha profissional para eles, sobre a rotina de trabalho. Tudo isso pode ajudar a se identificarem
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Manoela também afirma que a família precisa compreender que cada pessoa tem um tempo diferente e que o da maioria dos garotos da mesma idade pode não ser o mesmo do seu filho. “Tem gente que vai terminar o ensino médio sem estar pronto para escolher, o que é difícil para os pais tolerarem. É complicado perceber que toda classe decidiu. Ele vai ter de sugerir, ajudar o filho. Se não tem ideia, pergunta como pode ajudar.”

A professora indica que os pais ajudem o filho a procurar profissionais das carreiras que ele tem interesse e até auxiliá-lo a se preparar antes da conversa, caso não se sinta à vontade em fazer perguntas não ensaiadas. “O ideal é conversar com o profissional se possível no local de trabalho, conhecer gente de diferentes áreas da mesma formação, que trabalham em consultório, em escritório, em diferentes ambientes, pessoas que estão felizes com a profissão, que não estão.”

Também deve-se ter atenção a quem está muito certo da escolha, pois, por vezes, essa meta tão certeira pode ser mais uma estratégia para evitar perguntas ou agradar à família. “Ninguém tem certeza todos os dias que fez a melhor escolha. Quando o jovem chega com muito certeza, fico com receio.”

Além disso, a internet também pode ser uma aliada nesse processo, por meio de conteúdos em formatos diversos. Para a professora, os pais podem incentivar os filhos a procurar cursos presenciais e online relacionados às áreas que têm interesse, para experimentar o que aquela área pode oferecer. “Estimule o adolescente a fazer, mas não é preciso cobrar desempenho. O que tenho de assegurar é que está tendo a experiência e refletindo sobre ela.”

Auxílio profissional

Outra opção é buscar um atendimento especializado de orientação profissional. Ela destaca, no entanto, que esse processo só dá certo se o jovem consentir em participar. “Não precisa esperar até o final ensino médio, pode ser no momento que o filho comenta que está com dificuldade. Um orientador bem formado vai receber bem alguém que está em qualquer fase”, diz Manoela.

Diretor-geral da Nace Orientação Profissional, Silvio Bock acredita que o 2.º ano do ensino médio é o momento ideal para esse tipo de dinâmica. “O aluno não está nem entrando nem saindo, não tem tanta pressa. A maioria das pessoas acaba procurando no 3.º ano, meio em cima da hora ou que quando já entrou no susto na faculdade e se pergunta será que isso mesmo”, relata.

Na consultoria, após um primeiro encontro com os pais, os adolescentes passam por uma sequência de 12 a 15 atendimentos, duas vezes por semana, com uma hora cada. “O processo não é extrair informações, é dar condições para que o jovem descubra”, diz Bock. O custo do pacote é de R$ 3,9 mil e ocorre durante a pandemia exclusivamente pela internet.

 

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Por falta de informação, mercado guarda preconceito com tecnólogos

Para especialista, mercado confunde curso superior tecnológico com técnico; após polêmica em rede social, Ambev estende processos seletivos para candidatos com esse tipo de formação

Anna Barbosa, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 14h10

Curso técnico, curso tecnológico, tecnólogos - os termos tanto confundem quanto endereçam preconceito a profissionais que escolhem caminhos diferentes dos tradicionais bacharelados das universidades. De antemão, é preciso entender que no Brasil os cursos tecnológicos ou cursos superiores de tecnologia em alguma habilidade (como RH, gastronomia e análise de sistemas, por exemplo) não guardam relação com os cursos técnicos, que não possuem certificação do ensino superior.

No Brasil, os cursos tecnológicos - que formam tecnólogos - são reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC) como cursos superiores, mesmo tendo duração de dois a três anos, e não de quatro ou mais como no caso dos bacharelados. E a escolha de um curso de duração menor ajudou a criar um estigma ao longo dos anos de que esses profissionais seriam menos preparados do que os que trilharam um curso mais longo.

É o caso de Julia Santos, estudante de Gestão de Recursos Humanos na Estácio do Rio de Janeiro, que conta ter escolhido o curso tecnológico pelos prazos mais curtos, mas não só por isso. “Eu tinha pressa e também queria uma área que lidasse com gente. Mas não queria fazer nem Psicologia nem Administração.  Então, optei por fazer RH. Descobri o tecnólogo por causa disso.” 

Julia se refere ao fato de que, num bacharelado de recursos humanos, ela teria disciplinas amplas envolvendo psicologia e administração, e queria pular essas etapas, fazendo a parte que dissesse respeito só ao RH.

Essa atuação em uma área específica é uma das justificativas de quem opta por um curso tecnológico, mas a desinformação a respeito deles leva a má interpretação ao mercado de trabalho. André Braun, coordenador do ensino superior tecnológico do Centro Paula Souza, em São Paulo, explica que o mercado acaba confundindo o tecnólogo com um curso técnico.

“O (curso) tecnólogo, assim como outros cursos superiores, dá direito a uma pós-graduação. O certificado tem a mesma validade de um bacharelado”, diz ele. O coordenador aponta que o curso tecnológico é um curso superior, mas é mais focado nos eixos tecnológicos e na atuação profissional. “É focado e alinhado para atender as demandas do mundo do trabalho.”

Parceria com empresas

Braun conta que, para uma melhor inserção dos alunos no mercado de trabalho, as Faculdades de Tecnologia (as Fatecs, que formam tecnólogos para o mercado) vêm trabalhando em parcerias com empresas para a construção de uma grade curricular que atenda às necessidades do mercado. “Os cursos possuem até uma atualização mais constante e mais recente do que no bacharelado, por exemplo. A concepção dos currículos é alinhada com o setor produtivo.”

Para ele, se a pessoa busca uma rápida atuação no mercado de trabalho, o curso tecnológico é o que deve ser procurado. Um levantamento feito pelo Centro Paula Souza indica que 88,8% dos alunos graduados em 2017 estavam empregados durante a pesquisa (2019).

O coordenador aponta que o preconceito com os tecnólogos já foi maior no passado. “Ainda notamos um pouco isso, mas cada vez mais (a procura) vem crescendo. O Centro Paula Souza existe há mais de 50 anos, mas a gente tem percebido nos últimos tempos uma demanda maior tanto do mercado quanto dos alunos.”

No caso dos candidatos recrutados para o mercado com a intermediação da Fundação Mudes, a gerente de Inserção Profissional Sueli Fernandes ressalta que o padrão ainda deixa os tecnólogos de escanteio.

“As empresas ainda são um pouco conservadoras e pedem alguém que tenha bacharelado ou licenciatura. Muitas vezes, somos nós que temos de negociar com a empresa a contratação de tecnólogos, pois esses profissionais são do ensino superior assim como os outros”, conta Sueli.

Para a estudante Julia Santos, o preconceito ainda existe. “As pessoas pensam que quem faz uma graduação tecnológica não é tão bom assim. Mas não é o tempo da sua graduação que quer dizer se você é bom ou ruim”, desabafa.

Recentemente, Julia protagonizou um episódio envolvendo o tema em rede social. Ao tentar uma vaga no Representa, programa de estágio para pessoas negras da Ambev, teve sua candidatura negada. Ela fez, então, uma postagem em seu perfil no LinkedIn falando sobre a negativa e a publicação viralizou, com comentários que discutiam a não aceitação do curso tecnológico.

Depois disso, a estudante conversou com um porta-voz do setor de Diversidade e Inclusão da Ambev e, a partir daí, a empresa informou que passará a aceitar formação com curso superior tecnológico em processos seletivos da empresa, segundo conta Julia.

Em nota, a Ambev afirma que quer, na medida do possível, criar mais igualdade de oportunidades para que candidatos com diferentes experiências de vida possam ser selecionados.

“Estamos eliminando barreiras para dar mais igualdade de oportunidades para todos visando promover a inclusão de todos os grupos, em todos os níveis do nosso negócio. Por essa razão, expandimos os requisitos do programa de estágio Representa e Trainee para cursos tecnólogos”, diz a nota. “O mais importante para a gente, em todo esse processo, é conhecer pessoas que se identifiquem com a cultura da Ambev.”

Entenda os termos

Curso técnico: Curso de nível do ensino médio, que faz parte da educação básica, e tem o objetivo de capacitar o estudante com conhecimentos teóricos e práticos voltados para o setor produtivo

Curso tecnológico: O mesmo que curso superior de tecnologia, com foco em alguma habilidade. Curso de nível superior, com duração em geral de dois anos; não é curso de bacharelado em Tecnologia (TI)

Tecnólogo: Como é chamado o profissional formado em cursos tecnológicos; o mercado chama, informalmente, o curso tecnológico de curso tecnólogo

Exemplos de cursos superiores

Estudos que têm versão em bacharelado e em curso tecnológico

- Análise e desenvolvimento de sistemas

- Comércio exterior

- Design de interiores

- Design de moda

- Design de produto

- Gestão da tecnologia da informação (tecnólogo) e Tecnologia da informação (bacharelado)

- Gestão de turismo (tecnólogo) e Turismo (bacharelado)

- Hotelaria

- Jogos digitais

- Marketing

 

* Estagiária sob a supervisão da editora de Carreiras & Empregos, Ana Paula Boni

 

 

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