D. Odilo confirma ter sido ouvido pela gestão Alckmin sobre reforma

Arcebispo diz que apenas "observou" à Secretaria de Educação que o governo precisa explicar mais e melhor a reorganização escolar

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

30 Novembro 2015 | 19h26

Citado em uma reunião da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo para montar uma estratégia de desmobilização das escolas ocupadas, o arcebispo Dom Odilo Pedro Scherer confirmou que foi procurado pela pasta para comentar a reorganização escolar que tem sido alvo de protestos de estudantes, pais e professores e já levou a 190 escolas tomadas. No entanto, o arcebispo disse apenas ter "observado" que o governo precisa "explicar mais e melhor" a sua proposta aos diretamente interessados no projeto. 

Neste domingo, 29,  o chefe de gabinete da secretaria, Fernando Padula se reuniu com dirigentes regionais de ensino para dar instruções de como desmobilizar as ocupações. O site Jornalistas Livres divulgou áudio de parte dessa reunião em que ele defende a necessidade de adotar “tática de guerrilha” contra as invasões. Em uma parte da reunião ele diz ter procurado o arcebispo. "Porque nós estamos apelando para todo mundo", justifica aos dirigentes. 

"É impressionante a leitura que o cardeal faz. [Diz que] isso é para desviar o foco de Brasília, lógico que a gente não pode sair por aí falando isso.  Mas, vejam vocês que a autoridade máxima da igreja católica consegue entender que o que tem do lado de lá [das ocupações dos estudantes] é motivação política. Ele [Dom Odilo] não está na educação, não vive a educação, mas faz uma leitura muito clara do que está acontecendo", disse Padula. 

O chefe de gabinete continua e diz que recebeu uma orientação do arcebispo sobre a melhor estratégia a ser utilizada. "[Ele falou] o que vocês têm que fazer é informar, informar, informar. Fazer a guerra da informação o máximo possível, porque é assim que você vai desmobilizando esse pessoal e criando as agendas políticas", disse Padula aos dirigentes. 

Em nota, a assessoria da Arquidiocese de São Paulo confirmou que o arcebispo foi procurado pela secretaria de educação. "Em nenhum momento, porém, sugeriu o uso da força ou de métodos violentos para reprimir movimentos estudantis ou mobilizações sociais que lutam pela melhoria da educação no Estado.  O Arcebispo é favorável à educação de qualidade para todos os estudantes e entende que cabe ao Governo tomar iniciativas adequadas para promovê-la. Além disso, espera que a solução para a atual crise possa ser encontrada por meio do diálogo propositivo entre todas as partes interessadas", informou em nota. 

Sobre as declarações que Padula atribui ao arcebispo, de que as ocupações serem um artíficio para desviar a atenção da sociedade dos problemas do governo federal, a Arquidiocese disse que o cardeal "não responde por eventuais afirmações de terceiros, nem se pronunciará sobre elas". 

Reorganização. Em setembro, o secretário estadual da Educação, Herman Voorwald, divulgou uma reforma para que as escolas estaduais tenham ciclo único. A medida faz com que 754 unidades ofereçam só os anos iniciais do ensino fundamental (1.º ao 5.º ano), finais (6.º ao 9.º) ou ensino médio. Com isso, mais de 300 mil alunos serão transferidos e 93 escolas, fechadas. 

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