Cursos ensinam a cultivar felicidade

Instituições criam aulas para estudantes aceitarem melhor exigências e frustrações

Lygia Ribeiro, Especial para o Estado

26 de fevereiro de 2019 | 03h00

Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, definia a felicidade como a finalidade de todas as ações e condutas humanas, e como “a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo”. Essa mesma ideia de felicidade como um fim a ser alcançado sempre foi alvo de estudos para filósofos, sociólogos, historiadores e psicólogos ao longo dos séculos. Mas, se a felicidade parece um conceito tão subjetivo e por vezes abstrato, há mesmo como defini-la e alcançá-la? Tanto para o filósofo grego quanto para alguns professores e alunos de universidades do Brasil e do mundo, a resposta é sim.

Por isso, algumas instituições dos Estados Unidos vêm investindo em disciplinas ou cursos de especialização com foco na felicidade. Em Harvard, por exemplo, o professor israelense Tal Ben Shahar faz uso da psicologia para ministrar aulas sobre a realização pessoal e conseguiu, em 2018, mais de mil alunos de graduação inscritos. Também no ano passado, a Universidade Yale lançou a disciplina Happiness and The Good Life (ou Felicidade e A Vida Boa), que se tornou em pouco tempo a mais popular da instituição, com mais de 1,3 mil alunos. Hoje, o curso já está disponível na versão online, com o título de The Science of Well Being (A Ciência do Bem-Estar), na plataforma Coursera. 

Inspirados pelas aulas no exterior, professores brasileiros também estão implantando a felicidade como tema principal de cursos livres e de pós-graduação. A Rede de Educação Claretiano, presente em todas as regiões do País, inicia neste ano a primeira turma de pós em Felicidade e Resiliência. Segundo o coordenador do curso, Edson Renato Nardi, a felicidade “é uma questão que tem preocupado muito a sociedade e as pessoas. Elas têm se sentido cada vez menos felizes e incapazes de lidar com os sofrimentos”. 

Voltado para profissionais que queiram implementar os conhecimentos na vida pessoal ou em ambientes educacionais e institucionais, o curso pretende “atender a uma necessidade contemporânea e trazer o que já temos de conhecimento sobre esse tema, para que as pessoas os ponham em prática”, explica Nardi. As aulas são compostas de três partes principais, que enfatizam a importância de elementos biológicos (como sono e alimentação), psicológicos-filosóficos (com o estudo de linhas filosóficas que se debruçaram sobre esse tema, como o estoicismo e boa parte da filosofia de Aristóteles, além de exercícios de auto-avaliação e de tomada de decisões) e espirituais (como meditação mindfulness).

Para todos. O Centro Paula Souza (CPS) - entidade vinculada ao governo do Estado de São Paulo que administra mais de 200 Etecs e Fatecs - lançou no segundo semestre de 2018 um curso online gratuito intitulado Felicidade, também inspirado nas experiências de Harvard e Yale. Aberto para um público em geral e sem exigência de nível superior, reúne vídeos de palestras e entrevistas com o professor Tal Ben Shahar, de Harvard, e outros especialistas que falam sobre altruísmo, equilíbrio, capacidade de lidar com o outro e a importância desses elementos para a vida pessoal e profissional.

Com duração de 12 horas, o curso é composto de quatro aulas e já alcançou a marca de 5,3 mil inscritos, segundo o coordenador de projetos de Ensino a Distância do CPS, Wellington Sachetti. Descrevendo a dinâmica das aulas, Sachetti explica que o aluno “tem de ficar pelo menos quatro horas online, que é o tempo mínimo que ele tem para ver os vídeos, ler os textos e fazer os exercícios. No fim, ele tem uma breve avaliação, que vai permitir a sua certificação”. “Não é apenas de uma auto-ajuda, mas de um curso em que a pessoa valorize seus pontos positivos, lide com os pontos negativos e pratique valores que às vezes deixamos em segundo plano.”

Na faculdade. Para muitos estudantes, conquistar uma vaga em universidade pública é um sonho realizado. Porém, ao longo da graduação, podem desanimar por diversos fatores: acúmulo de trabalhos e funções, declínio na qualidade do sono e da alimentação e mudança repentina de ambiente (pois muitos precisam deixar suas cidades de origem).

Débora Janini, de 21 anos, é estudante de Engenharia Mecânica pela Universidade de Brasília (UnB). Depois de testemunhar as dificuldades enfrentadas por alguns amigos no câmpus do Gama, ela também sentiu a necessidade de procurar uma disciplina que os ajudassem a enfrentar os momentos difíceis. “Quando a gente conversa um com o outro, percebe que mentalmente está cansado.” A demanda dos estudantes foi atendida quando, no segundo semestre de 2018, professores da instituição lançaram o Estudo Vivencial da Felicidade, uma disciplina optativa, também inspirada nas experiências das universidades do exterior, na qual os alunos aprendem a lidar com as adversidades pessoais e no ambiente acadêmico.

A iniciativa fez da UnB a primeira instituição de ensino superior pública do Brasil a ministrar aulas focadas em felicidade. “Os temas sobre afetividade foram muito bacanas, me ajudaram a ser um pouco mais resiliente”, conta Débora. “As dificuldades não vão deixar de existir, mas o modo como você aprende a lidar com elas pode te deixar mais feliz ou não.”

A ideia da matéria é do doutor em Psicologia e professor da disciplina, Wander Cleber de Souza. “Com base em indicadores de ansiedade e depressão afetando alunos da UnB, tomamos essa iniciativa de ofertar a disciplina, para que o aluno aprenda a lidar com as adversidades da vida e busque ser mais feliz na vida universitária.” O professor conta que as 240 vagas foram rapidamente preenchidas. “Ficou até lista de espera.” Para 2019, o total de vagas foi reduzido para 120.

Nas aulas, presenciais, os estudantes aprendem a buscar a felicidade por meio de conversas, reuniões e práticas de autoconhecimento, respeito à individualidade e ao ponto de vista do outro. A maior parte dos alunos da primeira turma da disciplina foi formada por engenheiros, mas é aberta para todos os câmpus e cursos da UnB

Quando perguntada se indicaria a experiência para algum colega, Débora responde sem hesitar: “Indico a toda hora”.

SERVIÇO

Claretiano

Curso: Pós-Graduação em Felicidade e Resiliência

Inscrições: Até 10/3, por R$ 230

Início das aulas: Março

Duração: 10 meses com 2 encontros presenciais (carga horária de 360 horas)

Preço: R$ 3.538,80

Site: https://claretiano.edu.br/pos-graduacao/felicidade-e-resiliencia/sobral/10-meses-2-encontros-presenciais-aos-sabados

Instituto Paula Souza

Curso: Livre sobre “Felicidade”

Inscrições e início das aulas: O curso fica disponível na plataforma, aberto para quem quiser entrar, sem data de início

Duração: 12 horas com certificado

Preço: Gratuito

Site: http://mooc.cps.sp.gov.br/ead/

ISAE-FGV

Curso: Felicidade: Transformando Pessoas e Organizações

Inscrições: Até 21/3

Início das aulas: 22/3

Duração: Carga horária de 96 horas

Preço: Não divulgado

Site: http://www.isaebrasil.com.br/curso/felicidade-transformando-pessoas-e-organizacoes/

UNB

Curso: Disciplina optativa Estudo Vivencial da Felicidade

Inscrições: Até o fim de fevereiro

Início das aulas: 13/3

Duração: 1 semestre

Preço: Gratuito; todos os alunos podem fazer como disciplina optativa na grade

Site: https://www.unb.br/  

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