Cursos de pós-graduação prometem formar escritores

Cursos de pós-graduação prometem formar escritores

Programas do Instituto de Ensino Superior Vera Cruz são procurados por graduados que desejam aprimorar escrita, com foco em ficção, não ficção, poesia e para professor

Marcela Lima, O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2014 | 16h00

Os postulantes a escritor que querem estudar e se aprofundar na construção do texto literário costumam recorrer a oficinas em escolas livres. Pouca gente sabe que há pós-graduação – prática, não apenas teórica – para quem quer escrever.

O curso de Formação de Escritores foi criado em 2011 pelo Instituto de Ensino Superior Vera Cruz, ligado à tradicional Escola Vera Cruz, em São Paulo. Ao entrar na pós, o escritor deve escolher uma área de concentração: ficção, não ficção ou poesia. A partir de 2015 poderá optar também pela especialização em professor de criação literária, dedicada aos escritores que também desejam ensinar o ofício.

A pós no Vera Cruz nasceu da iniciativa de Márcia Fortunato, doutora em Linguagem e Educação pela Universidade de São Paulo (USP), que ministrava oficinas de escrita desde a década de 1990. Márcia conta que o objetivo do curso é auxiliar o aluno a queimar etapas no desenvolvimento da escrita com exercícios intensos de leitura e análise literária.

“Queremos ajudar o aluno a encontrar o seu projeto literário, a se definir como autor. É uma maneira de darmos voz aos escritores de uma forma mais livre”, afirma Márcia.

Desde 2013, Roberto Taddei, mestre em Escrita Criativa pela Universidade Columbia, de Nova York, divide a coordenação do curso com Márcia. Taddei crê que, em uma pós, o professor nunca deve dizer ao aluno o que fazer, mas sim estimulá-lo e ajudá-lo a trabalhar o pensamento crítico. “O aprendizado da escrita pode se dar com todo mundo, o que acontece é que alguns se tornam escritores sem ter a consciência desse processo enquanto outros têm de ler e desenvolver bastante”, conta.

Para o jornalista André Argolo, de 40 anos, a pós ajudou a estreitar seus laços com a leitura e a escrita. “O curso mudou completamente a minha vida. A maior parte dos escritores tem alguma vivência com a literatura desde cedo. Eu não tinha, mas sempre quis escrever”, diz Argolo, que lançou o livro de poemas Vento Noroeste pela editora Patuá (mais informações na página ao lado).

Há quem chegue com um projeto e descubra outras habilitantes. Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a escritora e cantora Juliana Valverde, de 34 anos, procurou o Instituto Vera Cruz em 2012 com a ideia de escrever um livro infantil. “Mas tudo mudou e eu fui para a poesia adulta.”

Além do encontro com escritores renomados, as oficinas avançadas, ministradas por professores experientes, fazem com que o aluno reveja todo o processo de criação, diz Juliana, que em 2013 ganhou uma bolsa de incentivo à criação literária do Programa de Ação Cultural (ProAC) para desenvolver o projeto Entre Dois ou Mais Espaços Brancos, de poesia. “O universo do escritor é solitário. O olhar do outro é muito importante.”

Para o escritor e colunista do Estado Luiz Fernando Verissimo, de 78 anos, escrever bem e escrever corretamente, de acordo com a norma culta, são situações diferentes. “Talento não se aprende. Ou a pessoa tem ou não tem”, afirma. Veríssimo acredita que o curso pode ser útil para que o aspirante a escritor aprenda técnicas e leia bastante, mas talento é algo primordial. “Você só aprende a escrever lendo. Talvez seja esse o valor desses cursos: ensinar o que ler.”

Estrutura. Com base na escolha entre ficção, não ficção, poesia e professor de criação literária, o aluno deve cursar dez disciplinas: cinco específicas, três optativas e duas obrigatórias. As aulas ocorrem duas vezes por semana e têm três horas de duração cada. A carga horária total é de 379 horas e a mensalidade custa R$ 768.

Na reta final, o escritor tem oficinas avançadas para o projeto de conclusão. Não há avaliações, como provas – o que conta é o crescimento do aluno no trabalho que ele se propôs a desenvolver.

Para iniciar a pós, o candidato passa por um processo seletivo. Neste ano, a última prova será realizada em 6 de dezembro, às 9 horas. Para se inscrever, acesse veracruz.edu.br.

Depoimento: André Argolo, 41 anos, escritor e jornalista 

"Dizem que a vida começa aos 40 anos. Sem jogar fora nada que vivi, a minha recomeçou. Neste ano, em que alcancei a mítica marca do tempo, também encerrei um ciclo.

A pós-graduação em Formação de Escritores teve jeito de furacão, de tempestade arrasadora que promove fim e novo início. Sozinho não conseguia me achar. Então, procurei um curso que pudesse me ajudar no caminho.

Escrever ficção era um velho sonho, nascido antes de me tornar jornalista. As escolhas são muitas para se contar uma história. A maioria dos grandes escritores achou o próprio caminho praticamente só. Quase. O escritor normalmente tem amigos que avaliam seus textos, que conversam sobre literatura. O curso foi esse meu amigo que me empurrou para a realização do velho sonho. E não apenas o de publicar um livro, mas o de me tornar escritor – e ler como escritor, o que amplia significativamente a capacidade de percepção do mundo. 

Acho que eu nunca vou largar de vez a poesia, mas não vou ficar só nela. Posso nunca ser reconhecido como escritor para além do meu círculo de amizades. E tudo bem. Porque a literatura é um lugar que agora ocupo sem precisar que me permitam. Uma coisa é ganhar a vida, a outra é a arte. Faltava isso. Agora não falta mais."

Graduação. Na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) é possível fazer, desde 2010, o curso de Letras com habilitação em Formação de Escritores. A graduação dura três anos e oferece oficinas de produção textual de roteiros para televisão, dramaturgia, ficção, poesia, textos técnicos e para a internet. A mensalidade é de R$ 2.391.

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