Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Curso de especialização melhora o bem-estar e a vida dos animais

Cardiologia, Oncologia, Ortopedia, Neurologia: com profissionais em áreas específicas, bichos ganham também em longevidade

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

30 Junho 2016 | 05h00

SÃO PAULO - Cardiologia, Oncologia, Ortopedia, Neurologia, Intensivismo são algumas especialidades já consagradas quando se trata da Medicina humana. E é cada vez mais comum que médicos veterinários também se especializem em áreas como essas. Para os bichos, receber tratamento de profissionais que se aprofundam em certos aspectos de sua saúde só traz vantagens. Eles vêm ganhando expectativa e, também, qualidade de vida muito maior, dizem especialistas. 

“Na década de 70 e 80, os cachorros viviam até 7 ou 8 anos; hoje eles estão chegando aos 12, 14. Conseguimos quase dobrar a expectativa de vida”, comemora Marco Antonio Gioso, professor da Faculdade de Veterinária da Universidade de São Paulo (USP).

Gioso foi o pioneiro no Brasil a praticar Odontologia voltada a animais, 30 anos atrás. “Eu estudei fora do País e cheguei a me formar em Odontologia (para humanos), para aprender mais sobre o assunto. Em gente e em bicho, os dentes são bem parecidos.” 

Para Gioso, além da ampliação da vacinação, os cuidados mais específicos, sobretudo com saúde bucal, foram os fatores responsáveis pelo aumento da longevidade. “Antes, os bichinhos sofriam demais. Gengivites podiam causar infecções generalizadas. Se ele perdia dentes, ficava sem comer direito e morria.”

Segundo o professor de Veterinária e dentista, as graduações em Medicina Veterinária já incorporaram conceitos importantes da Odontologia, o que torna os profissionais atuais mais habilitados para tratar desse aspecto. Mas, em casos mais complexos, a especialização é essencial.

“Uma orientação geral e os cuidados básicos, o veterinário clínico pode fazer sem problemas. Mas, se o animal precisa de um tratamento de canal, ou tem um câncer na boca que precisa ser operado, o indicado é procurar um especialista, porque algumas técnicas são muito específicas.”

Gioso organizou o primeiro curso de Odontologia em nível de especialização do Brasil, em 2002, e sempre teve grande procura. “Já recebi muitos alunos estrangeiros que vieram aprender aqui. Como são poucas vagas, no máximo 35, precisamos fazer uma prova de seleção”, conta. Atualmente, por pendências burocráticas, o curso na USP está parado, com previsão de formar uma nova turma no segundo semestre.

Juliana Kowalesky foi da segunda turma de especialização em Odontoveterinária, curso que concluiu há dez anos. “Na época não existiam tantas especializações.” Ainda na faculdade, a veterinária se apaixonou pela área. “Fiz uma iniciação científica, estágio, e, assim que terminei a faculdade, entrei em um mestrado na área.” Hoje, ela já tem doutorado e trabalha tanto cuidando dos dentes de animais como dando aulas.

Por já ter passado por várias pós-graduações, sentiu claramente a diferença de objetivos dos cursos. “O mestrado é para quem quer seguir a carreira acadêmica mesmo. Já especialização é para quem quer se aprofundar em um assunto, mas com objetivos clínicos, de atender aos animais.”

Donos exigentes. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o brasileiro tinha em 2013 mais de 132 milhões de bichos de estimação. O faturamento do mercado de produtos e serviços para os bichinhos foi de R$ 16,4 bilhões em 2014 e, mesmo com a crise, não apresenta sinais de queda, informou a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). Além de não abrir mão dos cuidados com seus pets, os proprietários estão se mostrando cada dia mais exigentes na busca por atendimento, afirmam os profissionais da área.

A veterinária Sheila Urbano, formada no ano de 2000, já fez especializações em Clínica, em Cirurgia, em Medicina para Felinos e agora estuda Dermatologia. “Desde a época da faculdade a Dermatologia era uma área que me atraía. Como tenho atendido muitos casos de problemas de pele, senti a necessidade de procurar mais essa especialização.”

Além da vontade pessoal de aprender mais, Sheila vê na especialização uma forma de manter e atrair clientes para a clínica. “Temos profissionais especializados em diversas áreas: Cardiologia, Acupuntura, Fisioterapia, Ultrassonografia, Ortopedia. Mas se aparecia um caso grave de Dermatologia, eu tinha de indicar para um especialista de fora.”

Sheila conta que as especializações trazem mais confiança para os donos. “O mercado está cada vez mais exigente; os donos chegam já tendo pesquisado algumas coisas na internet, conhecendo os principais protocolos de atendimento.” Para dar conta de tanto conhecimento, a veterinária tem planos de continuar estudando. A próxima especialização em sua lista será Endocrinologia. “Muitos problemas dermatológicos estão ligados a questões endócrinas.”

Muitas vezes o proprietário nem espera a indicação do veterinário clínico: ele por conta própria já procura um especialista, afirma Rui Vicenzi, diretor acadêmico de Medicina Veterinária da Universidade Anhembi Morumbi. “Hoje já existem em São Paulo determinadas clínicas animais especializadas, seja em Radiologia, Dermatologia, Oncologia. Embora não no mesmo grau, as especialidades dos animais seguem o mesmo da Medicina humana.” 

Isso acontece também porque, segundo Vicenzi, fica cada dia mais difícil se manter atualizado se o profissional não tiver um foco. “Com a velocidade das pesquisas, até quem é especialista tem de ler muito da sua área para se manter atualizado”, garante. Para os veterinários, há ainda o complicador de serem várias espécies diferentes. 

Evolução da área. As primeiras especialidades da Veterinária foram por espécies segundo o tamanho: grandes ou pequenos animais. Depois em aves, ou suínos. Dentro de “grande animais”, também há especialistas em Reprodução ou em Cirurgia em Equinos. Mas até nas especialidades dentro de animais domésticos há algumas já bem “consolidadas”, como a Cardiologia e a Dermatologia, diz Vicenzi. Recentemente, estão ganhando espaço os cursos voltados para o atendimento a gatos, animais exóticos ou silvestres. 

Na hora de escolher onde cursar a especialização, é bom observar a grade, os professores e também como se dá a parte prática, orienta Vicenzi. “Nosso hospital é referência, com profissionais de renome no Brasil, por isso tem atraídos muitos alunos”, afirma o diretor da Anhembi Morumbi.

Foco ainda maior. Com a necessidade de foco e conhecimentos profundos, alguns cursos de especialização oferecem subdivisões, como no caso das opções em Ortopedia/ Fisioterapia ou Ortopedia/ Neurologia da Universidade Paulista (Unip).

“A Ortopedia trata de problemas e procedimentos ligados ao esqueleto e ossos. Muitos problemas são ligados a questões do sistema nervoso central. Esses são abordados em Neurologia. O outro foco é tratar a ortopedia junto com procedimentos de recuperação de músculos, força e flexibilidade, que é a parte da Fisioterapia”, afirma Maria Anete Lallo, professora da pós-graduação da Unip. Em ambos, o curso de Ortopedia demanda uma grande carga horária prática. “Eles precisam treinar a mão; não basta a teoria.”

E não é só a Ortopedia que vem se desdobrando. Uma área recente, e em franco crescimento, é o Intensivismo, campo que visa a dar um atendimento pós-cirúrgico especial, quando o animal se encontra em uma situação de saúde precária. “Esse é um trabalho que precisa ter suporte de equipamentos adequados. Em geral, o intensivista vai trabalhar em hospitais ou algumas clínicas diferenciadas.” 

Serviço já encontrado com certa facilidade na capital paulista, o Intensivismo começa a se expandir para o interior do Estado, segundo relata a professora da Unip. “Recebemos um número crescente de alunos de outras cidades, gente que vem aprender para estruturar um centro de cuidados intensivos em suas clínicas. Mesmo em São Paulo é uma especialidade emergente.”

As novidades, contudo, não significam que a procura pelas especializações mais tradicionais esteja diminuindo. “Os cursos recentes chamam a atenção, mas ainda há muito espaço para especialistas em Dermatologia e Cardiologia, por exemplo”, diz Maria Anete.

Serviço

USP

Especialização: Odontologia

Duração: Dois anos

Início: Agosto 

Custo: Preço sob consulta 

Site: pos-odontoveterinaria.com.br

Anhembi Morumbi

Especialização: Oncologia

Duração: 18 meses 

Início: Agosto 

Custo: 27 parcelas de R$ 660 

Site: portal.anhembi.br

Unip

Especialização: Fisioterapia e Ortopedia

Duração: Dois anos

Início: Agosto 

Custo: Entre R$ 10.464

e R$ 13.080 

Site: posunip.com.br

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