Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Cursos com foco em gestores de empresas familiares buscam garantir futuro do negócio

Famílias buscam formação acadêmica e prática que ajudem na profissionalização da empresa

Verônica Fraidenraich, ESPECIAL PARA O ESTADO

11 Dezembro 2016 | 03h00

Viver o cotidiano e encarar o mundo profissional ao lado da família têm suas vantagens e suas dificuldades. Para ajudar as empresas familiares a enfrentarem o dia a dia, os dilemas e até mesmo as transições, diversas instituições de ensino superior oferecem cursos variados, tanto em formato como em duração, destinados a fundadores, herdeiros, sócios e executivos.

Em geral, os programas fornecem uma visão ampla do assunto, tratando de temas como governança, sucessão, estratégia, finanças, questões organizacionais e legais da empresa. Uma característica comum a todos eles é apresentação de casos reais de corporações familiares para análise e discussão pelos alunos. 

Cursos mais longos ou sob demanda incluem também a aplicação prática do conhecimento, com base em um estudo aprofundado da empresa participante, com foco na resolução de suas questões particulares. Os preços cobrados por pessoa variam de R$ 900 a R$ 4,5 mil para cerca de 20 horas, mas há formações que saem por R$ 2 mil a mensalidade com duração de até dois anos.

Na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, o curso Gestão de Empresas Familiares tem 60 horas/aulas e costuma atrair membros de companhias de pequeno e médio porte. Criado há 11 anos, o programa recentemente passou por uma reformulação, dando mais ênfase à dimensão humana e a conteúdos ligados ao desenvolvimento emocional e ao autoconhecimento. “Contamos com professores de formações variadas, para garantir que o aluno tenha uma noção completa do processo de sucessão. Temos, por exemplo, um coach que aborda o assunto do ponto de vista psicológico e um especialista em técnicas de negociação”, explica Marcelo Marinho Aidar, coordenador do curso.

O empresário Adilson Carvalhal Júnior, de 48 anos, está terminando as aulas da FGV e gostou bastante do que aprendeu. “Achei interessante a abordagem sobre o processo sucessório e o conflito familiar, que, se não forem bem conduzidos, podem se tornar um problema sério.” Carvalhal Júnior faz parte da segunda geração da família na direção da Casa Flora, importadora de bebidas e alimentos no centro da capital paulista. 

Estudo de caso. No Insper, o curso Gestão de Empresas Familiares é oferecido desde 2011, tendo as 20 horas/aulas distribuídas em três dias consecutivos. De acordo com Rodrigo Amantea, coordenador de Educação Executiva da instituição, o planejamento do conteúdo é pensado de modo a influenciar positivamente os participantes. “A gente faz um estudo de dois a três casos reais de sucessão de organizações brasileiras e temos um professor americano que traz bons exemplos de corporações de seu país, o que enriquece as aulas”, conta.

Um dos programas mais antigos do mercado é o da Fundação Dom Cabral, intitulado Parceria para o Desenvolvimento do Acionista e da Família Empresária (PDA). Criado há 18 anos, é oferecido regularmente em São Paulo e Minas e funciona sob demanda em outras capitais brasileiras. 

Em um período entre 18 e 24 meses, os alunos têm aulas coletivas de aporte conceitual e, em paralelo, é feito um diagnóstico com devolutiva para cada grupo familiar. Também é desenvolvido um trabalho prático de monitoria. O fato de ser um curso longo, com intervalo entre os módulos - são dois dias de estudo por mês -, também favorece a reflexão nos alunos. “O acesso a novos conteúdos e o conhecimento de pessoas com princípios e valores diferentes, mas que no dia a dia da empresa enfrentam problemas semelhantes, faz com que mudem sua forma de pensar”,diz Juliana Costa Gonçalves, gerente do PDA.

Erika Mattos, de 39 anos, é uma das alunas que acaba de fazer o PDA, ao lado dos familiares. Todos trabalham na Madeiranit, companhia que revende produtos de movelaria para marceneiros e tem 13 unidades espalhadas pelos Estados de São Paulo, Mato Grosso e Pará. Ela conta que foi difícil convencer os 11 herdeiros a participarem. “Mas valeu a pena, nos fortaleceu muito.”

A empresa está elaborando o processo de governança e o tema pôde ser discutido durante as aulas. “Estamos criando um estatuto sobre o assunto, no entanto não sabíamos muito bem como começar e o curso nos ajudou muito.”

A complexidade dos aspectos legais e administrativos da sucessão em uma empresa familiar fez surgir até cursos específicos sobre o assunto. Um deles é o workshop Planejamento Sucessório e Sociedades Familiares, do Ibmec, do Rio, que é feito conforme a procura e teve sua primeira turma no segundo semestre de 2016. 

Segundo o Ibmec, o curso atrai, em geral, advogados e empresários e se propõe a ajudá-los a identificar os problemas vinculados a uma sucessão não planejada e a conhecer os instrumentos mais comuns do processo, como o testamento e a doação inter vivos. “Nós falamos, por exemplo, do planejamento empresarial, que facilita a divisão de bens dos familiares quando do falecimento de um deles de forma inesperada”, relata Eduardo Rodrigues, coordenador da pós-graduação em Direito do Ibmec.

Customizado. Outro curso customizado é o de Gestão Familiar da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo. “Montamos as aulas conforme a necessidade de cada grupo, incluindo temas particulares da empresa participante e outros voltados à gestão do negócio”, diz Célia Marcondes Ferraz, diretora da área de Soluções Empresariais da instituição.

ENTREVISTA

‘Percebi que o bem maior é a empresa’

Laíssa Cortez, de 26 anos, aluna de Gestão de Empresas Familiares do Insper

“Gostei muito da estrutura do curso, em especial da parte jurídica, a mais difícil de entender para quem não é da área. As apresentações de cases, como o do Habib’s, foram muito legais. Fizemos exercícios que nos ajudaram a pensar em como atuaríamos em certas funções e quais as pessoas mais adequadas para cada cargo. Percebi que há outros interesses, além dos meus, e que o bem maior é a empresa. Procurei um curso na área porque queria conhecer a parte teórica de um assunto no qual eu tenho a prática.

Minha família possui vários negócios e eu atuei em alguns deles por uns anos, mas hoje presto serviços para a Family Business Network, uma rede internacional administrada por e para empresas familiares. Mesmo não trabalhando com a família, tenho participado da reestruturação dos negócios. E o curso me deu uma visão geral do que é a empresa familiar.”

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