Taba Benedicto/Estadão - 11/03/20
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Na pandemia, Brasil tem mais calouros em graduações a distância do que no presencial pela 1ª vez

Tendência de migração para curso online é observada desde antes da pandemia; queda de ingressantes nos cursos tradicionais foi de 13,6%

Ítalo Lo Re e Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2022 | 16h37
Atualizado 18 de fevereiro de 2022 | 19h51

SÃO PAULO – A quantidade de alunos que, no ano letivo de 2020, ingressaram em cursos de graduação a distância no Brasil, os chamados EAD, superou o total de estudantes que optaram por cursos presenciais pela primeira vez na história, segundo censo divulgado nesta sexta-feira, 18. O fenômeno, que faz parte de uma tendência observada nos últimos anos, havia sido constatado em 2019 apenas na rede privada.

 

O levantamento aponta que, entre os mais de 3,7 milhões de alunos que ingressaram em instituições públicas e privadas em 2020, mais de 2 milhões (53,4% do total) optaram por cursos a distância, ante 1,59 milhão em 2019. Houve aumento, portanto, de 26,4% na procura por essa modalidade em um intervalo de um ano.

Enquanto isso, 1,7 milhão (46,6%) de alunos escolheram os cursos presenciais em 2020, o que representa queda de 13,6% na comparação com o número de calouros de ensino presencial do ano anterior (2,4 milhões). As informações são do Censo da Educação Superior 2020, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e pelo Ministério da Educação (MEC).

Nos últimos anos, por conta da pandemia, os indícios são de que a educação a distância pode ter avançado ainda mais. Os dados da modalidade não levam em consideração aqueles cursos que ofereceram aulas remotas em caráter provisório, mas que mantêm previsão de retorno presencial.

O censo revelou que a oferta de vagas em cursos remotos em 2020 aumentou mais de 30% na comparação com 2019, chegando a 13,5 milhões. O crescimento da oferta em cursos presenciais no mesmo período foi de 1,3%.

Doutora em engenharia e gestão do conhecimento pela Universidade de Santa Catarina (UFSC) e consultora em EdTech, Carolina Schmitt Nunes explica que o cenário revelado no censo já era esperado. “Principalmente na última década, vinha tendo um crescimento expressivo de cursos EAD em instituições de ensino privado”, aponta. Segundo ela, a pandemia acelerou ainda mais essa tendência, embora seja difícil mensurar o quanto.

A especialista em Educação reforça que, a exemplo do que se viu nos últimos anos, os cursos EAD devem permanecer avançando ainda mais, mas isso deve ser visto com cuidado. Isso porque, explica, ainda que as tecnologias tenham progredido, no cenário que se tem hoje no Brasil essa ampliação de recursos não necessariamente reverbera na qualidade dos cursos remotos e, por consequência, na mão de obra do trabalhador brasileiro.

“A qualidade dos cursos a distância ofertados no País é muito aquém do que um bom curso à distância pode oferecer”, explica a pesquisadora. “A tecnologia permite proporcionar experiências ao aluno que ele não teria em um curso presencial, como uma trilha de conhecimento personalizada, por exemplo. Mas isso tudo custa dinheiro. O que a gente observa no mercado hoje é uma padronização de cursos à distância, desconsiderando esses avanços”, acrescenta.

Segundo Celso Niskier, diretor presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), a tendência de aumento dos ingressantes em cursos EAD “certamente foi acelerada pela pandemia”. “Nós, agora, como educadores certamente temos a responsabilidade de garantir que a modalidade EAD ofereça a mesma qualidade da modalidade presencial”, destaca.

Em 30 de junho de 2021, data de referência do levantamento, havia 2.457 instituições de educação superior no Brasil. Do total, 2.153 (87,6%) são privadas e 304 (12,4%), públicas. As instituições privadas registraram 86% do total de ingressantes, o que corresponde a 3,2 milhões de pessoas.

Enquanto se recuperava de uma cirurgia ortopédica delicada, feita em janeiro de 2020, Beatriz de Oliveira, de 21 anos, decidiu que era o momento de procurar uma faculdade que oferecesse ensino a distância. Os dez meses que precisou fazer repouso, praticamente sem poder colocar o pé no chão, foram o gatilho para que ela tomasse a decisão. “Como sempre gostei de estudar, não queria ficar parada”, disse. “Como sempre fui uma pessoa que gosta muito do contato pessoal, frente a frente com o professor, achei que seria difícil. Mas diante da situação que eu estava vivendo, achei que valia a pena tentar.”

Para Beatriz, a questão financeira também pesou no momento da escolha. “Com relação aos preços, o EAD é bem mais barato que o presencial. Para mim, uma vantagem que levei muito em consideração”, completou. Um ano após a cirurgia, em janeiro de 2021, ela iniciou um curso de Gestão de Recursos Humanos, com duração de quatro semestres. Embora goste do contato físico, a jovem diz que no EAD também é possível interagir com professores e alunos, além de ter mais flexibilidade com o formato do curso.

“Se o aluno for focado, saber separar bem o tempo para o estudo, o ensino a distância é tão bom quanto o presencial. Para mim, chega a ser melhor, porque você tem a flexibilidade de selecionar os horários, de rever aulas e é fácil acessar conteúdo”, avaliou a acadêmica, que agora está em busca de uma oportunidade profissional. “Já tenho pesquisado muito sobre minha área de atuação. O mercado está começando a melhorar. Espero, em breve, já estar trabalhando na área”, disse.

Os resultados do censo indicam ainda que mais de 8,6 milhões de matrículas foram registradas no ano letivo de 2020 pelo Censo da Educação Superior, sendo 1,2 milhão de concluintes. Foram abertas 19,6 milhões de vagas em diferentes semestres. Dessas, 18,7 milhões (95,6%) foram na rede privada. A quantidade de professores que atuaram no ensino superior em 2020 foi de 323,3 mil.

Mudança na data de referência

Considerando o cenário da pandemia de covid-19, o Inep informou que a data de referência do Censo da Educação Superior 2020 precisou ser flexibilizada, extraordinariamente, para o dia 30 de junho de 2021. A medida teria buscado alinhar a pesquisa ao final do ano letivo de 2020, em decorrência das alterações nos calendários acadêmicos.

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