GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

Curso a distância: quando vale a pena apostar nesse formato?

Flexibilidade de horário, aprendizado no próprio ritmo e o fato de não precisar se deslocar ao local de estudo são alguns dos benefícios. Mas nem tudo é vantagem

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

19 Julho 2016 | 03h00

De um lado, a flexibilidade para adaptar o horário de estudo à agenda, aprendendo no seu ritmo, sem precisar perder tempo no trânsito, se locomover a outras cidades, nem deixar os filhos com alguém. De outro, a dificuldade em organizar e criar uma rotina de estudos, não ter feedbacks tão rápidos e lidar com a falta de contato humano e o preconceito do mercado de trabalho. Pesar essas duas realidades é essencial na hora de escolher entre um curso presencial ou aderir ao ensino a distância (EAD). 

Se, à primeira vista, a segunda opção parece o paraíso para quem tem pouco tempo ou horários incomuns de trabalho, a realidade pode ser bem diferente: mesmo virtuais ou semipresenciais, cursos de graduação, pós e idiomas exigem tanta dedicação quanto os tradicionais - e nem sempre são mais baratos. É uma questão de definir qual se encaixa melhor à sua vida e ao seu perfil. 

Descontente com sua carreira na área de gestão de RH, Tathyane Menezes da Silva, de 31 anos, alimentou durante um bom tempo o sonho de mudar de profissão. “Mas como já não tenho mais 18 anos, assumi uma série de outras responsabilidades, não queria mais ter de ir para a faculdade todos os dias”, conta. Ao pesquisar sobre cursos rápidos de Gastronomia, descobriu a possibilidade de fazer uma graduação a distância na área. “Li o portal da universidade do avesso antes de me decidir.” E não se arrepende da opção.

“São as mesmas matérias do presencial. Na parte prática, a gente tem a receita na apostila e o vídeo gravado. Só preciso replicar, tirando fotos do passo a passo”, explica ela. As imagens viram um álbum virtual, que servem para Tathyane ser orientada pelos professores quanto ao ponto correto, o corte e a temperatura. 

A aluna da Universidade Anhembi Morumbi já fez dois estágios em confeitarias de renome em São Paulo e garante que não se sentiu discriminada por ser do EAD. “Não houve nenhuma diferença de tratamento. Para entrar, você faz o teste como todo mundo, o que importa é saber executar o que foi pedido.” E ela ainda conseguiu criar laços de colaboração e amizade com outros alunos da turma. “Tenho um grupo que se reúne no mínimo a cada duas semanas para fazermos juntos uma receita mais elaborada”, diz ela. 

Como Tathyane, mais de 1,3 milhão de pessoas no Brasil escolheram cursar uma graduação a distância, segundo o último Censo da Educação Superior do MEC, de 2015. As metodologias podem variar bastante de acordo com o curso e a instituição de ensino, mas as graduações nunca são totalmente online. Por lei, elas têm de cumprir uma carga horária presencial de 20% do curso. Muitas vezes, esses encontros são aproveitados para fazer as avaliações. 

Embora a maior parte das vagas seja oferecida por instituições particulares, há também opções públicas e gratuitas. Criada oficialmente em 2012, a Univesp é uma universidade só de ensino a distância. Neste ano, o segundo de operação efetiva, foram abertas 4 mil vagas em cursos de engenharia e licenciatura. Os encontros presenciais da Univesp são quinzenais, em 45 polos distribuídos pelo Estado de São Paulo. 

Aqueles que optam por uma graduação, ainda que virtual, devem estar dispostos a se dedicar, diz Waldomiro Loyolla, diretor acadêmico da instituição. “Quem entra achando que será moleza, abandona rapidinho. Na Univesp, temos um controle muito mais justo que no presencial. Se o aluno escorregou em uma atividade, o mediador já vai para cima dele”, afirma. O acompanhamento do desempenho é semanal, enquanto na maioria dos cursos presenciais os professores fazem avaliações bimestrais. Há um mediador ou tutor, como são comumente chamados, para cada 18 estudantes.

Segundo Loyolla, os currículos dos cursos são trabalhados com base em problemas e projetos, uma forma mais motivadora do que um curso com metodologia “cuspe e giz”, pois o aluno se torna protagonista do próprio aprendizado. “Eles ganham mais maturidade.” 

Autonomia. Os mediadores têm papel fundamental na adesão dos alunos em cursos de longa duração, ainda que sejam de especialização, extensão ou aprimoramento profissional. Mesmo quando as aulas são 100% virtuais, a interlocução com outra pessoa pode fazer a diferença entre o sucesso e a desistência, acredita Ivaneide Dantas, professora do instituto Singularidades. Para diminuir a perda de alunos ao longo de um curso no formato Mooc (curso online massivo), o instituto pôs tutores nos bastidores, o que normalmente não ocorre neste modelo. 

“O tutor tem o papel de provocar, mas com acolhimento. Quando vê que um aluno está ausente, fazendo poucas trocas, deve chamá-lo a se conectar, mas com sensibilidade”, diz Ivaneide. Assim como há alunos tímidos que têm medo de falar e perguntar em uma aula presencial e, por isso, podem ter vantagens ao optar pelo EAD, outros têm dificuldade em se comunicar por escrito. 

Com ou sem tutor, o EAD exige mais autonomia por parte do estudante - algo que, na prática, é positivo, sobretudo em uma pós-graduação, pois garante que ele ganhará habilidades para além do conteúdo do curso. “O volume de trabalho vai ser grande como no presencial, mas no EAD o aluno é o responsável pela gestão do próprio tempo”, afirma Tatsuo Iwata Neto, pró-reitor de Pós-Graduação Lato Sensu da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), que oferece MBAs a distância. 

Para quem se preocupa com a aceitação no mercado de trabalho, Neto reconhece que ainda existe um pouco de preconceito, mas que vem caindo ano a ano. “Há cursos muito ruins no presencial e a distância. Mas, se você procura uma boa instituição, o certificado será reconhecido.” Em geral, as pós-graduações em EAD costumam ter uma receptividade muito boa. 

Cursos livres. As ofertas de ensino a distância se multiplicam quando se trata de cursos livres, com ou sem certificado. Dá para aprender pela internet sobre higienização de banheiros, como importar da China, fazer unhas decoradas e até trocar fraldas. Muito antes da internet, esse tipo de aprendizado já fazia sucesso. “O Senac atua no EAD desde 1948. Discos de vinil eram distribuídos às rádios locais, que colocavam o conteúdo no ar”, diz Anderson Malgueiro, diretor do Senac EAD. 

A instituição oferece dezenas de cursos livres, com duração e objetivos variados. “Temos os instrumentais, como os de idioma, com duração de 4 a 12 meses. Há os de capacitação, que formam para uma profissão, como vendedor e recepcionista”, exemplifica. Mesmo em cursos com perfil prático, Malgueiro garante que o ensino virtual é eficiente. “As práticas estão relacionadas a saberes, a técnicas. Alguns têm simuladores, em outros a prática será feita em seu entorno.”

DEPOIMENTOS

‘Faltou comunicação com colegas’

Aline Claudino, 26 anos, estudante de Pedagogia

“Eu queria fazer Pedagogia na modalidade presencial, no período noturno. Poucos dias antes das aulas, porém, a instituição avisou que não tinha formado turma e eu teria de fazer no matutino. Só que já tinha conseguido um estágio durante o dia. Para não perder nenhum dos dois, acabei optando por fazer a distância. Fiz um ano, mas não gostei e fui para o presencial. 

Acho o EAD uma experiência válida, mas como graduação me pareceu distante de preparar o aluno para a profissão. Também tive dificuldade para criar uma rotina de estudos. Levei mais de três meses para me organizar. Conseguir estudar três horas sem interrupção dentro de casa é bem difícil, porque você tem muita interferência das pessoas e dos barulhos.

O conteúdo do curso até era bacana, mas faltou comunicação com alunos e docentes. Quando eram marcados encontros virtuais, ou fóruns online, tudo corria bem. Porém, várias vezes tentei falar com professor e não foi fácil. O atendimento por e-mail ou pela ferramenta do curso era demorado e isso era desmotivador.

A turma se encontrava só para fazer provas. Fiquei com a impressão de que, de forma geral, as pessoas se envolvem menos nos estudos. Quando tinha trabalho em grupo, eu ia atrás delas, marcava conferência online, mas ninguém participava. Cada um queria entregar sua parte, sem discutir nem se aprofundar. Não que isso não aconteça no presencial, mas no EAD, por não ter um professor ou colega cobrando, olho no olho, facilita para quem não quer levar a sério.

Agora, no presencial, sinto que há um contato mais humano. Na sala, você vê no rosto da pessoa o entusiasmo, a experiência é outra.” 

‘Mudou a minha forma de trabalho’

Dino Gueno, 32 anos, gerente de marketing 

"Trabalho em São Paulo, mas minha casa fica em Cuiabá: passo a semana em uma cidade, o fim de semana em outra. E ainda viajo muito a trabalho. Para mim, não havia outra maneira de fazer MBA. Já tinha feito cursos de férias na ESPM e, quando soube que abririam um MBA a distância, me inscrevi imediatamente. Mas tive receio de não ter disciplina suficiente, de não conseguir organizar a rotina. Também já tive preconceito com os cursos a distância, pois tinha a impressão de que entregava menos que o presencial. Mas logo percebemos - minha turma e eu - que o conteúdo é tão extenso ou mais do que o presencial. 

Não foi fácil me organizar. Viajo muito, tenho horários puxados. Reservo duas horas duas vezes por semana e, aos fins de semana, dedico mais duas horas ao curso. Tem entrega de trabalhos semanalmente, leituras, não posso deixar acumular. Se fico uma semana fora do curso, depois preciso passar o domingo para pôr tudo em dia.

Meu curso tem uma ferramenta em que você pode ver a aula em videoconferência ou gravada. Já falei com professor por e-mail e por um sistema da própria ferramenta. Todos os docentes me responderam rápido e, se percebem que muita gente não acompanhou, dão uma aula a mais ou colocam material extra.

O EAD é tão funcional que comecei até a enxergar um outro mercado para minhas palestras. A experiência está mudando a forma como trabalho e pretendo fazer outros cursos a distância. Sei que em um curso presencial há um processo de convivência muito legal. Mas gosto de ambas as formas: uma coisa não anula a outra. E dá para fazer networking no EAD, embora seja mais difícil.” 

SERVIÇO

ESPM

Curso: MBA em Marketing 

Duração: Quatro semestres 

Preço: Até amanhã, matrículas com desconto de 50% (R$ 307). 

O valor pode ser dividido em até 27 parcelas de R$ 598,14

Inscrição: Até 8/8 (R$ 150)

Início das aulas: 16/8

Site: espm.br/ead

Univesp

Curso: Engenharia da Computação Tipo: Graduação

Duração: Cinco anos 

Preço: Gratuito

Vagas: 600 (em 18 polos)

Inscrição: A ser definida

Início das aulas: Primeiro semestre de 2017

Site: univesp.br/vestibular

Anhembi Morumbi

Curso: Gastronomia (tecnólogo) 

Tipo: Graduação

Duração: 24 meses 

Preço: R$ 932,43 por mês

Inscrições: Podem ser feitas até 12/8

Início das aulas: 15/8

Site: portal.anhembi.br

Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial)

Curso: Vendedor 

Tipo: Curso livre

Duração prevista: Três meses e meio 

Preço: R$ 550 no total 

Inscrição: Sem prazo previamente definido

Site: ead.senac.br

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