BRUNO KELLY / ESTADAO
Acolhimento emocional de estudantes marca retorno à escola  BRUNO KELLY / ESTADAO

Currículo compacto, ajuda de colegas e professor extra: lições e desafios de quem já reabriu escolas

Além dos protocolos sanitários, redes de ensino têm de lidar com traumas e abismos de aprendizagem entre estudantes

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2020 | 14h00

Na periferia de Manaus, os corredores da Escola Estadual Antogildo Pascoal Viana voltaram a ser povoados pelos estudantes há dois meses. Mas nada é como antes. Abafadas pelas máscaras, as conversas entre professores e alunos revelam vazios - emocionais e de aprendizagem. Em todo o País, a volta à escola será árdua, não só pelas exigências sanitárias, mas principalmente por causa das necessidades educacionais.

Currículos mais compactos, programas de apoio entre estudantes e até a contratação de professores extras fazem parte das estratégias para contornar abismos de aprendizagem dentro da sala de aula e os traumas decorrentes da pandemia do coronavírus. Redes de ensino no Brasil que já reabriram suas escolas revelam possíveis lições, mas também desafios de planejar e dar aulas. 

No Amazonas, o primeiro Estado a autorizar a abertura de escolas públicas, em agosto, a volta foi com medo. “O Amazonas esteve no olho do furacão, foi parar no New York Times com notícias ruins, de covas coletivas. Aquilo foi dramático para nós”, diz a secretária de Gestão da Secretaria de Educação, Rosalina Lobo. Quando as escolas estaduais reabriram para receber os alunos do ensino médio, em agosto, tiveram de conquistar a confiança dos pais e estruturar um programa de acolhimento emocional, para alunos e professores. 

O governo identificou que 13% dos estudantes da rede estadual do Amazonas perderam pelo menos um parente vítima da covid-19 durante o período de isolamento. É como se, em uma classe com dez estudantes, pelo menos um estivesse de luto - estatística que o diretor Charles Pereira, da escola Antogildo Pascoal Viana, comprovou na prática. 

“Na sala, perguntei se alguém tinha contraído a covid. Uma aluna disse que tinha perdido a mãe e o avô”, lembra o diretor. “Ela falou de uma forma tão triste, me comoveu.” Outros estudantes buscaram apoio psicológico no colégio, que fez um trabalho de escuta de alunos, professores e funcionários. O Estado também estruturou um programa de monitoria, em que os próprios estudantes ajudam a identificar dificuldades e solucionar problemas. “A escola é como refúgio para tentar esquecer um pouco da tragédia”, diz Pereira. 

Em cada Estado, planos de retomada das aulas presenciais estão sendo desenhados considerando as necessidades educacionais decorrentes do longo tempo de escola fechada. Os planejamentos são diferentes, mas concordam no ponto de que deve haver um trabalho de apoio emocional, diz Cecília Motta, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e secretária do Mato Grosso do Sul. 

Também são unânimes em identificar a necessidade de uma avaliação para diagnosticar o que, de fato, os alunos aprenderam no tempo em que ficaram em casa. No Estado de São Paulo, onde só parte das escolas reabriu em algumas cidades, uma avaliação de Português e Matemática deverá ser aplicada quando mais alunos voltarem à escola. 

O governo paulista quer medir “o tamanho do prejuízo”, nas palavras de Caetano Siqueira, da Coordenadoria Pedagógica da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. Especialistas calculam que a recuperação das aprendizagens perdidas pode levar anos, demandará avaliações sucessivas e há etapas mais sensíveis, como a alfabetização e a transição entre ciclos (5º ano e 9º ano). “É irreal imaginar que os alunos que ingressaram no 1.º ano do fundamental vão ter progredido muito na sua alfabetização”, reconhece Siqueira.

Em São Paulo, as decisões sobre o retorno à escola ficaram nas mãos de prefeitos, que, em algumas cidades, postergaram para o ano que vem a volta às aulas. Na capital paulista, alunos do ensino médio devem voltar à escola em novembro. Outros Estados, como o Espírito Santo, também adiaram a avaliação de alunos para o momento em que o quórum na escola fosse maior - no caso da rede capixaba, as provas devem ser feitas em 2021.  

No Amazonas, uma prova com questões de múltipla escolha de todas as disciplinas foi aplicada logo nas primeiras semanas após o retorno presencial, em agosto. Segundo Rosalina, os resultados no ensino médio indicaram que colégios com boa gestão conseguiram se adaptar mais rapidamente ao ensino remoto e isso teve reflexo também no desempenho dos alunos. Na escola de Pereira, por exemplo, o desempenho foi pior em disciplinas como Português, Matemática e Física. Nas de Humanas, a hipótese é que até o contato com telejornais tenha ajudado os alunos a progredir. 

Agora, a escola organiza a recuperação, professores tentam atrair os alunos com temas atuais e conectados com o que os alunos veem lá fora, mas têm de lidar com salas de aula ainda mais heterogêneas, formadas por alunos que aprenderam quase tudo o que deveriam em 2020 e aqueles que não aprenderam quase nada. As aulas remotas devem continuar sendo usadas no ano que vem para apresentar ou reforçar temas que não foram bem compreendidos - mesma estratégia planejada por outros Estados.

O Espírito Santo, por exemplo, pretende distribuir equipamentos a alunos e professores em 2021. “Queremos oferecer a estudantes e professores as condições de acesso mais adequadas para um ano em que sabemos que o programa (de atividades não presenciais) vai permanecer”, diz o secretário de Educação capixaba Vitor de Angelo. A rede estadual paulista prevê ainda colocar professores extras para apoiar as salas com mais alunos em defasagem. 

Atividades em grupo e até a formação de classes mistas, com alunos de diferentes séries, podem ser estratégias. “A escola vai precisar de uma reorganização de tempos e espaços”, diz Anna Helena Altenfelder, do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).  “Também podemos pensar a aprendizagem híbrida dentro da escola e como as tecnologias podem ajudar o professor a dar atenção diferenciada a cada grupo.”

Em São Paulo, estratégias de trabalho coletivo devem ser aplicadas e docentes passam por capacitações para saber como organizar as salas. “Formamos professores para que eles coloquem alunos para fazer trabalhos em grupo e atribuam papéis específicos para cada um dos integrantes, para que eles possam se apoiar e exercitar habilidades diferentes”, exemplifica Siqueira. 

Foco no essencial

Apesar dos esforços, os gestores consideram que é preciso calibrar as expectativas de aprendizagem. Redes estaduais e municipais vêm “compactando” seus currículos para dar foco ao que é considerado essencial. “O Brasil é o país com maior tempo de distanciamento e a volta tem sido parcial. A priorização é necessária porque temos diferentes níveis de acesso e ritmos de aprendizagem. É necessário ter clareza do que é a essência”, diz Katia Smole, diretora do Instituto Reúna, organização que desenvolveu um método de priorização curricular.  

Em Geografia, por exemplo, os currículos dos alunos do ensino fundamental incluem tanto conhecer organizações mundiais quanto aprender a ler mapas. “O conhecimento de algumas organizações pode ser feito até pela mídia. O estudante leva muito mais tempo para ser alfabetizado para ler mapas, legendas e entender seu significado do que para entender uma organização mundial. Na hora de priorizar, entendemos que a alfabetização cartográfica é essencial para desenvolver o pensamento geográfico.”, exemplifica Katia.  

Essa metodologia de priorização vem sendo usada em Estados como Pernambuco e Amapá e redes municipais. Países que sofrem intempéries ou catástrofes, como nevascas e terremotos, já tinham estratégias de priorização de aprendizagem, segundo Katia, porque suas escolas eventualmente têm de ficar fechadas por períodos longos. No Chile, país com meio milhão de infectados que este mês começou a reabrir escolas, um documento também sugeriu colocar foco no que era essencial aprender.

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Em outros países, reabertura de escolas tem avaliações e acolhimento

Para a Unesco, nações devem se preparar para modelos híbridos e fortalecer a resiliência de seus sistemas educacionais

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2020 | 14h00

Estratégias de abertura de escolas ao redor do mundo levam em consideração os traumas vividos pelos estudantes durante o período de confinamento por causa da pandemia do coronavírus e a necessidade de reforçar o vínculo com a tecnologia. Também indicam a importância de avaliações diagnósticas para entender o que alunos aprenderam e planejar a recuperação de aprendizagens. 

Segundo um relatório da Unesco, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Educação, a preocupação com aspectos emocionais dos alunos tem feito países priorizarem o acolhimento. Uma em cada quatro crianças teve ansiedade por causa do confinamento, segundo pesquisa da ONG Save the Children a partir de enquetes com 6 mil crianças em países como Espanha, Reino Unido e Alemanha. 

Na reabertura, escolas do México, por exemplo, dedicaram as primeiras semanas para avaliar o estado emocional dos alunos e ajudá-los a lidar com seus sentimentos. Na França, o Ministério da Educação publicou um guia sobre como lidar com as emoções dos alunos e, na China, o governo emitiu orientações para fortalecer a educação em saúde mental nas escolas primárias e secundárias.

Como vários Estados brasileiros, países como o Vietnã também fizeram avaliações de aprendizagem quando as escolas reabriram para identificar as lacunas. No caso vietnamita, os estudantes foram agrupados de acordo com os objetivos de aprendizagem - alunos que desejam entrar nas melhores universidades, por exemplo, participariam de aulas mais avançadas. 

Compactar o currículo, como muitos Estados brasileiros estão fazendo, foi estratégia adotada em Cingapura, que decidiu aliviar a carga  para os formandos, removendo alguns tópicos do currículo.

Para a Unesco, a crise da covid-19 revelou que muitos países não estavam preparados para dar uma resposta e uma das principais lições da situação atual “é a necessidade de fortalecer a resiliência dos sistemas educacionais para lidar melhor com emergências”, o que significa não só vigilância em saúde, mas atenção pedagógica.

“Os países precisam considerar a combinação de base escolar e a distância”, indica o relatório. A Unesco sugere ajustes no currículo e em materiais de aprendizagem, além da necessidade de formação de professores com base nas lições aprendidas com as práticas em curso e experiências anteriores.

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