TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Criando mestres para o urbano

Sociedade civil está buscando soluções para viver nas metrópoles de maneira sustentável – e isso vai além da faculdade

Guilherme Guerra, ESPECIAL PARA O ESTADO

11 de dezembro de 2018 | 03h00

Não é nenhuma novidade que o Brasil seja majoritariamente urbano, com mais habitantes vivendo em cidades do que na zona rural desde os anos de 1960. A novidade, no entanto, é que de uns anos para cá a sociedade civil está buscando soluções para viver nas metrópoles de maneira sustentável. Muitas vezes, quem pensa essas soluções são as próprias universidades.

Neuzeti Santos e Cely Roledo são mestras pelo programa de Ambiente, Saúde e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). E tanto uma quanto outra abraçaram o curso, com forte teor prático, pela característica de ser um mestrado profissional, para pensar propostas a partir da realidade que viviam em seus empregos.

Neuzeti pensou em propostas de implementação de políticas de resíduos sólidos em hospitais, sua área de atuação. Segundo ela, muitos lugares, como as Unidades Básicas de Saúde (UBS), não têm um descarte apropriado do lixo hospitalar, o que é obrigatório por lei para diversos serviços de saúde, incluindo tatuadores e acupunturistas. “O que acontece é que os órgãos privados atendem à legislação com facilidade maior porque dependem de um bom gerenciamento de resíduos para ter certificação. Na área pública, existe mais dificuldade porque não tem controle.”

O projeto de mestrado dela mostra justamente que é essencial ter uma política de descarte hospitalar como estratégia sustentável e, também, para diminuir despesas. A análise foi publicada em 2015 e partiu de um estudo de caso do Instituto Butantã, em São Paulo, local em que ela trabalhava durante o curso. 

Já a tese de Cely, engenheira química de formação, foi em monitoramento ambiental da qualidade da água de uma bacia hidrográfica de Taubaté, interior paulista. Ela trabalha na Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e a relação da USP com o órgão, com técnicos lecionando na universidade, facilitou a escolha. “Esse programa caiu como uma luva”, conta, elogiando o curso por apresentar a perspectiva de cientistas sociais e técnicos de outras áreas. “Eu já estava procurando algo fora da engenharia, fora da ‘ caixinha’.”

Certamente a interdisciplinaridade não é um acaso, como confirma a coordenadora do curso, Gabriela Marques di Giulio, dizendo que o objetivo é formar profissionais com senso crítico e inovações sociais focadas em gestão e sustentabilidade. Por isso, é comum que os projetos sejam aplicados no ambiente urbano.

“(É preciso) entender a cidade como locus de problemas ambientais e globais”, afirma. Para ela, a sociedade deve pensar as cidades para os problemas do século 21, e não mais com teorias e aplicações de décadas ou mesmo séculos anteriores. “Não dá para pensar os mesmos problemas com os óculos do passado.” 

Ainda que Cely tenha feito um mestrado profissional, cujo objetivo é unir a pesquisa acadêmica com uma aplicação prática no mercado de trabalho, ela reconhece que as teses ainda têm pouco impacto fora das universidades. Ela cita como exemplo a falta de discussão depois da crise de abastecimento hídrico de São Paulo, em 2015, quando a região metropolitana de São Paulo sofreu a maior escassez de água em anos. “A gente tem de tratar do tema sempre”, diz. “A ideia do mestrado profissional é criar um produto, e não só uma dissertação que vá para a prateleira.”

Parcerias

“O que a gente pode usar da ciência para fazer a cidade que a gente quer?”, indaga Denise Duarte, uma das professoras do programa de mestrado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP). A arquiteta, especialista em planejamento de edifícios na mudança climática, conta que a faculdade tem uma relação muito próxima com órgãos públicos, ajudando a montar ou a aperfeiçoar políticas públicas por meio da melhora de indicadores, por exemplo.

Denise conta que cada aluno do programa pode montar o próprio curso, com base nos objetivos acadêmicos. Os professores, em parceria com os mestrandos, selecionam as disciplinas de interesse e fazem os horários, tendo como base o pré-projeto utilizado no processo seletivo do programa. Com essa metodologia de aulas, estão garantidos resultados diferentes. “Ninguém faz dois cursos iguais”, afirma. “Cada aluno faz a sua história dentro da FAU.”

Ela atualmente coordena um programa com alunos de graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado, cujo objetivo final está justamente em oferecer aplicabilidade a políticas públicas vindas da academia. 

Depoimento: José Roberto Trícoli, pós-graduando na Escola da Cidade

Após atuar no setor público por mais de 15 anos e retornando à área técnica de habitação e crédito imobiliário em instituição financeira, busquei atualização e aperfeiçoamento. Pesquisei vários cursos de pós-graduação para desenvolver projeto e planejamento nas questões relativas à habitação social. O curso de pós Habitação e Cidade tem me dado a possibilidade de atualizar conceitos, o histórico e a evolução de programas habitacionais. 

Também me dá uma visão bem aberta sobre as novas propostas, projetos de novos autores ou coletivos de projetos. Não dá para pensar em qualidade e melhoria da habitação de interesse social sem deixar de pensar a cidade (a mobilidade, o acesso aos equipamentos e serviços, água, esgoto, áreas verdes, esporte, cultura...), com sustentabilidade. É uma ecologia urbana, o equilíbrio e a qualidade de vida das pessoas nas cidades.

Depoimento: Guilherme Figueiredo, pós-graduando na Escola da Cidade

Por meio de um ambiente aberto a experimentações, a pós-graduação possibilita, com seu caráter multidisciplinar, traçar uma série de vínculos que se estende além das produções arquitetônicas e culturais sobre o continente americano. Em uma América diversa, por oras desconhecida por nós, o desenho de projeto – elaborado em grupos a cada módulo – aparece como ferramenta fundamental para a discussão dos possíveis futuros de um continente em plena transformação. 

Se para o sociólogo Robert Park – um dos mais importantes pensadores da chamada Escola de Chicago, que trabalhou a desorganização social no espaço urbano – a cidade é o mundo que nós criamos e que estamos fadados a viver, os ensaios propostos no curso, em suas mais variadas escalas e abordagens, são perspectivas sobre o desafio de um mundo em equilíbrio e possível.

Mais informações

- FGV

- PUC

- FAAP 

- Faculdade de Saúde Pública da USP

- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

Escola da Cidade

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