Crianças ensinam indígenas a fazer aquecedores solares de baixo custo

Alunos da 5.ª série do ensino fundamental do Colégio Santa Maria, no Jardim Marajoara, zona sul de São Paulo, receberam na manhã da última sexta-feira de junho uma visita pouco comum: um grupo de educadores de aldeias indígenas da capital e do interior do Estado. Foi uma oportunidade para compartilhar experiências.A proposta era apresentar aos visitantes um projeto de construção de aquecedores solares, de baixo custo. Os índios das tribos guarani, tupi-guarani, terena e kaingang, que participam do curso de magistério indígena da Faculdade de Educação da USP, foram recebidos pelas crianças e ouviram atentamente as explicações sobre o equipamento, que poderá ser usado para aquecer água nas aldeias."Quando o índio sai de sua terra, vai buscar algo para sua comunidade e não para si mesmo", afirmou o educador Márcio Terena, que mora no Posto Indígena Icatu, na cidade de Braúna (centro-oeste do Estado de São Paulo). No local, moram 130 pessoas, divididas em 32 famílias.Troca de conhecimentosMas não foram apenas os índios que aprenderam algo na visita. "Eu adorei os depoimentos sobre as aldeias onde eles moram", contou a aluna Helena Mindlin, de 11 anos. "Dizem que o homem branco é civilizado, mas na verdade, que quem é mais civilizado é o indígena. Se a gente fosse civilizado, não destruiria o meio ambiente."A estudante Layla Faleiros, de 11 anos, mesmo antes de chegar à 5.ª série sempre teve vontade de participar de alguma atividade extra classe e no começo do ano ingressou no grupo. Não se arrependeu: "É muito interessante".Eco EstudantilO projeto dos aquecedores solares faz parte do Eco Estudantil, núcleo de educação ambiental do colégio, realizado com as professoras Maria Lúcia Sanches Callegari, de ciências, Neusa Bedoni Alves, de matemática, e Marlene de Souza, de história, e com a supervisão técnica voluntária do engenheiro Onofre Alves Júnior, pai de aluno.Participam do núcleo 40 estudantes, que se reúnem semanalmente. Para conseguir recursos para tocar os projetos, eles realizam atividades como rifas e cuidam de barracas nas festas juninas.Tudo começou em 2001, na época em que o apagão rondava a vida dos brasileiros. Na ocasião, os estudantes pesquisavam formas de energia alternativas na internet quando se depararam com um projeto da USP para a construção dos aparelhos.Aquecedores funcionandoA irmã Diane Clay Cundiff, diretora da instituição, conta que os pesquisadores da USP ficaram surpresos com o interesse das crianças. O projeto havia sido criado para a Eco-92, encontro ambiental realizado no Rio e, desde então, ninguém havia demonstrado interesse em desenvolvê-lo.Graças ao projeto dos alunos, os aquecedores estão em funcionamento em sete casas na Vila Rubi. Depois disso, 20 famílias foram cadastradas para integrar o projeto, durante uma reunião na Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Setúbal, no Jardim Primavera, em setembro. PatrocínioA professora Maria Lúcia lembra que o importante não é apenas a instalação do aquecedor, mas o envolvimento da comunidade para melhorar a própria qualidade de vida. Também é fundamental que a pessoa beneficiada pelo sistema de aquecimento possa multiplicar o conhecimento adquirido entre os vizinhos.A prioridade agora é conseguir patrocinadores para o projeto. Os alunos estão procurando empresas para conseguir o material do aquecedor, como a caixa d´água, mas até agora não obtiveram muitos resultados.

Agencia Estado,

18 de julho de 2003 | 11h29

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