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Crianças e adolescentes nas eleições

Não é possível imaginar um futuro para o País se não olharmos para a infância

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2022 | 05h00

Que futuro queremos para o Brasil se, durante as eleições, a criança só servir para aparecer no colo do candidato? Se o adolescente ocupar poucas linhas do plano de governo? Se não houver um projeto para a primeira infância, que, entre muitas outras coisas, impeça bebês de ficarem largados em creches improvisadas na casa da vizinha?

O País tem agora a oportunidade de escolher qual Brasil quer para os próximos anos. Não dá para passar quatro meses discutindo só corrupção, centrão, inflação, polarização. 

As crianças brasileiras – que carregam um histórico de má qualidade de educação, fome, assédio, trabalho infantil – foram as mais prejudicadas pelos dois anos de pandemia. Mesmo as mais ricas não puderam se desenvolver plenamente. As pobres, infelizmente, afundaram mais ainda no buraco que as distancia de um futuro digno.

Em meio a um governo federal que esqueceu a educação (ou lembrou só nas cidades onde havia pastor e deputado amigo), ficaram mais tempo sem estudar, alimentaram-se pior porque é na escola que fazem suas melhores refeições. Viram seus pais perderem o emprego. Tiveram de trabalhar e deixar os estudos. 

Uma análise do movimento Agenda 227 indicou os retrocessos na educação nos últimos anos. O grupo é formado por 120 entidades da sociedade civil e quer colocar a infância e a adolescência no centro do debate eleitoral. O número 227 se refere ao artigo da Constituição que fala da "absoluta prioridade" que deve ser dada às crianças e aos adolescentes. 

Entre as políticas do governo Bolsonaro que fizeram o Brasil andar para trás estão o decreto que permite que crianças com deficiências e transtornos do desenvolvimento (autismo, TDAH) possam ser matriculadas em escolas especiais. Não que intervenções focadas sejam dispensáveis. Mas o Brasil vinha há anos tornando sua educação mais inclusiva e garantindo que crianças com deficiências tivessem seu direito de estudar com todas as outras. Vivenciar a infância sem isolamento, sem exclusão. Algo bom para elas e para a sociedade.

Mês passado, o Ministério da Educação sofreu mais um dos tantos cortes orçamentários. Já havia parado de investir em escolas em tempo integral para dar dinheiro para as militares. Um terço da população, cerca de 70 milhões de pessoas, tem entre 0 e 19 anos. Não é possível imaginar um futuro para o País se não olharmos para elas. Educação, saúde, assistência social, nutrição, direito a brincar. Precisamos falar das crianças e dos adolescentes brasileiros nestas eleições. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO 'ESTADO' E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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