Amanda Perobelli
Amanda Perobelli

Cresce busca por espaços informais de educação infantil

Novos espaços não formais de educação infantil surgem na cidade, defendendo que as crianças aprendem por meio de seus próprios interesses e não de atividades programadas por professores. Movimento, conhecido como unschooling, rejeita escola regular

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

12 Março 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Não tem hora certa para brincar lá fora ou para a roda da história. Crianças pequenas de idades variadas, entre 1 e 6 anos, estão espalhadas pelos ambientes que lembram uma escola. Algumas sobem em pedaços de madeira, outras fazem bolo de areia, se penduram em cordas ou folheiam livros. Também não há salas de aula nem professor, apesar de ter adultos no espaço. Cada um dos pequenos se ocupa com o que quer se ocupar. 

Um número crescente de espaços não formais de educação infantil tem aparecido nos últimos dois anos em São Paulo. Fazem parte de um novo movimento de rejeição às escolas para crianças menores de 6 anos. Não se tratam de lugares para brincar antes ou depois do período escolar. As crianças não frequentam a escola e ficam nesses locais diariamente – apesar de algumas terem mais de 4 anos, idade em que a matrícula é obrigatória por lei. As mensalidades vão de R$ 900 a R$ 2 mil. 

A tendência tem ligação com o conceito chamado de desescolarização ou unschooling, cunhado nos anos 70 nos Estados Unidos para definir um aprendizado que se dá pelas experiências naturais da vida. A ideia principal nas instituições é de que as crianças se desenvolvem com base nas suas próprias necessidades, interesses, vontades e curiosidades. Ou seja, acredita-se que elas aprendam principalmente exercendo a autonomia. E não a partir do que o adulto considera ideal para elas. O conceito é criticado por especialistas que dizem que, para aprender a viver em sociedade, a criança não pode escolher sempre (mais informações na pág. A11).

A expressão mais repetida nas cinco instituições visitadas ou consultadas pelo Estado foi “livre brincar”. “Se a criança passou a manhã inteira cavando na areia, confio que o corpo dela precisa desse movimento. Não vou chamá-la e dizer ‘vem pintar’”, afirma uma das proprietárias da Aldeia das Crianças, a pedagoga Isabela Meirelles Tavares, de 34 anos. 

Ex-professora de escolas de classe alta, ela abriu o espaço com uma sócia há 1,5 ano. Sem fazer qualquer tipo de propaganda, nem sequer pôr nome na porta, hoje já recebem 25 crianças, e procuram uma casa maior por causa da demanda. A Aldeia das Crianças funciona no último andar de um prédio de coworking em Pinheiros. Crianças de 1 a 6 anos se revezam entre o tanque de areia, uma barraca de camping, escorregador e espaços internos. A única atividade programada é o lanche. 

“A gente tem uma crença na inteligência da criança. Costumo dizer que uma criança se alfabetiza mesmo que você não queira. Vivemos num ambiente letrado”, afirma Anahi Asa, de 39 anos, formada em dança e teatro e que coordena o Ori Mirim, uma casa de três andares na Pompeia. Lá estão cerca de 30 crianças, filhas de músicos, designers e intelectuais, que pagam R$ 1.650 mensais. 

Helena, filha da psicóloga Mariana Pucci, tem 5 anos e nunca esteve numa escola regular. “O modelo está estagnado. As escolas têm um olhar que reduz a criança e quer encaixá-la num padrão”, diz. A menina e os colegas descem tranquilos as duas íngremes escadarias que dividem os ambientes no Ori Mirim. Um deles lembra uma coxia de teatro, com cortinas e cordas penduradas no teto. O outro tem mesas baixas, brinquedos de madeira e um pátio arborizado, em que as crianças fazem até marcenaria. Mariana não sabe quando e se a filha vai frequentar a escola. 

Quem fica com as crianças é chamado de educador, mas há todo tipo de formação: artista, geógrafo, arquiteto. Algumas instituições têm pedagogos ou estudantes de Pedagogia, mas não é regra. “Como é um outro conceito de educação, a formação passa a ser irrelevante. Cada pessoa tem o seu saber”, diz a pesquisadora Carla Ferro, que assessora muitas das novas instituições. Para ela, está surgindo uma nova perspectiva para aprender. “O que importa não é o currículo escolar e, sim, conviver.”

A função do adulto é a de observar e ajudar as crianças em suas vontades. Se ela se interessa por um livro, o educador lê a história. Também pode convidar para brincar de massinha, por exemplo, mas só convidar. E encarar bem a recusa. Nenhuma atividade em grupo é obrigatória. Também não há rotina preestabelecida. “A escola virou o lugar de aprender o que é imposto pra você. Mas eu quero saber: quem é a Pietra, o que ela realmente gosta?”, diz a publicitária Stela Massarelli. A filha de 4 anos, Pietra, frequenta o Ori Mirim. 

Comunidade. A participação ativa dos pais também é uma marca dos novos espaços. Em alguns, eles chegam a trabalhar como educadores uma vez por semana. Apesar de pagar pelo serviço, são sempre responsáveis por cozinhar ou comprar o lanche dado a todas as crianças, num esquema de revezamento. As reuniões são mensais e as conversas com as famílias, diárias, por meio do WhatsApp. “Eu brinco que é uma escola para pais e filhos”, diz a jornalista Carine Leal, de 35 anos. Ela diz que teve dificuldade em se sentir acolhida em escolas quando procurou uma vaga para seu filho Antônio, de 2 anos, e optou pela Aldeia.

“Muitas escolas falam que querem uma criança autônoma, mas têm sempre um adulto dizendo o que ela tem de fazer, que ela terá 40 minutos de parque. Esse tempo picado é uma organização adulta”, acredita a pedagoga Lilia Standerski, de 32 anos, uma das proprietárias da Casa Ubá, na Vila Madalena. Formada pela Universidade de São Paulo (USP) e também ex-professora de colégios particulares, ela resolveu estudar outras formas de educação para abrir o que ela chama de “casa de culturas da infância”. Com dois anos, já tem fila de espera.

Renato Stefani, de 28 anos, um dos proprietários do Espaço Puri, no Alto da Lapa, completa as críticas às escolas de educação infantil. “Por mais aberta que seja, ela tem de cumprir as metas de aprendizagem. Aqui, ninguém precisa vir fazer alguma coisa. Vamos desenvolvendo os desejos das crianças.”

Quintal. A figurinista Nana Calazas, de 36 anos, transformou a sua própria casa em um espaço de educação para a filha em 2016. Ela fez um acordo com Daniela Gomes Klepacz, de 31 anos, psicóloga que trabalha como professora assistente numa escola particular, e as duas montaram o Quintal Umuarama. Nana alugou os fundos do imóvel em troca da mensalidade da filha. Hoje a menina tem 3 anos e vai a uma escola regular. Mas o Umuarama continua com outras dez crianças.

A modalidade de “quintal” tem ideia semelhante às outras instituições, mas atende crianças de até 3 anos e em espaços de residências. Há outros novos locais desse tipo pela cidade. No Umuarama, os pais pagam R$ 990 e têm também participação ativa. Eles têm a chave do portão da casa e ainda limpam e arrumam o local todo dia, quando chegam para buscar os filhos. 

“Por ser um lugar menor, temos controle maior da alimentação e de questões como consumismo, sexismo”, diz Nana sobre o modelo. “Não é só levar e buscar na escola, participamos das decisões e discutimos o que surge no dia a dia das crianças”, completa a jornalista Angélica Valente, de 39 anos, mãe da Beatriz, de 2.

Anahi vê as crianças crescendo no Ori Mirim, que começou há pouco mais de 2 anos, e não estabelece uma idade em que elas têm que deixar de frequentá-lo para ir à escola. Hoje o mais velho tem 6 anos, idade do 1.º ano do ensino fundamental. “Se estivermos percebendo o aprendizado e o desenvolvimento delas, continuamos.”

A ex-bailarina Ana Thomaz é uma antiga defensora da desescolarização e inspiração para as novas instituições. Quando seu filho tinha 14 anos, pediu para sair da escola e a atitude mudou a sua vida. Hoje, Ana vive em um sítio no interior de São Paulo, come o que planta e faz palestras sobre uma “nova forma de ver a humanidade”. Suas filhas menores, de 9 e 11 anos, nunca foram à escola. “Esses pais buscam reconhecer que a gente não é máquina. Não preciso receber estímulos para dar um resultado depois. Eu não preciso de informação para ser humano. O que preciso é criar vínculos. Mas a culpa não é da escola, ela é só um efeito da sociedade.”

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Conselho quer novas regras para espaços de 'unschooling'

Para se regularizar, instituições teriam de se registrar e, depois, passar por fiscalização

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

12 Março 2018 | 03h00

SÃO PAULO - O Conselho Municipal de Educação (CME) deve mudar uma resolução para exigir a regularização de espaços não formais de educação infantil. Nos últimos dois meses, cresceu o número de denúncias sobre locais que atuam como escolas e atendem crianças até 5 anos sem ter licença para tal. A nova regra deve exigir que os responsáveis se registrem oficialmente como instituições de educação e passem a ser fiscalizados pela Prefeitura. Se não se adequarem, há risco de fechamento.

Nenhuma das instituições consultadas pelo Estado tem CNPJ de escola e por isso não tem licença de funcionamento da secretaria da Educação. Algumas são registradas como empresa de recreação infantil, outras nem sequer são empresas.

“Quando é autorizada, há supervisão de segurança, higiene, salubridade e, principalmente, qualidade do atendimento de educação. É uma segurança para os pais”, diz a presidente do CME, Sueli Mondini. Ela afirma que, quando um espaço atende a crianças de 0 a 5 anos diariamente, com vínculo claro, ele precisa ser registrado como escola. 

Entre as exigências da legislação brasileira para a educação infantil estão a formação em Pedagogia dos profissionais, avaliação da aprendizagem das crianças e um currículo que leve em conta a Base Nacional Comum Curricular. 

Outra questão legal é o fato de que, desde 2016, uma emenda constitucional obriga crianças com mais de 4 anos a estarem matriculadas em escolas. Os pais podem ser processados por deixar de “prover instrução” aos filhos, segundo o Código Penal. Os conselhos tutelares agem depois de denúncias e fazem visitas à casa da famílias. Com base no que constatam, comunicam ou não o Ministério Público. 

Há casos em que o processo não é aberto porque o conselheiro acredita que a criança não está abandonada e, sim, aprendendo de maneira não formal. “É um descontentamento que tem crescido no Brasil inteiro. Está se deslocando o eixo central do processo de ensino e aprendizagem dos professores para as famílias”, afirma o advogado especialista em educação familiar desescolarizada Édison Prado de Andrade. Ele defende pais que querem educar seus filhos em casa ou só tirá-los da escola. 

Criança não pode escolher sempre, diz educadora

Especialistas em educação infantil se preocupam com a formação de profissionais que atuam em instituições não formais. “Há uma desconsideração do conhecimento acumulado no século 20. Elas podem apresentar projetos diferenciados, mas precisam dos professores, de pessoas que entendam de educação”, diz a professora titular de Educação Infantil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Maria Carmen Barbosa.

A educadora também acredita que não é a criança que tem de decidir sempre o que quer fazer. “Ela tem o direito de participar das escolhas, mas também vai aprender a conviver. É um equilíbrio entre a liberdade total e a possibilidade do comum, algo da vida em sociedade.” 

Beatriz Abuchaim, coordenadora da Educação Infantil da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, critica o fato de não haver um forte estímulo para que as crianças façam atividades em grupo. “Os momentos individuais são importantes, mas é em grupo que ela aprende a esperar a vez pra falar, o autocontrole, a empatia quando ouve o outro.”

A pesquisadora lembra ainda que é preciso ter certeza de que a criança está aprendendo. “Todo o trabalho na educação infantil é em cima da autonomia, mas tem de ter um mínimo de estrutura para que possa garantir o direito de aprendizagem.”

Ensino básico. A educação infantil – que atende a crianças de 0 a 5 anos – passou a ser a primeira etapa do ensino básico brasileiro com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em 1996. Até então, podia ser considerada como assistência social. Passou-se também a exigir a formação em Pedagogia dos profissionais. Recentemente, a valorização da primeira infância se tornou mundial, pois pesquisas passaram a mostrar como são cruciais os estímulos nos primeiros anos de vida. 

 

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