Cresce a inclusão de alunos especiais em escolas regulares

Fábio Ferraz e Douglas Domingues são crianças com síndrome de Down e há algum tempo estudam em escolas convencionais. Deixaram de freqüentar apenas as associações especializadas para descobrirem o significado da tão falada inclusão. "Você tinha de ver como ele dançava como os outros meninos na festa junina", diz, orgulhosa, a mãe de Douglas, de 8 anos, Aparecida Domingues.O Censo Escolar 2003, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) nesta semana, mostra que o caso de Douglas não é isolado: a cada 100 estudantes com deficiências, 29 estão matriculados em classes comuns.O aumento da educação inclusiva em relação ao ano passado é de 30,6%. Em 1998, quando o censo analisou pela primeira vez a situação de alunos especiais - com deficiências visual, auditiva, física, mental ou superdotados -, só 15% estava em escolas regulares.Segundo o último levantamento, há 358.987 crianças com alguma dessas características freqüentando escolas, 144.583 delas em classes regulares do ensino básico. Os dados do ensino superior ainda estão sendo analisados pelo MEC.Medo do escorregador"Quando ele chegou à escola, tinha medo até do escorregador", conta Silvia Malheiro, diretora da escola municipal Carlos de Laet, onde Douglas estuda. O menino antes tímido participa agora de qualquer atividade e se comunica facilmente.Entre centenas de alunos da unidade, há dez crianças com deficiências. "As outras se preocupam, perguntam sempre se o colega que tem necessidades especiais vai poder participar de um passeio, por exemplo."RecomendaçãoA recomendação para que pessoas com deficiências sejam educadas na rede regular de ensino está prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996. O Brasil foi também signatário de uma declaração internacional que selou o compromisso de garantir acesso à educação inclusiva (EI) até 2010. Decretos e resoluções subseqüentes no País reforçaram a idéia de que os excepcionais devem participar da sociedade, desde a infância.Não se trata de ocupar o espaço de instituições como a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) ou a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), que sempre tiveram suas próprias escolas. Muitas delas são justamente as primeiras a defender a inclusão. "A educação tem de reconhecer as pessoas não pelas suas dificuldades e sim por suas potencialidades", diz o coordenador do Instituto Apae, Edigilson Tavares.Apae tambémA Apae criou um setor que prepara alunos para ingressar na escola convencional. "A inclusão é um caminho sem volta. Nossa escola vai diminuir, mas continuará existindo para os casos graves e para apoiar escolas regulares."Fábio Ferraz, apesar de cursar a 1.ª série de uma escola particular, vai à Apae a cada 15 dias. Ele faz fisioterapia e reforço escolar. A mãe, Eneida, que já enfrentou dificuldades para encontrar escola para o filho excepcional, hoje se diz realizada. "Ele adora a escola e depois que começou a estudar lá se aproximou mais das pessoas."Preparar escolas"Se pretendemos fazer a inclusão, é preciso um plano para preparar a escola. Caso contrário, coloca-se a criança lá e acaba acontecendo a exclusão na inclusão", diz o diretor da Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação Alfredo Tabith, que acredita que ainda é difícil trabalhar com alunos surdos, por exemplo.A vice-presidente da AACD, Ika Fleury, defende a inclusão, mas lembra que deficientes físicos sofrem com a falta de espaços adaptados às suas necessidades, fenômeno que ocorre até no ensino superior.Hoje, 44.490 do 1,5 milhão de professores do ensino fundamental trabalham com alunos especiais. Segundo o coordenador da Secretaria de Educação Especial do MEC, José Rafael Miranda, Estados e municípios têm capacitado professores para a inclusão. "Eles estão aos poucos aprendendo que a sala de aula é um lugar heterogêneo."

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