Cotas para negros não resolvem a desigualdade, diz ministro da Educação

O ministro da Educação, Cristovam Buarque, afirmou nesta terça-feira que cota para negros nas universidades não resolve a desiguladade social no País."Cotas ajudam a mudar a cor da universidade, mas não a classe. Os pobres continuarão excluídos", disse o ministro. Ele argumenta que a população de baixa renda, em geral, não passa da quarta série do ensino fundamental, bem longe da porta da universidade.Cristovam considera uma vergonha a elite brasileira ser composta apenas por brancos e não ter afro-descendentes entre embaixadores e turistas brasileiros no exterior. Na cerimônia de instalação do Fórum Brasil de Educação do Conselho Nacional de Educação, na terça-feira, ele observou que o ministro da Cultura, Gilberto Gil, era o único negro presente no auditório com capacidade para 500 pessoas, onde estavam representantes de universidades públicas e privadas, de secretarias estaduais e de entidades de classes. Depois avistou mais três pessoas na platéia.Apesar das críticas, o ministro diz ser, pessoalmente, favorável às cotas. Nos Estados Unidos, exemplifica, serviu para garantir o acesso dos hispanos-americanos às universidades. Mas é contra a imposição deste regime para a sociedade inteira - "não seria bom para os negros". Para ele, o melhor é testar antes de adotar uma regra geral. No ministério, o assunto ainda está em discussão, principalmente pela polêmica gerada diante da dificuldade de se definir quem são os negros e pardos num País com o grau de miscigenação do Brasil. Para o representante da Unesco No Brasil, Jorge Werthein, a falta de critérios bem definidos não invalida a importância de se ter cota para reduzir a desigualdade. "O sistema de cotas permite ir equilibrando a desigualdade, enquanto se busca melhoria substancial do ensino público brasileiro", defendeu.Werthein disse que nos Estados Unidos também foi complicado definir critérios, mas durante muitos anos ajudou a integrar o setor da população postergada. Cristovam ressalta que a desigualdade entre as classes só se resolverá com "uma tremenda de uma escola pública, gratuita, de qualidade, para todas as crianças". Em 15 anos, esse problema estaria sanado e a discussão de cotas perderia o sentido. "Quando se faz uma revolução não é o fuzil dos revolucionários que traz igualdade é o lápis do professor que constrói a igualdade."Cristovam diz que manter a desigualdade é "uma burrice" que acabará gerando dois tipos de brasileiros. E insiste que o preconceito mais forte no Brasil não é o de raça, é o de classe. Com base em números do Institituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep) do MEC, o ministro comenta que uma pessoa pobre no Brasil recebe ao longo de toda a sua vida R$ 3.200,00 de investimento educacional, porque permanece apenas quatro anos na escola e o Fundef garante o repasse de R$ 800,00 ao ano por aluno para os Estados.Já um filho de classe média recebe R$ 250 mil de investimento porque fica 20 anos na escola, gasta R$ 1 mil mensal com escola, ginástica, balé, inglês. "Um país que gasta R$ 3.200,00 para uns e R$ 250 mil para outros não é uma República ainda", conclui o ministro que defendeu os aumentos do valor do Fundef e da permanência do aluno pobre na escola.Na instalação do fórum, mais uma instância consultiva no CNE, Cristovam lembrou que o Brasil tem 20 milhões de analfabetos. Entre eles, pobres e negros. Lançou um desafio para os participantes do fórum para que pensem em como reduzir a desigualdade no Brasil e advertiu para o perigo de as entidades representarem mais os interesses dos seus segmentos do que os da coletividade dentro do novo fórum do CNE."Pedi para que lembrassem da criança, do jovem e do analfabeto e buscassem medidas que reduzissem a desigualdade entre homens e mullheres, pobres e ricos, negros, indios e brancos, e entre o Nordeste e o Norte e o Sul e Sudeste."

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