'Cota deve existir pelo lado social', diz ex-reitor Adolpho Melfi

Professor Adolpho José Melfi foi reitor da USP de 2001 a 2005

Pablo Pereira,

23 Janeiro 2014 | 19h19

Ele foi reitor da Universidade de São Paulo (USP) de 2001 a 2005, período no qual a entidade apostou num projeto ousado de crescimento de alunos e expansão territorial. Na gestão do geólogo Adolpho José Melfi, a universidade saltou de cerca de 6,9 mil vagas oferecidas para quase dez mil (em 2014 são 11.057 vagas) e foi criada a unidade USP Leste, campus na Zona Leste de São Paulo. O ex-reitor aceitou conversar com o Estado sobre sua contribuição no comando da principal universidade brasileira. Aos 77 anos, estudioso das ciências da terra, Melfi estava em São Miguel da Cachoeira, no interior do Amazonas, metido na pesquisa de campo sobre "datação de caolinitas de formações lateríticas na Bacia do Rio Negro: importância na evolução geomorfológica da Amazônia Central" quando interrompeu um relatório científico para a entrevista por telefone.

O ex-reitor diz que a decisão de expandir a USP foi um sucesso. Para ele, a ação mais gratificante de sua gestão foi exatamente a implantação do crescimento da USP.  "Foi uma ideia inovadora", explica. Melfi admite que ainda há resistências à USP Leste dentro da própria universidade. "Há resistências lá e há um uso político da situação, sim", afirma. "Mas considero um sucesso". A expansão da USP vinha sendo debatida na academia desde o momento no qual a universidade conquistou a autonomia, em 1989. Melfi foi o gestor da implantação, aproveitando inclusive muito do projeto de expansão de outra unidade, a do Campus 2  de São Carlos.

Fomado em 1960, com doutorado em geociências em 1967, Melfi foi pró-reitor de pós-graduação (1994-1997), vice-reitor, de 1997 a 2001, assumindo em seguida a reitoria. Ele explica que sua gestão ocorreu em uma calmaria entre dois períodos difíceis, o anterior ao dele, tocado pelo antecessor Jacques Marcovitch ( 1997-2001), quando houve a greve dos 52 dias, quando professores, funcionários e alunos paralisaram a USP, e em administrações posteriores, que também registraram conflitos no campus. "Eu tive uma boa relação com os sindicatos", diz. 

De acordo com Melfi, a USP hoje já atingiu seu limite e não deve aumentar mais a oferta de vagas - a universidade conta com cerca de 90 mil alunos em 240 cursos de graduação, 239 de pós-graduação, distribuídos em 48 unidades de ensino e pesquisa. Defensor ferrenho da meritocracia, ele é contra a adoção de cotas raciais para novos alunos. "Já se discute a implantação de cotas na USP. E já há facilidades, bônus dados para negros, índios. Mas eu acho que, em princípio, a entrada na USP deve ser por mérito", declara.

 

O senhor foi reitor no período da criação da USP Leste. Como foi essa essa experiência de expansão da universidade?

A USP estava estabilizada em torno de 7 mil vagas. Nós fizemos um estudo para elevar esse número para 10 mil sem criar grandes problemas para a universidade. A maior expansão foi com a USP Leste, mas tivemos também expansão com o campus de São Carlos. Houve uma expansão geral, com novos cursos, principalmente. Com respeito à Zona Leste foi uma experiência nova, quando tentamos criar uma escola diferente, desde a área de saúde, ambiente, educação. Acho que foi uma boa experiência. Depois, tivemos alguns problemas lá. Houve falta de apoio na gestão posterior, não houve criação dos prédios que estavam previstos. Mas, do ponto de vista do ensino, foi um sucesso. Dos dez cursos criados, diria que 8 estão com desenvolvimento plenamente satisfatório.

Mas o senhor, recentemente, recomendou uma redução de vagas lá. Por quê?

Olha, foi feito estudo por uma comissão, da qual eu fiz parte, e vimos que alguns cursos, por exemplo, de ciências da natureza, tinha número de vagas muito grande, 120, mas que atraía no vestibular um número relativamente pequeno. Daria para concentrar num período e, com isso, ter uma participação mais efetiva dos professores etc. Então houve ali uma sugestão. Agora, aquilo lá foi uma utilização política.

Houve manipulação política, é? De parte de quem, professor?

Houve sim. Aquilo criou uma rebelião lá dentro quando aquela comissão era apenas para indicar caminhos, dar sugestões. A decisão seria da Congregação da unidade. Agora, isso criou um problema principalmente na área de saúde, no curso de obstetrícia. Eu acho que obstetrícia é importante, mas acho que deveria atuar dentro da enfermagem. É mais ligada à enfermagem. Mas,evidentemente, não foi pedido que esse curso fosse fechado.

O senhor continua defendendo para a USP uma política de expansão da Universidade? Para o Interior, eventualmente para outros estados?

Acho que hoje a USP atingiu um número que é bastante razoável. Eu não pensaria, como nmunca pensei, em fazer expansão fora do campus que já existe. Nós criamos em São Carlos o curso de engenharia aeronáutica, engenharia de computação, e também cursos em Ribeirão Preto. A única expansão fora dos campus existentes foi a de Lorena. Havia três faculdades:  Lorena, Marília e São josé do Rio Preto, estas últimas de medicina. Tivemos discussões e achamos que a USP poderia assumir Lorena, que era muito boa. Não que as outras não fossem, mas é que medicina é muito complexo, exige hospitais etc. Lorena, não. Era engenharia. Já havia contato com a Politécnica. E foi anexada.

Então, expansão só em unidades já existentes?

É. Mas acho que o número de vagas não deve ser muito ampliado. Já estamos com um limite bastante razoável.

Professor, o senhor era contra as cotas raciais. O senhor mantém essa posição?

Sim. Eu mantenho essa posição com respeito às cotas raciais. Naquela época a gente defendia que poderiam existir cotas, mas que deveriam ser mais do ponto de vista econômico e social. Não vejo muitas razões para criação de cotas raciais. Isso acaba criando problema grande. Hoje a USP caminha um pouco nesse sentido. Já se discute a implantação de cotas, a USP já há facilidades, bônus dados para negros, índios. Mas eu acho que, em princípio, a entrada na USP deve ser por mérito.

É a filosofia desde a criação?

Exato. Temos que manter essa filosofia. As decisões têm de ser por mérito. Acesso baseado na meritocracia. Que não percamos a posição que atingimos.

A USP é hoje o que o senhor esperava?

A USP, evidentemente, evoluiu. Tivemos grandes avanços após o período de 2005. Foram criados e estabilizados cursos importantes, como relações internacionais. Tem o ensino à distância, que para determinados cursos é bom e pode ajudar na expansão sem criar muito problema para a universidade. Há o centro de convenções, outros prédios. Houve investimentos, melhora para os professores, biblioteca. Acredito que deve continuar. O professor Zago (Marco Antônio Zago, reitor indicado em dezembro) é um pesquisador de gabarito, conhece muito bem o meio acadêmico brasileiro. A USP está em boas mãos.

A USP deve se dirigir mais para formação dos jovens para o mercado de trabalho, naquela relação universidade-empresa, ou deve ser mais voltada para a massa crítica além da graduação?

As duas vertentes são importantes. Em face do que se vê hoje no Brasil, das carências na formação de engenheiros,  isso é extremamente importante. Mas não devemos, evidentemente, relegar a plano menor, deve ser um plano de igualdade, os cursos de ciências sociais, que forma críticos de tudo que envolve os problemas sociais. Eu vi com bastante satisfação, durante a campanha para eleição, que houve bastante discussão e preocupação com a graduação. Todos muito preocupados com esse tema.

Qual foi o momento mais gratificante no seu mandato?

Foi a expansão de São Carlos e, evidentemente, a USP Leste. Foi uma ideia inovadora. E eu acredito, particularmente, que está sendo um sucesso. Apesar de terem surgido lá, agora, problemas. Parte deles motivados muito mais por questões políticas do que para discutir mesmo o problema.

E o ponto mais crítico. Foi a saída daquela dificuldade com pessoal, que já provocara greves da gestão anterior?

Eu não diria que houve momento crítico na nossa gestão. Tivemos uma greve branda. Foi um período calmo, com relações boas com os sindicatos. Não considero período crítico, como houve depois, em gestões posteriores. Acho que pegamos momento bom. Do ponto de vista financeiro, pudemos acompanhar a inflação nos aumentos. Tive a sorte de pegar também a comemoração dos 70 anos da USP, que agora vai completar os 80 anos. Na época fizemos vários eventos de comemoração.

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