Miguel Thompson
Miguel Thompson

Convivência e transformação social resumem a essência da educação

Pandemia muda como professor passa o conhecimento, mas, para especialista, também mostra que contato físico na escola é insubstituível

Entrevista com

Miguel Thompson, diretor acadêmico da Fundação Santillana

Luciana Alvarez, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 05h00

A pandemia acelerou mudanças que já estavam se desenrolando, explica Miguel Thompson, diretor acadêmico da Fundação Santillana. Entretanto, ao afastar fisicamente alunos e professores, ela ressaltou a importância de fatores que não devem mudar: a construção de amizades e do envolvimento com o que se passa na sociedade. “A socialização se mostrou um aspecto essencial. A escola é ainda um espaço de luta e transformação social”, afirma.

A pandemia mudou a forma como a sociedade vê a escola?

Mudou. Porque a gente vinha de um descrédito muito grande, as pessoas desconheciam o cotidiano de uma escola. Quando estava funcionando, quase ninguém pensava nela. Percebo que os pais agora estão valorizando muito mais, em todas as classes sociais. No mínimo, perceberam a escola como um espaço essencial de cuidado. Saltou aos olhos o quão importante é ter esse espaço no dia a dia para que as crianças possam se ocupar e aprender. 

A escola também mudou?

A escola mudou, sobretudo na ideia de transmissão do conhecimento. Muitos professores ainda achavam que seu trabalho era ir lá e dar uma aula expositiva. Mas tem uma mídia no meio, o que envolve uma reflexão sobre esse espaço de transmissão do conhecimento. Os professores primeiramente se assustaram. Agora estão procurando entender como é que se transmite online o conhecimento. Mesmo que seja uma aula expositiva, a transposição é mais complexa, porque você não está com a pessoa cara a cara, os meninos se distraem rapidamente e é muito difícil falar para uma tela. Na escola estão todos fazendo uma reflexão sobre o modelo tradicional. 

As mudanças são temporárias ou terão impactos duradouros?

Já vinha acontecendo uma mudança na sociedade em relação ao mundo online. O novo coronavírus acelerou esses processos. Quando voltarem as aulas, muita coisa vai ser diferente, mas não só pela pandemia. As redes sociais digitais, os streamings, os games, todas essas coisas se aceleram demais. Na escola já havia um discurso de aula invertida, de ensino híbrido, mas muitos dos grandes professores não usavam tecnologias. Eles se viram obrigados a usar. Vai vir toda uma gama de bons profissionais que passaram dominar o online. Lógico que aspectos do modelo antigo vão voltar, mas há mudanças na relação. A mudança é estrutural, não só conjuntural, decorrente do coronavírus. 

O que a pandemia não mudou na escola? Qual é a essência dela que, portanto, vai se manter?

A convivência. A gente vê isso no esforço dos jovens estudantes, que estão tentando manter alguma forma de convivência. A socialização promovida pela escola se mostrou um aspecto essencial. A escola é um espaço de amizades. Mesmo anos depois de a gente deixar a escola, ela tem uma força no nosso coração, porque há uma ligação afetiva. A escola é ainda um espaço de luta e transformação social. A ideia de desenvolver a comunidade da escola, o entorno, está se mostrando importante. Pais que antes reclamavam muito no WhatsApp podem até continuar a reclamar, mas começaram a organizar um movimento de ajuda a partir dessas redes digitais. A gente tem visto professores muito engajados e a molecada rica, ao menos boa parte, preocupada com os problemas sociais.

Então as escolas sairão melhores desta crise?

Vão ser dois anos muito complexos, de grandes problemas. Mas pode haver muita inovação a partir do que a gente aprendeu. Não vai migrar tudo para o online; vamos ter um híbrido. E vamos ver uma escola cada vez mais focada na investigação, nas pesquisas, cada vez mais um ambiente de novas mídias, de produção dos alunos. Isso se dará pelo contexto de sociedade, que o coronavírus veio acelerar. Mas o Brasil não vai conseguir dar um salto na educação sem investir na sociedade criativa. 

O vínculo do professor com o aluno foi afetado?

De forma geral, os professores se engajaram muito. Você vê que, exaustos, estão tentando ajudar. Há uma mudança no modelo de ser professor. Ele passa a ser um orientador, a se preocupar com o socioemocional, a trabalhar mais com investigação. Nos próximos cinco anos, devemos ter grande mudança na forma de ser professor, até porque os currículos estão mudando. As didáticas estão aparecendo. Os cursos estão lotados, de escolas públicas e privadas.

Como será a escola no pós-pandemia?

Vai ser um ambiente de produção, com atividades maker, e de novas linguagens. Fala-se de um conceito de edutainment, que é misturar entretenimento na educação. Tem muito professor trazendo esses conceitos para a prática, botando os estudantes para fazerem vídeos, podcasts, dramatizações, cinema. Mesmo as escolas mais tradicionais, focadas no vestibular, estão trazendo no contraturno outras possibilidades, com produção e novas mídias.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.