Contra a gravidez precoce, sonhos e planos

Projeto que reduziu em 91% o número de jovens gestantes no interior, será ampliado para todo Estado

Giuliana Vallone, do estadao.com.br,

21 de julho de 2008 | 21h36

O objetivo era prevenir a gravidez precoce. A ferramenta? O sonho. Assim surgiu o projeto Vale Sonhar, que reduziu em mais de 90% o número de jovens gestantes na região do Vale do Ribeira. O projeto deu tão certo que agora será ampliado para todo o Estado de São Paulo, atingindo cerca de 600 mil adolescentes.  Veja também: Escolas de SP terão oficinas contra gravidez na adolescência Evitar gravidez na adolescência é 'projeto para o Brasil' Criado pelo Instituto Kaplan - especializado em estudos da sexualidade humana - em parceria com a Secretaria de Educação do Estado, o projeto une o conhecimento sobre sexualidade, reprodução e contracepção aos sonhos dos jovens como motivação para o sexo seguro.  "O objetivo é desenvolver essa responsabilidade pessoal no adolescente, promovendo que ele perceba o impacto da gravidez no projeto de vida dele", explicou Sandra Vasques, psicóloga e orientadora sexual e gerente dos projetos do Kaplan.  O projeto começou em 2004, em 14 municípios do Vale do Ribeira - região com o menor índice de desenvolvimento humano do Estado. Treinados pelo Kaplan, os professores realizaram três oficinas junto as alunos do ensino médio, durante as quais deram aulas de orientação sexual e discutiram seus planos e sonhos para o futuro. Nessas oficinas, alguns deles tiveram que imaginar como seria seu futuro se tivessem um filho naquele momento. A experiência, então, era contada à classe. Já no primeiro ano de experiência, o número de meninas grávidas na região foi reduzido em 80%, de 360 para apenas 72. No final de 2006, após dois anos de oficinas, a redução foi ainda maior e chegou a 91%.  Com a expansão do projeto para todo o Estado, adolescentes de 3.600 escolas paulistas vão participar das oficinas do Vale Sonhar. Elas serão realizadas dentro da disciplina de biologia para alunos do primeiro ano do Ensino Médio, a partir de outubro. "Vamos mostrar aos estudantes da rede que a gravidez é uma escolha, cujas implicações os acompanharão pelo resto da vida", afirmou a secretária de Estado da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro. Mudança de foco A coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente do Estado, Albertina Duarte Takiuti, explicou que o foco do combate à gravidez na adolescência em São Paulo mudou há cerca de dez anos, após uma pesquisa que mostrou que os jovens conheciam os métodos de prevenção, mas, na hora da relação, não colocavam esses conhecimentos em prática. "A partir de 98, começamos a investir mais fortemente na questão da importância da negociação entre os adolescentes", disse. Segundo ela, o vínculo dos adolescentes com os parceiros, assim como o início da vida sexual, é precoce, o que faz com que eles não tenham firmeza para negociar e impor o uso do preservativo. Assim, a Secretaria de Saúde passou a trabalhar com um espaço de acolhimento dos adolescentes, em que eles pudessem discutir os aspectos de sua sexualidade e falar do seu cotidiano. Em um desses projetos, a Casa do Adolescente, meninos e meninas tratam desde o aspecto físico, com ginecologistas, médicos de família e urologistas, até o aspecto individual e psicológico. "Nós também investimos nas oficinas, oficinas de sentimento, de nutrição, de dança", afirmou Albertina. Cuidar da auto-estima do adolescente e fazer com que ele se sinta seguro em relação a si, torna a prevenção mais presente na vida dele. "Se ele tem uma atitude firme em relação ao auto-cuidado, vai ter em relação a uma série de coisas, não só com a sexualidade", completou. Albertina elogiou o projeto Vale Sonhar e afirmou que estava feliz com sua ampliação para todo o Estado. "As adolescentes que engravidam tem seus sonhos dificultados. Elas passam do sonho de ser filha, para o sonho de ser mãe", disse. Sandra, do Kaplan, ressaltou, no entanto, que apenas a realização das oficinas não é suficiente para se chegar a um resultado tão expressivo quanto o do Vale Sonhar. "É muito importante que todas as pessoas da escola saibam que aquelas oficinas estão acontecendo, que os pais saibam também e que todos estejam dando apoio para que realmente a prevenção à gravidez seja algo dentro da moda naquela escola", disse. "Não é um número mágico, exige muito trabalho", completou.

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