Consultoria caça talentos com programa multicultural

No fim de julho, o estudante de engenharia elétrica e funcionário do Unibanco Fernando Morais Ribeiro, de 25 anos, fechou o zíper da mala e partiu em viagem à Europa. Conheceu pontos turísticos da França, Bélgica e Holanda. Depois, hospedou-se no Duin & Kruidenberg Hotel, mansão com mais de três séculos, em Amsterdã (Holanda).O mesmo fez o aluno do ITA, André Ventura, estagiário da Booz Allen Hamilton, e Gustavo Pereira Artuzo, também estudante do ITA, que trabalha na A.T. Kearney. Eles fixaram estadia em Amsterdã, cidade conhecida como a Veneza do Norte pelos seus canais, famosa por sua agitada vida cultural, seus cafés e por ser sede do Museu Van Gogh.Férias? Não. Um misto de imersão cultural e maratona de trabalho e pesquisa. Apesar de aproveitarem o roteiro turístico, eles foram convidados por estarem na lista dos 50 selecionados pela Roland Berger Strategy Consultants, consultoria de alta gestão, que recrutou universitários das principais faculdades do mundo para participar do Topics 2003, encontro realizado no fim de julho, em Amsterdã.Bateria de testesAntes, porém, os estudantes enfrentaram uma bateria de testes dividida em quatro etapas, entre lógica, raciocínio e habilidade pessoal de negociação. Eles se dividiram em grupos de trabalho para debater questões estratégicas da Daimler Crysler depois da fusão. Viveram um ensaio do que é um trabalho em consultoria."É um projeto global, no qual buscamos candidatos de todo o mundo que possam avaliar o problema real de uma indústria que é nossa cliente", explica o diretor de Projetos da Roland Berger, Leônidas Herndl."Melhores do mundo"Essa foi a terceira edição do Topics. Foram aplicados U$S 300 mil, segundo Herndl, mas o aporte, salienta, dá retorno à altura. "Reunimos uma equipe de 50 jovens, os melhores do mundo. Trata-se de considerável poder intelectual e desse fórum surgem idéias fantásticas para nossos clientes."O sócio-diretor da Roland Berger para a América do Sul, Win van Acker, explica que no Brasil a consultoria vive uma fase atípica e espera crescer 15% neste ano, superando os 13% do ano passado.Hernedl, responsável pelo Topics, lembra que essa não é finalidade principal do programa, mas nos últimos tempos vários talentos foram contratados após serem identificados pelo projeto. "Proporcionamos um relacionamento com talentos de vários países. Pessoas com interesse em carreira internacional sentem-se atraídas pela oportunidade de atuar em consultoria," diz Herndl.ContatosNos debates, eles tiveram contatos com executivos e profissionais do alto escalão da consultoria. Nos eventos anteriores, realizados em Lucerna (Suíça), em Estocolmo (Suécia) e em Lisboa (Portugal), foram escolhidos os temas e-commerce, m-commerce e CRM, sempre na ótica de um cliente da consultoria.Se a experiência rende bons resultados para a Roland Berger, os jovens também não se queixam. "Tivemos oportunidade de conviver com pessoas de 30 nacionalidades, entre advogados, representantes de vendas e tantas outras profissões", conta Gustavo Artuzo, que trabalha na A.T. Kearney."Foi um encontro de muita diversidade cultural e óticas, principalmente porque os integrantes vêm de países com economia em momentos diferentes, mas que têm de ter uma proposta muito clara de valor."Resultado da equipePara André Ventura, funcionário da Booz Allen, o que o atrai no trabalho de consultoria é o desafio aos próprios limites. "A beleza desse trabalho é que o resultado depende de toda a equipe." Já Fernando reconhece ser necessário saber lidar com pressão e estar preparado para responder ao cliente.Mesmo assim, ele diz que está convicto de sua vocação. "Me sinto confortável por trabalhar em um ambiente multicultural. Em uma consultoria, há várias pessoas que trazem experiências de trabalho de outros nichos, conhecimentos que permitem a quebra de estigmas e padrões."Grande procuraO programa da Roland Berger chama atenção para uma carreira que, nas principais escolas de negócios do mundo, desponta na lista das mais cobiçadas, a de consultor de alta gestão.Em 2002, por exemplo, os alunos do MBA de período integral da Universidade de Edimburgo, na Escócia, foram contratados primeiramente por bancos, finanças e seguros (25%), consultorias (12%), área governamental e setor público (11%).Em renomadas escolas de negócios do Reino Unido, há uma declarada recomendação para professores convencerem alunos de que há outras opções de carreira, além da consultoria e do mercado financeiro, que ainda despontam como os principais empregadores da seleta lista de diplomados.Não é uma tarefa fácil. O salário de um júnior em consultoria de alta gestão é de R$ 5 mil no Brasil. "Antes, esses dois setores chegavam nas escolas de negócios, recrutavam os melhores e os levavam embora", comenta Graham Hastie, diretor do Centro de Gerenciamento de Carreira da London Business School (escola que está na sétima posição do ranking do Financial Times de melhores MBAs)."Hoje não é mais assim", opina. "As McKinseys do mundo não estão contratando."

Agencia Estado,

09 de setembro de 2003 | 15h07

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