Conselho da PUC-SP suspende lista tríplice e Anna Cintra pode não assumir reitoria

Recurso questiona legitimidade da nomeação de Anna Cintra, a menos votada em eleição

Carlos Lordelo e Cristiane Nascimento, Especial para o Estadão.edu, e Davi Lira, de O Estado de S. Paulo,

28 Novembro 2012 | 17h57

O Conselho Universitário (Consun) da PUC-SP acatou recurso de estudantes e suspendeu temporariamente a validade da lista tríplice de indicados para a reitoria. Com a decisão, a posse da professora Anna Maria Marques Cintra como nova reitora, marcada para esta sexta-feira, 30, pode não ocorrer.

 

Anna Cintra foi a menos votada pela comunidade acadêmica em agosto, mas foi escolhida pelo grão-chanceler da universidade, o cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer. Alunos, funcionários e professores, a maior parte em greve desde a nomeação, no dia 12 de novembro, comemoraram a decisão.

 

A partir de amanhã, a PUC-SP pode ganhar um reitor interino, o professor Marcos Masetto - a decisão depende da aprovação de d. Odilo. O cardeal tem duas opções, segundo explicou Masetto ao Estadão.edu: ou mantém a posse de Anna Cintra, ignorando o recurso aprovado no Consun, ou o nomeia para comandar a universidade até o dia 12 de dezembro, quando haverá nova reunião do conselho e será decidido o mérito do recurso, apresentado pelo Centro Acadêmico 22 de Agosto, dos alunos de Direito. Hoje é o último dia da gestão do atual reitor, Dirceu de Mello – o mais votado na eleição.

 

"A reunião de hoje foi para fazer um apelo para que ela (Anna Cintra) declinasse da sua decisão (de aceitar a nomeação) e o cardeal reconsiderasse sua decisão (de nomear Anna Cintra)", disse Masetto. "No entanto, a proposta não foi feita porque a professora não compareceu à reunião (do Consun), mesmo tendo sido convocada." Para o professor, Anna Cintra tem de se manifestar até a reunião do dia 12 de dezembro.

 

As regras para a escolha do reitor na PUC-SP preveem eleição em que alunos, funcionários e professores votam. Uma lista tríplice segue para o cardeal, que tem a prerrogativa de selecionar um dos nomes. Tradicionalmente, o primeiro colocado é o escolhido. A nomeação de Anna Cintra abriu uma crise na universidade, com alegações de parte da comunidade acadêmica de que a decisão de d. Odilo feriu a “democracia”.

 

No recurso, os estudantes afirmam que a nomeação de Anna Cintra, mesmo legal, violou artigos do estatuto e do regimento geral da universidade, segundo os quais os funcionários e professores devem zelar pelo patrimônio moral da universidade. Os alunos lembram que Anna Cintra assumiu o compromisso durante um debate eleitoral de não aceitar a nomeação caso não fosse a mais votada. “Foi uma mentira assinada”, afirmou André Paschoa, presidente do CA 22 de Agosto. “Ela desfez um compromisso, o que configura atentado ao patrimônio moral da universidade.”

 

 

O recurso foi protocolado nesta semana. O representante da Fundação São Paulo – entidade mantenedora da PUC – pediu vistas e, como a posse da nova reitora era iminente, o conselho resolveu suspender os efeitos da lista tríplice.

 

Para o estudante de Jornalismo Stefano Wrobleski, a decisão do Consun representou uma “grande vitória” para o movimento. “O fato de ela não ter comparecido ao Consun, órgão do qual fazem parte alunos, professores e funcionários, é preocupante. Nosso receio é de que ela passe por cima de todos e assuma a reitoria.”

 

Segundo a presidente da Associação dos Professores da PUC-SP, Victória Weischtordt, a entidade apoiou o recurso dos alunos. “Apesar de ser uma vitória, não resolve o problema, que só foi adiado”, afirma. Amanhã haverá uma audiência de conciliação do sindicato com a Fundação São Paulo, que moveu recurso no Tribunal Regional do Trabalho contra a greve dos docentes – considerada “abusiva e ilegal”.

 

Em nota, a Fundação São Paulo informou que d. Odilo ainda não foi comunicado oficialmente do resultado da reunião do Consun. Disse ainda que é legítima a escolha de Anna Cintra para a reitoria. Já a assessoria do cardeal afirmou que ele estava em um retiro, incomunicável.

 

Protesto. Hoje à noite, cerca de 400 alunos realizaram uma manifestação no vão livre do Masp, na Avenida Paulista, região central. Entre os participantes da "aula pública" estava o professor de Filosofia da USP Vladimir Safatle. "A universidade é um espaço absoluto de livre pensar e é isso que está em jogo aqui. Vigilância máxima é o mínimo que podemos fazer", afirmou Safatle.

 

O deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) foi ao protesto e disse que convocaria Dirceu de Mello e d. Odilo para prestar esclarecimentos na Assembleia.

 

Depois os alunos tomaram uma faixa da avenida e desceram a Rua da Consolação até o câmpus da PUC-SP na Rua Marquês de Paranaguá. Lá, chamaram os colegas para "a luta". Em algumas salas professores aplicavam prova.

 

Segundo o estudante de Engenharia de Produção Felipe Soares do Nascimento, o movimento grevista está "certo", mas ocorre "na hora errada". "Deveriam esperar o término das aulas", afirmou. De acordo com ele, nem professores nem os alunos de seu curso aderiram à paralisação.

 

Para o aluno Diego Suzuki, caso Engenharia de Produção também aderisse à greve ele faria parte do movimento. "Acho interessante o movimento estudantil, faz tempo que não vejo nenhuma mobilização deste tamanho."

 

* Atualizada às 22h45

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