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Conquista da autonomia

Talvez tenha chegado a hora de ensinar os processos que envolvem tarefas

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 05h00

Você já assistiu ao filme Feitiço do Tempo? O protagonista, o homem do clima/tempo de um canal de televisão, vai a uma pequena cidade para fazer uma reportagem sobre uma marmota que faz a previsão do tempo, e realiza esse compromisso profissional visivelmente contrariado. O repórter é prepotente, rabugento, mal-humorado, grosseiro e sem compaixão e empatia em seus relacionamentos. Mas aí, ocorre o inesperado: ele acorda todos os dias no mesmo dia em que chegou à cidade e passa pelos mesmos fatos já vividos que o contrariaram tanto. Inicialmente, ele responde ao feitiço tornando suas características ainda mais fortes: passa de grosso a violento, rouba, mente, tenta acabar com a própria vida, mas nada lhe devolve a possibilidade de superar aquele dia. Até que ele escolhe ser melhor do que já fora naquele dia que não termina nunca. Mas, qual a relação do filme com nossas vidas na atualidade?

Para começar, a sensação de muitas mães e pais de que todo santo dia acordamos no mesmo dia. Sabemos os fatos que nos aguardam; só não sabemos como estará a dinâmica familiar com mudanças de humores de seus integrantes. Vamos pensar em como usar esses dias parecidos, mas não iguais, em favor dos mais novos? Podemos começar com a tão falada autonomia.

Para começo de conversa, não vamos confundir a capacidade de crianças e adolescentes de realizar tarefas sozinhos: isso não é autonomia. Autonomia seria, mais ou menos, a conquista da capacidade de planejar e realizar por conta própria o necessário para permitir que a vida caminhe da melhor forma possível. E como estamos todos interligados – e a pandemia nos mostrou isso – não teremos nunca autonomia completa e absoluta.

Utilizei acima a palavra conquista para que os pais não fiquem com a ideia de que eles precisam dar autonomia aos filhos. São os mais novos que precisam conquistá-la, ou seja, precisam mostrar que já são capazes de se organizar em determinadas situações e se responsabilizar por elas. Quando o filho adolescente deve ter autonomia para viajar só com colegas? Somente após cumprir, mais de uma vez, horários previamente combinados com os pais quando sair na cidade em que mora, quando se mostrar responsável com o uso – ou o não – de bebidas alcoólicas nas festas, quando aceitar a incumbência de atender ao celular sempre que os pais o chamarem. Percebem que, nesse caso, o jovem pode conquistar sua autonomia, e não ganhá-la?

Agora é uma boa hora para dar aos filhos a oportunidade de eles conquistarem autonomia em casa, não é? Principalmente porque a maioria dos pais, independentemente de classe social, sequestraram as melhores possibilidades de os filhos avançarem, na prática, nos processos de autonomia. Por quê?

Porque escolhemos fazer por eles muito daquilo que eles já poderiam – e deveriam – fazer por conta própria. Considerando o processo de desenvolvimento dos mais novos, tudo o que eles já podem fazer sozinhos e alguém faz por eles, acaba por atrapalhar seu crescimento.

Talvez tenha chegado a hora de ensinar a eles os processos que envolvem atividades ou tarefas. Tomar banho, por exemplo, é mais do que tirar a roupa e ir para debaixo do chuveiro: envolve separar a roupa que será vestida após o banho, colocar a roupa usada no local adequado para ser lavada, limpar o banheiro, colocar toalha para secar. 

Quando dou a sugestão a mães que levem o filho pra cozinha, invariavelmente escuto: “Nem pensar, deixam a cozinha muito suja.”. Mas limpar faz parte do processo de ir para a cozinha! Temos lembrado desses detalhes preciosos que mostram ao filho que realizar uma atividade agrega uma série de tarefas no conjunto? Que tal aproveitar esse feitiço do tempo em que nos vemos para investir nesses ensinamentos? 

*É PSICÓLOGA

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