Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Congresso devolve MP e faz Bolsonaro recuar de dar poder a Weintraub para nomear reitores

Decisão anula efeitos da Medida Provisória assinada pelo presidente e impede o ministro da Educação de escolher livremente reitores de universidades federais durante a pandemia de covid-19

Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2020 | 15h30

BRASÍLIA - Pela quarta vez na história, o Congresso Nacional devolveu uma medida provisória assinada pelo presidente da República. A decisão anulou os efeitos de uma MP assinada pelo presidente Jair Bolsonaro e impediu o ministro da Educação, Abraham Weintraub, de escolher livremente reitores de universidades federais durante a pandemia de covid-19.

Pressionado pela decisão do Congresso, o presidente Jair Bolsonaro recuou e revogou a medida provisória. Mas isso só depois de o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), ter assinado a devolução do texto e publicado o ato em edição extra do Diário do Congresso Nacional, o que na prática cancelou os efeitos do texto. Com a MP, Weintraub poderia impor reitores sem qualquer consulta pública ou eleição durante a pandemia.

Desde 1988, só três MPs haviam sido devolvidas pelo Legislativo, nos governos José Sarney, Lula e Dilma Rousseff.  A devolução pegou o Planalto de surpresa. A atitude fez o presidente da República ligar para o presidente do Congresso nesta sexta-feira, 12, e tentar um acordo. Alcolumbre, porém, insistiu na devolução. O Planalto minimizou a reação. No Twitter, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Jorge Oliveira, disse que Bolsonaro atendeu a uma "sugestão" do presidente do Senado ao revogar a MP.

Ao assinar a devolução, Alcolumbre não citou apenas um erro formal da MP, mas o mérito, mandando um recado político ao governo. O presidente do Congresso apontou dispositivos da Constituição que garantem "gestão democrática do ensino público e autonomia administrativa às universidades". Pelo Twitter, avisou que não deixaria tramitar propostas que violassem a Carta Magna.

A medida afetava 25% das universidades, cujos dirigentes têm mandatos que se encerram até o fim do ano. Entre as 16 instituições que seriam afetadas em 2020, estão a Universidade de Brasília (UnB) e as Federais do Rio Grande do Sul (UFRGS), de São Carlos (UFSCar) e do Paraná (UFPR). Outras duas teriam troca de dirigente em janeiro. Há 68 instituições federais de ensino superior, mas só 63 delas têm processos seletivos. As outras cinco foram criadas recentemente e estão com reitores temporários.  

O texto da MP devolvida e revogada dizia que "não haverá processo de consulta à comunidade, escolar ou acadêmica, ou formação de lista tríplice para a escolha de dirigentes das instituições federais de ensino durante o período da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente da pandemia da covid-19."

Em nota, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições de Ensino Superior (Andifes) parabenizou Alcolumbre pela decisão. "A decisão merece todo aplauso de nossas universidades e da sociedade. Com seu importante gesto, reafirmou-se o valor elevado e incondicional da autonomia da universidade pública, da ciência e, sobretudo, da democracia brasileira."

No Congresso, deputados e senadores pressionaram Alcolumbre para devolver o texto desde que foi publicado, na quarta-feira, 10. Partidos de oposição formalizaram requerimentos solicitando a devolução imediata da medida. Outros parlamentares, por outro lado, pediram que a Câmara e o Senado derrotassem a MP no voto na próxima semana, para mandar um recado mais ameno ao governo. A opção, no entanto, foi pelo recado mais duro. Da ala ideológica do governo, Weintraub é dos ministros que mais enfrenta resistências no Congresso.

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