Condições de trabalho e salário afastam docentes da sala de aula

Eles reclamam do cotidiano nas escolas; especialista concorda, mas diz que aluno da USP segue na pesquisa

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 21h00

Ana Patrícia Lacerda, de 28 anos, se formou em Letras na Universidade de São Paulo (USP) e dá aulas de Língua Portuguesa para o ensino fundamental e o médio da rede estadual. Da sua turma com 60 formandos, diz ela, só dois optaram pelo ensino básico público. “Tenho várias colegas que decidiram seguir na tradução. Elas não se animaram depois do estágio na rede pública”, diz. Colégios particulares são outro rumo preferido. 


Os principais problemas, conta Ana Patrícia, são más condições de trabalho, como indisciplina dos alunos e pouca valorização dos professores. “Na primeira semana de aula na rede pública, pensei em desistir”, lembra ela, que dá aulas em uma escola estadual em Francisco Morato, na Grande São Paulo. “Já me disseram que sou louca e deveria mudar de área.”


O interesse em se manter dentro da classe, diz ela, é pela satisfação em contribuir com o aprendizado dos alunos. Apesar dessa escolha, Ana Patrícia já prevê uma guinada na carreira. “Em dez anos, quero estar dando aula na universidade”, afirma a professora, que já faz planos de ingressar em um mestrado. Hoje, a ex-aluna da USP também dá aulas de espanhol em um colégio particular. 


Ocimar Alavarse, da Faculdade de Educação da USP, pondera que, apesar da alta empregabilidade, a carreira na rede pública apresenta os problemas apontados por Ana Patrícia. “Muitos alunos da licenciatura não querem dar aulas”, afirma Alavarse. Segundo ele, os talentos não são retidos na rede. “Salários baixos e condições de trabalhos horríveis. São muitas notícias ruins sobre educação.”


Alavarse diz também que a participação das universidades públicas na graduação de professores para o ensino básico público é limitada, principalmente por causa da recente expansão da rede particular. Para avaliar se a participação da USP na rede é grande, segundo ele, seria necessário saber qual é a porcentagem de egressos de cada turma que segue docência. 


Outra ponderação é sobre o perfil de cada instituição. As privadas costumam ter foco no ensino de graduação, que forma profissionais para a sala de aula. Já a USP, assim como outras universidades públicas, também tem atuação forte na pesquisa.

Pós-graduados têm atuação de peso


Nos currículos dos docentes das instituições de ensino superior, a Universidade de São Paulo (USP) tem presença maciça. Dos professores da Universidade Federal do ABC (UFABC), quase metade (48%) tem algum título da USP. Já na Unesp, a proporção é de 39%. Na Universidade Presbiteriana Mackenzie e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), as taxas são de 28% e 14%. 


Os números fazem parte de um levantamento da reitoria sobre egressos desde 1970. “Eles estão fazendo a diferença nessas instituições”, diz a pró-reitora de Pós-Graduação, Bernadette Gombossy de Melo Franco.

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