FELIPE RAU/ESTADÃO
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Como será o Enem?

‘Comissão de censura’ chegou a ser instalada neste ano para retirar questões ‘ofensivas’

Renata Cafardo, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2019 | 09h17

Neste ano, neste mês de outubro, completam-se dez anos da grande mudança da história do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). E, bem na efeméride, a prova volta a ser um mistério, com potencial de mudar novamente. Assim como ninguém sabia como seria o exame de 2009, quando o governo Lula fez o Enem virar um super vestibular, a dúvida surge de novo agora. Que prova a gestão de Jair Bolsonaro vai apresentar aos 5 milhões de estudantes daqui a uma semana? 

Há dez anos, para quem não se lembra, deu tudo errado. O exame foi roubado a três dias da data marcada para ser aplicado. Os criminosos tentaram vender o Enem por R$ 500 mil ao Estado, especificamente a esta colunista. Parece mentira, mas aconteceu. 

O roubo não foi mera falta de sorte. Como mostro no livro O Roubo do Enem (Editora Record), a concorrência para escolher a empresa que cuidaria de toda a logística e impressão foi feita de forma atabalhoada. Mesmo sem cumprir os requisitos mínimos para ser aprovada na licitação, uma empresa sem experiência foi a escolhida por uma razão simples: só ela participou da disputa. 

Além disso, foi criada às pressas uma sala improvisada dentro da gráfica para montar as provas, que já estavam atrasadas. Foi lá que os três funcionários furtaram o exame. Depois da revelação do vazamento do Enem pelo Estado, a prova foi cancelada e só foi aplicada alguns meses depois. 

Passada uma década, o cenário é outro. Nesse período, o Ministério da Educação (MEC) se equipou e acumulou expertise de segurança e, apesar de um caso ou outro de fraude, essa não é mais a maior preocupação. Agora, a dúvida vem do conteúdo. 

Ao longo desses anos, o Enem ficou conhecido (e elogiado) por ser uma prova que incluía sem medo temas próximos da vida do jovem, contemporâneos, criativos. O último exame, por exemplo, falou de feminismo, direitos humanos e até de um dialeto de gays e travestis. E aí despertou a ira do recém-eleito presidente Bolsonaro. 

Suas primeiras declarações davam conta de que ele leria a prova antes de ser finalizada, o que não é nada recomendado pelos especialistas em segurança. A ideia do presidente era impedir temas como a chamada “ideologia de gênero”, termo criado por aqueles que não são a favor da discussão de identidade de gênero e que, obviamente, nunca apareceu no Enem. 

A prova deste ano é daqui a uma semana e, pelo que garantem os integrantes do MEC, nem Bolsonaro nem o ministro Abraham Weintraub leram o Enem. Menos mal. 

Mas isso não impede que as declarações e o clima de polarização na educação tenham influenciado os técnicos que fazem ou escolhem as questões que irão para a prova. 

No começo do ano, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC que faz o exame, instituiu um grupo que ficou conhecido como “comissão de censura”, justamente para retirar do banco de questões as que tivessem “teor ofensivo a segmentos e grupos sociais, símbolos, tradições e costumes nacionais”. O grupo não está mais lá, mas parece que o trabalho dele foi considerado. 

Em entrevista à Folha de S. Paulo na semana passada, o atual presidente do Inep, Alexandre Lopes, avisou que “redações de esquerda” não terão nota baixa, mas que a intenção da prova deste ano é ser “neutra”. Ele é o terceiro a passar pelo cargo em dez meses. A diretoria que cuida do Enem ficou sem responsável por cinco meses. Em abril, a gráfica que imprimiria o exame faliu. A confusão foi tamanha no Inep este ano que me lembrou 2009. Para o bem dos estudantes, tomara que seja só uma impressão.

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