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Como se preparar para uma entrevista de emprego

Tudo que você precisa saber para mostrar que está bem preparado e não cometer nenhuma gafe

VIVIANE ZANDONADI- ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

22 Maio 2015 | 16h35

Em um episódio da série Friends, Rachel Green (Jennifer Aniston) chega em casa aborrecida. Ela acaba de fazer uma entrevista de emprego e acha que se deu mal. Tudo ia bem até que ao se ver diante do entrevistador, na hora de ir embora, ela lhe dá um beijo no rosto e imediatamente se dá conta que o executivo só tinha se aproximado e se inclinado ligeiramente em sua direção para poder abrir a porta para ela. Os dois ficam bem constrangidos (e aquelas risadas de sitcom explodem na tela). É fácil entender a preocupação de Rachel. Em uma entrevista de emprego, os profissionais não são avaliados apenas por suas respostas. Sua postura e comportamento estão no radar. Isso sem falar em pontualidade, coerência entre o que dizem e o que está escrito no currículo e objetividade. Também é preciso que o candidato tome cuidado com as perguntas e seu direcionamento.

No ano passado, a empresa de recrutamento Robert Half fez uma pesquisa sobre o que os candidatos costumam perguntar quando estão diante do entrevistador. A ideia era identificar questionamentos adequados e outros nem tanto. Entre a lista de questões mais improváveis, os gerentes de recursos humanos consultados revelaram coisas do tipo “Tenho que trabalhar todos os dias?”; “O que acha de sair comigo?”; “A cada três meses posso ficar fora por três semanas para cuidar da minha carreira como músico?”; “O chefe é solteiro?”. Não é preciso ser especialista para saber quem levaria a melhor se ao final de uma conversa dois candidatos fossem convidados a ficar à vontade para tirar dúvidas e um deles dissesse: “Tenho que trabalhar todos os dias?”, enquanto o outro se saísse com um “Que tipo de treinamento e programas de desenvolvimento profissional vocês oferecem?”.

Na tentativa de elencar os requisitos básicos para quem pretende chegar à entrevista tranquilo e bem preparado e a uma distância segura de gafes e constrangimentos, o Estado conversou com a headhunter Marcela Esteves, gerente de divisão da Robert Half no Brasil. Leia seus comentários.

O candidato é chamado para uma entrevista de emprego. O que ele precisa saber sobre a empresa que vai entrevista-lo?

Não faz diferença se a entrevistada é feita por um profissional de recrutamento e seleção ou já direto na empresa em que está pleiteando a vaga, a ideia é que no mínimo o candidato se prepare entrando no site da empresa e fazendo uma análise, levantando informações. Também é interessante procurar algum conhecido para o qual possa fazer perguntas a respeito da empresa. Nem sempre é viável, porque muitas vezes essas entrevistas são marcadas de um dia para o outro. Vale tentar se houver tempo hábil. Outras formas de pesquisar são o LinkedIn e o Google. É sempre bom jogar o nome da empresa no Google e ver o que aparece. Muitas vezes existe alguma informação relevante, que está na mídia e no mercado e todo mundo sabe. Não dá para aquela pessoa chegar na entrevista, o tema ser comentado e ela não saber o que está acontecendo. Por fim, se souber com antecedência o nome do entrevistador, é recomendável pesquisar usando as mesmas fontes da coleta informações sobre a empresa.

Além das informações sobre recrutador e companhia, qual a lista fundamental de cuidados para essa entrevista?

1) É importante se planejar para não perder a hora e para se familiarizar com o trajeto. Dependendo de onde for a entrevista, se muito longe, um endereço desconhecido, vale ir até lá antes, com tempo, para conhecer o caminho, avaliar as distâncias e ver se tem estacionamento.

2) No dia da entrevista o ideal é bloquear a agenda para chegar uns quinze minutos antes da hora marcada e ter tempo de desacelerar, beber água, respirar, se centrar um pouco mais.

3)  Pode acontecer de a entrevista se estender mais do que o planejado, então é recomendado ter uma janela de pelo menos duas horas, para quem sabe ser ouvido por outro entrevistador ou prolongar a conversa. Em geral isso acontece porque os recrutadores realmente gostam de você e é uma boa oportunidade.

4) Vestir-se adequadamente (de preferência identificar antes o código de vestuário da empresa), cuidar unhas. Evitar decotes, acessórios e perfumes exagerados.

5) Desligar o celular.

6) Ler o currículo antes da entrevista e levar uma ou duas cópias por precaução. Elas serão úteis se precisar consultar alguma informação de sua trajetória ou até para oferecer em sinal de cortesia ao entrevistador, se por alguma razão ele o tiver esquecido.

Quando e como uso essa informação na hora da entrevista?

Alguns entrevistadores serão diretos e perguntarão o que a pessoa sabe sobre a empresa. Esse é o momento de expor de um modo sucinto o que se sabe. Se essa pergunta não vier, durante a conversa a pessoa pode se colocar de maneira bem objetiva e com bom senso para demonstrar esse conhecimento e um interesse genuíno pela oportunidade, sem excessos. Ainda que uma das informações que ela detenha sobre a marca seja negativa, um posicionamento positivo, de oferecer solução, tende a ser favorável.

É ruim negociar o horário da entrevista?

Depende. Como headhunter, geralmente é mais fácil. Ele está ali também para representar aquele profissional. Ele precisa entender o lado do candidato. Claro que isso deve ser feito com muita parcimônia. Não dá para remarcar várias vezes, nunca poder. Propor alternativas de horário não é o problema. O problema é: você chegou à última etapa de um processo e o presidente da empresa que nunca está no Brasil tem uma janela durante três horas no dia X. Só é possível encontrar com ele naquele horário. Isso precisa ser exposto ao candidato que, se realmente não puder, talvez fique fora do processo.

Sou extremamente tímido e tenho receio de ser surpreendido por um teste prático ou uma dinâmica. Se o recrutador não me informar sobre isso com antecedência, posso perguntar se vai acontecer? Qual a melhor forma de me preparar?

Não tem problema nenhum perguntar. Até por respeito ao candidato é interessante descrever todo o processo e se não for feito isso, ele pode perguntar. Assim como a empresa tem que ter interesse nele, ele tem de ter interesse pela empresa, a vaga e o processo. Dependendo da quantidade de etapas é importante explicar com antecedência, para que ela possa se programar. Supondo que o candidato tenha uma viagem marcada para daqui a um mês e o processo será extenso, terá sete etapas, e a viagem é um conflito nesse calendário. Se for conversado antes ele tem a opção de mudar a viagem ou de desistir da vaga.

Que tipo de pergunta devo fazer, considerando que serei avaliado também por minha postura e iniciativa não só ao responder, mas ao perguntar?

Em geral, é sempre interessante perguntar:

1) quais são as perspectivas da vaga e da empresa, porque realmente ele precisa formar a convicção de seu interesse em ambos;

2) qual é o momento da área dentro da empresa, porque às vezes a companhia está muito bem, mas a área passa por dificuldade ou reestruturação, o candidato precisa saber a real situação;

3) o que a empresa espera do profissional no curto e no médio prazo;

4) quais os desafios de curto e médio prazo;

5) qual é o clima da empresa e da área.

De todo modo, as perguntas sempre vão depender um pouco de com quem está sendo feita a entrevista. É com o RH, com o requisitante da vaga, o presidente? Depende muito do interlocutor. Para o presidente, por exemplo, são feitas perguntas mais estratégicas do que se para o RH, do tipo como ele vê a empresa nos próximos cinco anos e como o candidato pode contribuir para a missão da companhia. Para o requisitante, no entanto, as questões podem ser um pouco mais técnicas. O RH será indagado sobre as etapas do processo, o clima e o perfil das pessoas.

O que evitar?

Depende da etapa do processo, da posição pretendida e do interlocutor. Talvez não seja errado, se estiver na última etapa de um processo com o RH, por exemplo, perguntar sobre horário de trabalho e benefícios. Mas na primeira etapa e com o requisitante da vaga, pode soar precipitado, em especial se estiver pleiteando uma posição de diretoria – e provavelmente as mesmas questões não seriam tão precipitadas a essa altura para alguém que pretende entrar no cargo de analista. São muitas variáveis.

Às vezes, para uma vaga em uma empresa de TI um pouco mais jovem e informal em que as pessoas se vestem de calça jeans e tem gente passando de patinete atrás da recepção, não há o menor constrangimento de comentar sobre a bonita vista da sala de entrevistas ou ter um ou outro momento de descontração ao longo da conversa. Já num banco internacional ou grande multinacional europeia um pouco mais tradicional essa descontração pode não ser tão pertinente. Na verdade, o comentário específico sobre a vista, como quebra-gelo, não vejo problema nenhum, agora falar de coisas mais pessoais, não há necessidade.

O ideal é sentir o clima, fazer um raio-x, sentir se é mais ou menos informal, desde a recepção. Observar. Ou, ainda melhor, obter essas informações previamente, como comentamos no início, durante o levantamento preliminar sobre a empresa.

Quais são os comportamentos que incomodam um recrutador na hora da entrevista e tendem a impactar negativamente a avaliação do candidato?

Talvez o que incomode todo mundo, não só o recrutador. Falta de pontualidade, falta de objetividade, ou divagar durante as respostas e não responder o que é perguntado, faltar com a transparência. São coisas que incomodam em qualquer relação interpessoal, independentemente de ser headhunter e entrevistado, entrevistado e headhunter. Para uma entrevista de emprego não dá para não ter pontualidade, não dá para você faltar com a verdade. Tem gente que não aparece na entrevista, deixa o headhunter esperando e liga no dia seguinte, ou omite informações no currículo e coloca outras que não existem. Isso tudo uma hora vai aparecer. Coisas assim não são toleráveis. Claro, se atrasar dez minutos por causa de um imprevisto e avisar, justificar, está ok. Por outro lado, mentir na cara dura, como  responder que o inglês é ótimo e se esquivar na hora de conversar com o entrevistador nesse idioma, é falta de transparência. Talvez o inglês intermediário seja suficiente para a vaga, mas se ele diz que é fluente e na entrevista não o comprova, se compromete, porque eleva a expectativa do entrevistador. Tem de falar a verdade. E não adianta também mentir o salário, porque ao ser contratado sua carteira de trabalho vai mostrar que não era assim e a empresa tem até o direito de não contratar a pessoa alegando que ela mentiu.

Gestos, expressões, tom de voz, entusiasmo para falar. Também sou avaliado por isso?

É relativo. Pode ser que falar efusivamente com as mãos incomode bem menos em uma empresa italiana do que em alguma outra, talvez, japonesa. A chave está em pesquisar a cultura. Precisa se identificar com aquilo, se ajustar. Não tem certo e errado. Nessa hora, se a pessoa quer trabalhar na empresa, tem de se abrir e se ajustar.

Fui demitido ou me demiti no último emprego. Qual é a melhor forma de explicar o que aconteceu?

A verdade. As referências profissionais muitas vezes acabam colocando em xeque a confiança que se pode ter no candidato, se ele faltar com a verdade. Na hora de conferir as referências, a primeira pergunta que o recrutador faz ao antigo empregador é: por que ele saiu? Por que foi demitido, por que se demitiu? A relação tem de ser de confiança. Nessa hora, portanto, é fundamental ser humilde, sincero e verdadeiro. Falar a verdade, porque muitas vezes é essa demonstração de transparência que o recrutador quer identificar. Você pode imaginar que é um tiro no pé, mas na verdade dar a resposta sincera agrada.

Estou desempregado há muito tempo. Como lidar com isso durante a entrevista, preciso me justificar?

Nessa hora, também, a sinceridade é tudo. Às vezes a pessoa está desempregada há um ano por causa de um sabático, um intercâmbio, acabou de ter filho e quis ampliar o tempo de licença investindo em mais alguns meses e saiu da empresa. Ou realmente não encontra emprego, está com dificuldade.

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