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Como o temperamento interfere em sua carreira?

Especialista fala da importância do autoconhecimento para tomar as decisões certas na vida profissional

VIVIANE ZANDONADI- ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

22 Maio 2015 | 22h27

O que leva um indivíduo a executar bem, durante anos a fio,um trabalho do qual no fundo ele não gosta nem um pouco? Por que uma pessoase sente confinada e infeliz ao atuar no mundo corporativo enquanto outra fazquestão de que tudo ali funcione na mais perfeita ordem e experimenta nisso umsentimento de realização pessoal? Por que um médico prefere dar expediente noconsultório e outro no campo, atendendo vítimas de emergências?

Na tentativa deentender essas distinções, a jornalista, pedagoga e consultora de carreiraMaria de Luz Calegari escreveu há alguns anos o livro Temperamento e Carreira (Summus Editorial), em parceria com oconsultor Orlando H. Gemignani. Orientadora vocacional, Maria da Luz  defende, no livro e no trabalho, que osucesso e a satisfação profissionais estão ligados ao temperamento das pessoase ao modo como esse temperamento interfere em suas decisões e determina suasações. “Me interessei em pesquisar e escrever sobre temperamentos, porquedescobri que eles determinam nossa forma de ser e de estar no mundo.”

Na prática, fazer um teste vocacional que permitaidentificar qual dos quatro temperamentos universais (artesão, guardião,idealista e racional) predomina na personalidade da pessoa e encontrar asatividades com as quais se tem mais afinidade, pode ajudar a ser mais feliz notrabalho. Não se trata nesse caso do conceito de temperamento popular, que emgeral se refere ao gênio e ao humor, mas sim do temperamento estudado napsicologia. “Nas últimas décadas as teorias do ponto de vista psicológico avançarambastante em virtude de contribuições da neurociência”, diz.

Maria da Luz já criou e aplicou inúmeros testes deorientação baseados na teoria dos temperamentos. Segundo ela, um bom ponto departida é essa avaliação online compostade treze questões bastante simples,e publicada no site do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee). “Adultos eadolescentes se acham nas respostas.”

Na entrevista a seguir, Maria da Luz descreve os perfisprofissionais que costumam ser associados a cada um dos quatro temperamentosuniversais. Entenda, por exemplo, porque os artesãos são tipos de espíritolivre e tendem a sentir-se frustrados em ambientes corporativos.

Como o temperamentoajuda a direcionar a carreira de quem está prestes a escolher uma profissão, oumesmo um profissional em dúvida diante da própria trajetória?

Acredito que temos um temperamento que é inato e que essetemperamento é determinante para as áreas que seremos vocacionados. Certa vez, deiorientação para uma pessoa cujo teste vocacional apontou para ela como carreiraprincipal relações públicas. Ela preferia ser atriz. Expliquei que não haviaconflito, porque os talentos e inteligências requeridos para as duas profissõessão praticamente os mesmos. Sendo atriz, porém, ela não teria a segurança e aestabilidade da carreira de relações públicas numa grande empresa. Férias,décimo terceiro, plano de saúde, vale-refeição. O que você valoriza mais, perguntei.Estabilidade, segurança? Novidade, surpresa, imprevistos? Há pessoas que gostamde viver, digamos, de uma forma não tão estável, porque a estabilidade requerque se adaptem a regras e regulamentos e elas gostam de ter agenda livre eadministrar o próprio tempo. Elas não são feitas para trabalhar no mundocorporativo, regrado e estruturado. Ou seja, a vocação é um chamamentointerior. Em primeiro lugar, a pessoa tem de se perguntar em que carreira seráfeliz, trabalhará empolgada e entusiasmada e não só na expectativa de umcontracheque. Se o indivíduo está mais propício à estabilidade material, ascarreiras mais soltas, ligadas à arte, talvez não sejam para ele. Por isso éimportante conhecer o temperamento, as características de personalidade e osinteresses que falam mais alto.

Quais são os chamadosquatro temperamentos universais de que trata seu livro?

São quatro temperamentos, quatro grupos:

1) O primeiro é o temperamento artesão, que noteste do site do Ciee está identificado como hedonista, mas acredito queartesão é um termo mais apropriado. Mais de 40% dos brasileiros estão nessegrupo. Os artesãos são pessoas de ofício, técnicas e empreendedoras,principalmente em áreas concretas e relacionadas com tato, olfato, paladar,audição, prazer e lazer, a exemplo de comida, bebida e perfumes. São pessoaseminentemente sensoriais. A maior parte dos cantores e músicos faz parte dessegrupo. É até um pecado esse grupo ir para a faculdade e ter de engolir tantateoria. Pouca teoria para eles já resolve, porque são pessoas de ofício, artesplásticas, dramáticas, visuais. Os artesãos têm muito traquejo para falar,convencer e negociar. A inteligência linguística deles é notável. Eles gostamde holofotes, palcos, são artistas e gostam de se reinventar. Estão sempre se recriando.Há muitos médicos entre os artesãos. Médicos que querem agir de imediato, comoos socorristas, e os ligados à questão da estética, como cirurgiões plásticos.Eles gostam de agir imediatamente. Eles não seriam, por exemplo, médicos deconsultório.

2) O segundo é o temperamento guardião, um grupoque valoriza muito status social, posses materiais, cargos e comando. Sãoadministradores e gestores por excelência, os favoritos do mundo corporativo ecorrespondem a mais ou menos 35% da população. Mas em qualquer empresa seaplicarmos o teste pelo menos 60% dos cargos executivos são preenchidos poreles. São responsáveis, trabalham muito, levantam cedo, sempre obedecem aosregulamentos, normas e missão da empresa. São extremamente comprometidos. Sãobons administradores, mas também podem ser bons em algumas áreas da engenharia,do direito e do ensino, principalmente o ensino técnico. São essencialmenteadministradores. Eles tomam conta do departamento de engenharia, financeiro,jurídico. Têm vocação para o comando. Aqui encontram-se também os profissionaisvoltados para a saúde do corpo, de populações ou individualmente. Há muitosmédicos de consultório e de saúde pública entre os guardiões, a exemplo deinfectologistas e que atuam na área de vacinas.

3) O terceiro grupo é o idealista, comprador decausas. É o que mais se preocupa com o bem-estar e o desenvolvimento daspessoas e os problemas de saúde mental e psicológica. Terapeutas ortodoxos oualternativos, eles querem curar as pessoas de seus problemas e dilemas. Osidealistas são bons orientadores vocacionais e educacionais. São ótimospedagogos, antropólogos, sociólogos. Estão focados nas necessidades, napromoção e no desenvolvimento do ser humano. Há entre os idealistas grandesescritores, não só da língua portuguesa, mas ingleses, franceses, russos...Eles são intuitivos e sentimentais. Sua inteligência emocional é muitodesenvolvida, então conseguem captar e intuir sentimentos. Por isso são tãobons principalmente para escrever romance e poesia. Os idealistas saem pelomundo buscando causas para defender, sejam elas políticas, sejam de direitoshumanos. Enquanto a Cruz Vermelha é uma instituição guardiã, porque se preocupacom a saúde do corpo e está presente nas guerras e conflagrações mundiais, oidealista está na ONU, que quer evitar o conflito ou defender a independênciade um país. Você tem nesse grupo Malala, que quer que as meninas tenham direitoà educação, Nelson Mandela e Martin Luther King e vários advogados de causahumanitária. É um grupo pequeno, 15% da população.

4) Racionais. Esse é o grupo mais raro. É opensador intuitivo. É o pessoal que vai para ciência, pesquisa científica,grandes laboratórios farmacêuticos, física, química e matemática. Ou então sãograndes estrategistas militares, CEOs de empresas. Normalmente eles estão nosconselhos de administração. Conseguem projetar o futuro, percebem quanto têm defazer alterações em projetos da empresa, antecipam o momento em que um produtose tornará obsoleto, o que fazer para renová-lo, ou que produtos o mercado vaiprecisar e pode lançar para nos adiantar frente à concorrência. Sãoestrategistas de negócios e também os homens de ciência. Todas as áreas deengenharia, TI, todas as ciências têm pesquisadores racionais. É o menor grupoda população. Fiz uma pesquisa representativa com 0,5% da população domunicípio de Paulínia, em São Paulo. Era uma amostra bastante estratificada.Homens e mulheres de 17 a 78 anos. Havia desde diretores de grandes empresas,do polo petroquímico da região, e doutores de universidades, até analfabetos.Faxineiros, cozinheiros etc. também participaram. Achei, ali, 40% de artesãos,39% de guardiães, 15% de idealistas e 6% de racionais. Isso não é de estranhar.Nos Estados Unidos e na Europa, os racionais nunca chegam a 10%.

O que acontece quandoum teste ou nossa investigação pessoal nos coloca em mais de um desses gruposde temperamentos?

Depois de identificar os temperamentos, a pessoa tem de saira campo para descobrir. Tem de se perguntar do que eu gosto? O que eu vouprecisar ter para seguir essa profissão? Precisa conversar com profissionais daárea e procurar saber, na escola que pretende frequentar, qual é o currículo docurso e ver se gosta e tem condição de segui-lo. Vai peneirando até chegar emduas ou três profissões e escolher.

Essa investigação detemperamentos é recomendada para quem está se preparando para a faculdade, mastambém para quem está insatisfeito com a atual profissão?

Sim. Já encontrei um estudante de engenharia, por exemplo,que usava raciocínio lógico muito bem e era bom com números. Foi fazerengenharia, porque o pai era engenheiro e queria agradar a família, mas quandochegou na faculdade ficou abobado quando viu o currículo e a carga horária dadisciplina e tudo o que ele não sabia. Esse rapaz, para o qual dei orientaçãovocacional, era bom com números, mas não gostava de matemática. Quandoapresentei as alternativas que ele tinha, ele vibrou com a área de comunicação,especificamente a comunicação radiofônica. Radialista. Ele era um artesão, tinhao perfil de comunicador. A engenharia exige não só que você seja bom comnúmeros. Entre as inteligências que ela requer, está a espacial, que nem todasas pessoas têm. Às vezes, uma inteligência pode levar à falsa conclusão de que apessoa é vocacionada para uma determinada área.

Em uma mesma carreirahá profissionais de diferentes temperamentos?

Sim. O fato de uma pessoa escrever bem, por exemplo, nãoquer dizer que ela deva ir para o jornalismo. O jornalismo exige outrascaracterísticas, além de escrever bem. Fico imaginando o repórter de televisão,que é chamado para falar ao vivo. Ele tem de ter uma inteligência linguísticanotável, mas também um jogo de cintura muito grande. Uma pessoa idealista podeser jornalista, sim. Eu sou idealista e a maior parte do tempo fui jornalista, sóque de revistas especializadas com foco educacional, que sempre me interessou.Meu interesse era levar conhecimento de ponta para essas pessoas e eu tinha ummês para fazer a revista. Não tinha essa pressão do jornalismo cotidiano. Derepente, se a inteligência maior for a inteligência linguística, a pessoa pode serescritora. Pode reparar que grandes escritores foram também jornalistas. Oartesão se dá muito bem no jornalismo diário.

No jornalismo de aprofundamento,você pode ter qualquer um dos três temperamentos, o guardião, o idealista ou oracional. O racional pode escrever sobre tecnologia da informação, um idealistapode comentar a guerra de um ponto de vista humanista, de defesa dos direitoshumanos. Um racional vai analisar a economia ou a crise hídrica no sentidomacro, num âmbito maior. Um guardião vai analisar a economia ou a crise hídricaatual de um ponto de vista concreto, como a falta de água afeta a vida noshospitais? É concreto e factual. O racional é pensador intuitivo. O guardião éum pensador sensorial, sempre focado no concreto, no que está à vista, ele nãoformula hipóteses, ele não vai para a teoria, ele está sempre preso no que émensurável, quantificável. Mas aí já estou entrando muito da questão teórica.

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