DANIEL TEIXEIRA / ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA / ESTADÃO

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Todo final de dia, um grupo de crianças com idades a partir dos 3 anos se reúne na escola para falar de coisa séria: seus sentimentos. É a chamada Roda do Coração, momento em que os pequenos têm a oportunidade de relatar acontecimentos que “deixaram o coração feliz ou triste”. Com a troca de experiências, eles são estimulados a se colocar no lugar do outro e a entender as atitudes de cada um.

A iniciativa, realizada pelo Colégio Santa Maria, na zona sul de São Paulo, endossa uma proposta que ganha cada vez mais força entre educadores e psicólogos: a empatia pode, sim, ser ensinada e esse aprendizado será mais efetivo se começar nos primeiros anos de vida.

Segundo especialistas, a habilidade de se colocar no lugar do outro não é uma característica individual que depende apenas de fatores genéticos – ao contrário, os fatores ambientais têm influência maior.

“Desde o nascimento, a gente consegue observar comportamentos que seriam uma espécie de precursores da empatia, como o choro reativo de um bebê ao ouvir outra criança chorando. Essa situação demonstra uma capacidade de perceber o outro. Mas é a partir do primeiro ou segundo ano de vida que os fatores ambientais, como a interação com os pais, começam a preponderar no desenvolvimento da empatia”, explica Christian Kristensen, professor do programa de pós-graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Se a maioria dos adultos nem lembra as experiências dos primeiros anos de vida, afinal, por que essa é uma das fases mais importantes do desenvolvimento emocional? É na primeira infância, período entre os 0 e 6 anos, que o nosso cérebro passa pelo maior número de conexões neuronais (sinapses), criando uma janela de oportunidade para o aprendizado.

“Do ponto de vista neurológico, tudo que você não vai ativando com estímulos, você vai perdendo conexões”, explica Maria Beatriz Linhares, psicóloga e professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Em outras palavras, se a área do cérebro responsável por habilidades emocionais como a empatia não é devidamente estimulada na infância, fica mais difícil desenvolvê-la depois, na idade adulta.

“Até os 3 anos, temos um alicerce importante no desenvolvimento de várias áreas, inclusive a afetiva. E os estímulos que a criança recebe do ambiente fazem uma grande diferença”, diz a psicóloga.

Atitudes prejudiciais. Comportamentos parentais muito autoritários ou permissivos são igualmente prejudiciais no desenvolvimento da empatia. “A atitude autoritária, na qual as regras são colocadas de forma impositiva, é um exemplo em que os pais desconsideram os sentimentos da criança. Já os pais muito permissivos fazem a criança não enxergar as situações sob a perspectiva dos outros”, diz Kristensen. “O ideal é um comportamento no qual os pais impõem regras, mas explicando o porquê delas.”

É por isso que o primeiro passo no desenvolvimento da empatia é o de compreender sentimentos. “Quando as crianças chegam, com 3 anos, com pouca vivência fora do ambiente familiar, percebemos que elas veem as coisas sob uma perspectiva individualista. Depois que passam a integrar a Roda do Coração, elas aprendem a perceber o outro e as diferentes realidades, a esperar sua vez de falar, a dividir espaços e a ajudar o amigo”, conta Karine Ramos, orientadora pedagógica do Colégio Santa Maria. A literatura infantil também é pilar importante no desenvolvimento dessas habilidades. “A leitura de histórias e a identificação com personagens dão o caldo imaginário necessário para a criança se reconhecer e se colocar no lugar do outro”, completa Karine.

Na prática. Mãe de Rafaela, de 5 anos, e de Pedro, de 3, a administradora Deborah Barcia Kiçula, de 33 anos, lê para os filhos desde que eles tinham 1 ano. “Tenho certeza que há situações que eles absorvem melhor por meio da literatura por causa das ilustrações e das associações que fazem. A literatura te dá a possibilidade de mostrar diversidade”, diz. Deborah tenta também fugir de comportamentos impositivos ou muito permissivos. “A gente também fala ‘não’, mas tentando explicar as razões, estabelecendo uma boa comunicação, mostrando que é possível conversar, expor os sentimentos.”

PARA DESENVOLVER A HABILIDADE

Comportamento - A forma com que os pais interagem com a criança deve priorizar o diálogo, a explicação das regras e de como elas são importantes para o bem comum. Os cuidadores devem ter autoridade, mas sem assumir uma postura autoritária. Um comportamento impositivo por parte dos pais faz com que a perspectiva da criança não seja considerada e que ela reproduza esse padrão comportamental – sem empatia – nas relações. Pais permissivos, por outro lado, são vistos como inconsistentes pelos filhos, que, diante de regras muito flexíveis, enxergam apenas seus próprios desejos e necessidades.

Socialização - O contato com diferentes pessoas, além dos integrantes do núcleo familiar, é importante para que a criança conheça novos cenários, comportamentos e regras. A educação infantil, portanto, tem uma importância muito maior para o desenvolvimento da criança do que apenas o cuidado e a proteção que ela oferece no período de trabalho dos pais.

Conflitos - Em uma briga com o irmão, um colega ou os próprios pais, os responsáveis devem evitar ameaças e punições para convencer a criança a não repetir a ação. Esse argumento faz a criança olhar ainda mais para si. Explique as consequências que o ato teve na outra pessoa e por que ele não deve ser repetido. Quando a criança bate em um colega, por exemplo, os pais podem explicar que a agressão deixou o colega triste, o machucou e que eles poderão deixar de ser amigos por causa desse comportamento.

Soluções - Além de tentar fazer a criança se colocar no lugar do outro e explicar as consequências dos atos, é necessário apresentar alternativas àquela ação. No exemplo de uma agressão ao colega por um brinquedo, os pais não devem só dizer que não é permitido bater. Devem também falar que é possível perguntar ao amigo se eles podem brincar juntos.

Literatura - Contar histórias para as crianças, mesmo as muito pequenas, é dar a elas a oportunidade de vivenciar situações inéditas, se colocar no lugar dos personagens, entender diferenças e conhecer novas formas de resolução de conflitos que poderão ser reproduzidas em situações reais.

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Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Um projeto de leitura de histórias para crianças foi capaz de aumentar a preocupação empática e a generosidade entre os ouvintes, de acordo com um estudo desenvolvido em parceria entre as Universidades de Chicago, nos Estados Unidos, e de Hashemite, na Jordânia.

O trabalho, iniciado em 2006 no país árabe, começou com um grupo de adultos voluntários que reunia as crianças de bairros da cidade de Amã para sessões de contação de histórias. Batizado de We Love Reading (Nós Amamos Ler, na tradução para o português), o projeto é realizado hoje em 30 países, até mesmo em acampamentos para refugiados. 

“Percebemos que quando crianças leem ou ouvem histórias sobre outras culturas, elas entendem a perspectiva do outro e compreendem porque eles fazem o que fazem. Então, mesmo quando não concordam, elas aprendem a respeitar”, diz Rana Dajani, fundadora do projeto e colaboradora do estudo.

Com a expansão, o We Love Reading tem editado livros próprios sobre temas como discriminação, meio ambiente e solidariedade. 

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Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Enquanto alguns pais se preocupam desde cedo com qual escola escolher para dar ao filho as melhores condições para uma futura carreira de sucesso, a arquiteta Lísea Thomé Kásper, de 37 anos, optou por priorizar o desenvolvimento social e emocional da filha Sofia, de 5 anos. “Queria uma escola que rompesse um pouco com os padrões tradicionais, em que ela aprendesse desde cedo a conviver, a aceitar as diferenças e a desenvolver um senso crítico próprio, sem imposições”, conta a mãe.

Na escola onde a menina estuda, na zona oeste da capital paulista, a inclusão é um dos principais pilares. “Ela tem colegas de diferentes histórias, raças e estruturas familiares. Ao mesmo tempo em que a gente usa esse contexto para trabalhar diariamente a compreensão das diferenças, esse ambiente também é importante para ela se sentir aceita com as próprias diferenças”, afirma Lísea.

Nos momentos de conflito na escola e em casa, Sofia sempre é ensinada a tentar entender o lado do outro para conseguir resolver o problema. “Havia uma coleguinha com deficiência que sempre mordia a Sofia. A gente tentava mostrar que ela tinha de ter mais paciência e não revidar. Era importante que ela aprendesse a lidar normalmente com as diferenças, mas que, ao mesmo tempo, visse as situações em que era preciso se colocar no lugar da colega e entender as motivações e o jeito do outro”, diz a mãe.

Caminho certo. O raciocínio de Lísea é apoiado por especialistas. “Se em uma situação de conflito os pais estimulam a criança a revidar com igual egoísmo ou agressividade, ela vai ficar ainda mais autocentrada e terá cada vez mais dificuldades de desenvolver empatia”, diz Christian Kristensen, professor do programa de pós graduação em Psicologia da PUC-RS.

Segundo Lísea, o diálogo com a criança e a apresentação das diferenças também têm ajudado Sofia a lidar com situações de bullying, em que é provocada por colegas. “A criança começa a entender os próprios sentimentos e as motivações dos outros e fica mais autônoma. Às vezes é necessário intervir, mas a gente sabe que não pode fazer tudo pelos filhos. Então é importante que eles encontrem suas próprias formas de lidar com as situações que aparecem. Isso dá mais confiança a eles.”

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