Como a educação virou o que virou

Milhares foram às ruas para protestar contra os cortes, mas a insatisfação vem muito da ligação entre ensino e ideologia. A área acabou sendo o símbolo da polarização no País e levando a questionamentos sobre a governabilidade de Bolsonaro

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2019 | 18h08

Caro leitor,

Você deve estar surpreso pelo fato de a educação estar tão falada nesses últimos tempos. Afinal, apesar de sempre repetirmos quão importante é a área, nunca demos a devida atenção às escolas, como fizeram muitos países hoje tido como exemplos. O resultado foi que aparecemos constantemente entre os piores em rankings de aprendizado internacionais.

Mas o fato de nossas crianças não saberem ler aos 14 anos nunca levou milhares às ruas, como aconteceu recentemente.

Como disse nesta análise, o que acabou unindo reitores e alunos de universidades federais (normalmente em lados opostos) e ainda pais e professores de escolas particulares, em protestos imensos, foi mais do que apenas os cortes na educação. Sim, o contingenciamento, como gosta de frisar o governo de Jair Bolsonaro, numa área que deveria ser vista como prioridade causou revolta. Mas a questão maior é que a educação se tornou o grande símbolo da polarização no País.

Isso começou já durante as eleições, quando Bolsonaro deixava claro que sua preocupação na educação era uma suposta doutrinação dos professores e as discussões sobre gênero nas escolas, como bem relatou esse editorial do Estadão. O problema foi que a vitória nas urnas não levou o novo presidente e sua equipe a pensar em políticas educacionais para melhorar a aprendizagem das crianças.

O primeiro ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, foi escolhido justamente por compartilhar a pauta ideológica. Com uma sucessão de declarações e atos polêmicos, ficou marcado por ter enviado carta às escolas pedindo que crianças repetissem o slogan da campanha de Bolsonaro depois de cantar o Hino Nacional, como o Estadão revelou. Depois de brigas sucessivas entre olavistas, técnicos e militares, Vélez acabou caindo.

O novo ministro, Abraham Weintraub, ajudou a separar os extremos. Em entrevista ao Estadão, disse que cortaria verbas de três universidades federais que promoviam “balbúrdia”.   

Pronto. Era o que faltava para quem estava cansado de ouvir o governo misturar educação e ideologia ­– e não apresentar qualquer projeto para melhorar a área no País. Os cortes vieram, tanto no ensino superior quanto no básico, e a população foi às ruas, como foi contado neste podcast. E ainda ouviu do presidente que estavam lá por serem “idiotas”.

Não tinha como colocar mais fogo nessa briga. Como mostrou o BR18, a maioria da populaçao aprovou os protestos. Poucos dias depois, o próprio presidente divulgou texto citando um País “ingovernável”. O futuro do governo Bolsonaro passou a ser questionado. O País, finalmente, foi chacoalhado pela educação.

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