FILIPE ARAUJO/ESTADÃO
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'Como a base prevê também aprendizagem por série (idade), o problema permanece'

Como as escolas definem o que ensinar? Os conteúdos são distribuídos de acordo com o que aparece nos livros

Sonia Barreira*, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2018 | 07h30

É falsa a ideia de que os resultados fracos do ensino médio se devem apenas aos problemas desta etapa, e isso é evidente para quem atua em instituição escolar. Olhando os números da avaliação da educação básica (Saeb) divulgados em 30 de agosto, aparentemente o fundamental melhorou e o médio piorou.

Os programas estão organizados por série, ou seja, a cada idade corresponde um programa curricular. Teoricamente há progressão nessas propostas, garantindo que os alunos tenham acesso a conteúdos mais complexos a cada ano. No entanto, não há propriamente um uso das ciências de base que ajudem a definir o que cada etapa do desenvolvimento cognitivo pode elaborar e aprender.

Então como as escolas definem o que ensinar? Ainda hoje, os conteúdos são distribuídos de acordo com o que aparece nos livros didáticos. Mas como as editoras distribuem os conteúdos nos livros? O fizeram de acordo com a tradição escolar. E de onde vem essa tradição? Não se sabe. Os sistemas de ensino, nascidos mais tarde, também seguiram a lógica definida pelos livros, com pequenas alterações. É claro que as escolas fizeram ajustes, mas são raros. Vale ressaltar que alguns livros didáticos se modernizaram após os Parâmetros Curriculares Nacionais (1998), mas não alteraram substancialmente a sequência dos conteúdos pelas séries.

Hoje, há iniciativas para sanar esse problema por meio da Base Nacional Comum Curricular. Aparentemente, isso seria um dos maiores empecilhos para uma educação de qualidade no País. Associados a essas mudanças, prometem-se novos programas de formação de professores, novas maneiras de praticar as avaliações nacionais e mudanças nos vestibulares! Ainda que tudo dê certo e funcione perfeitamente (difícil de acreditar), o fato de a base estar também organizada por expectativas de aprendizagem por série (idade) faz com que um problema permaneça. 

Na prática, essas definições não estão diretamente vinculadas à capacidade dos alunos aprenderem, isto é, não seguem a “lógica da aprendizagem”. Essas definições foram realizadas tendo por critério a lógica dos conteúdos. Nem sempre essas lógicas estão sintonizadas. Há assim uma organização dos conteúdos que nem sempre facilita a aprendizagem, ao contrário, muitas vezes são responsáveis pelo surgimento de obstáculos cognitivos que impedem a compreensão dos aprendizes.

Por outro lado, os alunos, singulares e distintos uns dos outros, vêm de experiências igualmente distintas e chegam à escola com maior ou menor capacidade de aprender certos conteúdos. Não é apenas porque o professor não sabe ensinar que o aluno não aprende, às vezes, lhe faltam conhecimentos ou experiências anteriores que facilitariam seu processo. Mas as escolas estão organizadas para o ensino padronizado. Se na 4.ª série ensinam-se frações, é quando o aluno precisa aprender. Se não aprende, o único mecanismo que a instituição tem é a reprovação. Refazer um ano e ter novamente contato com as noções que envolvem as frações não torna o aluno apto a aprender, porque começa o mesmo processo, sem os conceitos ou as experiências necessárias.

Se o aluno não é reprovado, segue para o ano seguinte para aprender um novo conteúdo, sem que ninguém mais vá dedicar-se a ensinar-lhe frações já que está na hora de aprender novo conteúdo. E, então, ele prossegue na vida escolar sem saber um conteúdo que envolve conceitos determinantes para que possa compreender os que vêm pela frente. Quando chega ao ensino médio e vai para a avaliação nacional, fracassa não porque seu professor não sabia ensinar, mas porque o sistema prescreve aprendizagens específicas num dado tempo e momento e não prevê mecanismos eficientes para os que não seguem a par e passo com os demais. Infelizmente não se trata da minoria e, por essa razão, ao avaliarmos o médio, concluímos que o problema está situado apenas nessa etapa.

Evidentemente não negamos que o ensino médio tem sérios problemas e necessita mudanças, assim como é preciso valorizar a profissão docente. Mas, enquanto a instituição escolar não romper com a lógica do tempo igual para todos aprenderem o mesmo e se organizar para o atendimento à diversidade, continuaremos produzindo o fracasso da escola desde as séries iniciais!

*É diretora-geral da Escola da Vila

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