Werther Santana / Estadão
Estudantes do 3.º ano do ensino médio tiveram as piores notas em Matemática na série histórica do Saresp Werther Santana / Estadão

Com pandemia, alunos de SP têm pior nota em Matemática do ensino médio na série histórica

Estudantes do ensino médio deixam escola com defasagem de quase seis anos; no ensino fundamental, aluno de 11 anos não consegue fazer contas de subtração e adição

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2022 | 16h06

Estudantes do 3.º ano do ensino médio tiveram as piores notas em Matemática na série histórica de uma avaliação do governo de São Paulo que mede o desempenho na rede estadual. Os dados, divulgados nesta quarta-feira, 2, evidenciam os prejuízos provocados pela dificuldade de ensino durante a pandemia. 

As provas do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) foram aplicadas em dezembro do ano passado para mais de 642 mil alunos do 5.º e 9.º anos do ensino fundamental e da 3.ª série do ensino médio. A última avaliação havia sido realizada em 2019. 

Escolas em todo o Brasil foram fechadas em março de 2020, para reduzir o risco de contaminação pelo coronavírus. A rede estadual paulista adotou o ensino remoto, mas houve dificuldade em alcançar os estudantes nas atividades online. Parte dos alunos deixou de frequentar as aulas remotas por problemas de conexão ou pressão para trabalhar.   

O retorno presencial aos colégios da rede estadual paulista começou, de forma gradativa, no segundo semestre de 2020. Com o recrudescimento da pandemia no ano passado, porém, as escolas voltaram a ser fechadas e houve rodízio de estudantes para frequentar as aulas presenciais. 

Conforme os dados do Saresp, a queda de rendimento ocorreu em todas as séries avaliadas, tanto em Língua Portuguesa quanto em Matemática. O desempenho no ensino médio, que já vinha em redução desde 2018, despencou. A maioria dos estudantes do 3.º ano do ensino médio (58,7%) saiu da escola estadual no ano passado sem saber o básico de Matemática. 

Os alunos obtiveram nota 264,2 na disciplina, valor que nunca foi tão baixo em toda a série histórica do Saresp, que começou em 2010. Em 2013, ano com os piores desempenhos até então, a nota dos alunos em Matemática era de 268,7. O estudante do ensino médio terminou os estudos no ano passado com defasagem de quase seis anos em Matemática.

O secretário da Educação, Rossieli Soares, afirmou que os resultados de queda no desempenho durante a pandemia já eram esperados. "O que já era ruim ficou ainda pior", disse ele, em coletiva de imprensa na tarde desta quarta, referindo-se à aprendizagem dos alunos no ensino médio. "O ensino médio estava no fundo do poço e a pandemia mostrou que pode piorar."

Em Língua Portuguesa, os dados também preocupam. Os resultados despencaram em relação a 2019 e foram semelhantes aos de 2013. Estudantes do ensino médio deixaram a escola com desempenho que seria adequado para um aluno quase cinco anos mais jovem. A maioria deles não tem habilidades como inferir o público-alvo de um texto ou os objetivos do autor. 

O problema atinge também alunos mais jovens, o que deve pressionar a rede estadual a recuperar a aprendizagem desses estudantes antes que eles deixem a escola. Alunos do 5.º ano vinham melhorando suas notas em Matemática desde 2017, mas o desempenho sofreu queda abrupta de 21,1 pontos com a pandemia - a maior redução porcentual entre todas as disciplinas e séries avaliadas. 

Boa parte dos alunos do 5.º ano do fundamental não consegue fazer contas de subtração e adição. Isso significa que esse estudante, de 11 anos, tem o mesmo desempenho esperado de um aluno de 8 anos de idade. Uma em cada cinco crianças nessa faixa etária tem nível abaixo do básico em Matemática. E só 23,9% tem desempenho adequado ou avançado. 

As dificuldades se intensificam na etapa seguinte. Em Matemática, um terço dos jovens de 15 anos (9º ano do fundamental) não sabe nem o básico. Os resultados obtidos agora interrompem a tendência de melhora no desempenho desses alunos e se comparam às notas de 2014. Em Língua Portuguesa, as notas do 9º ano são compatíveis com as de 2017. 

Segundo Rossieli, um dos principais fatores para a queda no desempenho dos estudantes foi o afastamento das aulas presenciais nos momentos mais agudos da pandemia. O secretário calcula que os esforços para a recuperação das aprendizagens devem mobilizar gestores por pelo menos três ou quatro anos. "Esse é o momento mais desafiador da história da Educação."

Como estratégias para recuperar a aprendizagem, o secretário citou o redesenho de materiais oferecidos aos estudantes e aulas de reforço. Destacou, ainda, a necessidade de priorizar no currículo os aprendizados considerados elementares e projetos de reagrupamento de alunos para atividades de recuperação, considerando o desnível entre estudantes de uma mesma série.  

Para os jovens que já deixaram a escola, o secretário afirma que está em avaliação uma proposta de curso preparatório aos fins de semana para que esses estudantes recuperem as aprendizagens e possam se candidatar a vagas no ensino superior.

Indagado sobre as dificuldades da rede com as aulas online, Rossieli afirmou, mais uma vez, que "o ensino remoto não substitui o presencial". 

"Defendo o uso de tecnologia na educação, mas antes disso defendo a presença em sala de aula. Quando me perguntam qual a solução para recuperar a aprendizagem, a primeira é voltar para a sala de aula e ficar na sala de aula com os alunos. Não pode ser prioridade no nosso País o carnaval."

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Queda de aprendizagem reforça importância de formar professores'; leia análise

Desempenho de estudantes da rede estadual paulista piorou na pandemia; para especialista, escola terá de lidar com problemas do passado e demandas do futuro

Alexandre Schneider*, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2022 | 19h08

A comparação entre os resultados dos estudantes paulistas no Saresp (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar de São Paulo) realizado em 2021 com os dos estudantes que realizaram a mesma avaliação em 2019 não é uma surpresa. Em todo o mundo comparações semelhantes indicaram resultados equivalentes. No Brasil, onde os estudantes ficaram um longo tempo sem frequentar a escola e as estratégias de ensino remoto fracassaram, não seria diferente.

Resultados como o do Saresp reforçam aquilo que responsáveis pelos estudantes e profissionais da educação vêm reiterando ao longo dos últimos dois anos: que a escola é fundamental para assegurar desenvolvimento dos estudantes. Mais do que isso, a queda nos níveis de aprendizagem medida pelas avaliações externas reforça a importância dos professores enquanto profissionais únicos e especializados para assegurar que crianças e jovens construam conhecimentos e sejam capazes de mobilizá-los em seu cotidiano.

A escola que emerge da pandemia tem que lidar com os problemas do passado – aprendizagem insuficiente, desigualdade educacional elevada, alto índice de evasão e repetência, baixo engajamento dos estudantes – e com as demandas do futuro, que exigem a formação de indivíduos capazes de lidar com um mundo em transformação.

Este desafio exige um modelo de formação continuada de professores, que vá além do modelo vigente que em geral prepara professores para reproduzir conteúdos curriculares ou para o uso de materiais estruturados em sala. Especialmente diante do quadro observado, é importante formar professores para o desenvolvimento de instrumentos de avaliação que os permitam melhor diagnosticar as necessidades dos seus estudantes, escolher práticas pedagógicas apropriadas a todas as crianças e jovens sob sua responsabilidade e planejar atividades adequadas ao desenvolvimento dos direitos de aprendizagem previstos no currículo.

A pandemia ratificou a importância da escola e dos educadores no desenvolvimento das crianças e adolescentes. Investir na escola e fortalecer as competências dos nossos educadores são as principais políticas para superar os desafios que temos pela frente na educação.

* É presidente do Instituto Singularidades e pesquisador do Centro de Estudos em Política e Economia do Setor Público (CEPESP/FGV)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.