WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Com o Sisu, ‘forasteiro’ toma vaga de Medicina no Norte e no Nordeste

Com o Sisu, estudantes do Sul e do Sudeste que não conseguem pontuação no Enem suficiente para estudar perto de casa se mudam para outras regiões e ocupam o espaço antigamente preenchido pelos candidatos locais

Davi Lira e Ocimara Balmant, de O Estado de S. Paulo,

03 Novembro 2012 | 22h32

O uso do Enem como critério de seleção nas universidades federais do Norte e do Nordeste diminuiu a participação de estudantes locais nos cursos de Medicina – os mais concorridos e com maior nota de corte. Na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), por exemplo, 83% dos calouros de 2012 vieram de outros Estados. Na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), 100% das vagas oferecidas pelo Sisu foram ocupadas por “forasteiros”. O Enem, que começou neste sábado e termina amanhã, tem 5,7 milhões de inscritos.

 

Sem nativos, a lista dos matriculados tem muitos paulistas, mineiros e moradores da Região Sul. É gente que, antes do sistema unificado de ingresso, não cruzaria o Brasil apenas para fazer uma prova. Agora, com o Enem, essa pessoa faz o “vestibular nacional” em sua própria cidade e, com a pontuação, descobre onde tem chance de estudar.

 

Com a vaga garantida, fica mais fácil ter coragem de fazer as malas. Muitas vezes com o objetivo de voltar para casa assim que possível, seja por transferência ou logo após a posse do diploma.

 

É o caso de Lucas Aquino, de 19 anos, gaúcho radicado em Blumenau. Ele ingressou em Medicina na Ufal no início do ano. Quando concluiu o ensino médio, em 2010, prestou para a Federal de Santa Catarina (UFSC) e não passou. No ano passado, fez mais uma tentativa na UFSC e fez o Enem, de olho nas federais do Rio Grande do Sul (UFRGS) e de Pelotas (Ufpel). “Como não me senti seguro com a minha nota para pleitear a vaga no Sul, decidi subir no mapa. Quanto mais distante do centro econômico, maiores as chances”, conta.

 

A coordenadora do curso de Medicina da Ufal, Iasmin Duarte, diz que o resultado surpreendeu o corpo docente e a coordenação do curso. “Mudou bastante o perfil. Antes, não havia muita gente de fora, quase todos os alunos eram de Maceió.”

 

Os cursinhos preparatórios da cidade comprovam essa percepção. “Antes do Enem, aprovávamos uma média de 40 alunos na Medicina. Neste ano, foram apenas 10”, diz Washington Freitas, do Curso e Pré-vestibular Contato.

 

Um cenário que assusta os vestibulandos. Ruldney Rai, de 18 anos, vai tentar pela segunda vez neste ano. “No ano passado, eu tentei, mas não deu.” Para ele, a seleção deveria levar em consideração alguns aspectos locais. “Quando se utiliza o Enem, você está tentando nivelar todo mundo no mesmo padrão. Mas o País é muito grande e sabemos que infelizmente existem limitações no ensino aqui no nosso Estado”, afirma.

 

Cota local

 

É o que de certa forma já ocorre na Ufam, em Manaus. Por lá, apenas metade das vagas de todos os cursos são oferecidas pelo Enem – é desse montante que, no caso de Medicina, nenhum deles é do Amazonas. Os outros 50% são preenchidos via processo seletivo contínuo.

 

Por esse modelo, os estudantes são avaliados nos três anos do ensino médio e as avaliações, apesar de serem abertas ao País todo, acontecem apenas em cidades amazonenses. É uma forma de, mesmo sem estabelecer cotas, garantir que alunos do Estado entrem na instituição.

 

A junção dos dois modelos dá uma mescla importante, afirma Ivan Tramujas, coordenador do curso de Medicina. “Queremos alunos com bom coeficiente de rendimento em nossa faculdade. Da forma que fazemos, conseguimos os melhores alunos do Amazonas e os que vêm selecionados pelo Enem dão qualidade a nosso curso.”

 

Só na sala de Cecília Nunes, de 22 anos, são sete mineiros como ela, que se mudou de Divinópolis para Manaus, a 3.855 quilômetros de distância. Ela vinha tentando uma vaga em uma universidade pública desde 2007. Seus alvos eram as federais de Minas Gerais e de Viçosa. No ano passado, como não conseguiu vaga nessas instituições, tentou, pelo Sisu, a Ufam e foi aprovada.

 

Para o ex-diretor da Unesco no Brasil e doutor em educação pela Universidade de Stanford, Jorge Werthein, essa disparidade de rendimento no Enem mostra que, apesar do avanço rápido nos indicadores econômicos, a educação precisa de mais tempo para superar uma desigualdade histórica dentro do próprio País. “Conseguimos resolver a questão do acesso à educação básica, mas não democratizamos a qualidade.”

 

Werthein diz acreditar que a tendência é de uma melhora contínua, mas que não deve ser rápida. “É preciso ter paciência, porque a competição de maneira igualitária só acontecerá se o ensino fundamental e médio do País todo estiver uniforme.”

 

O pesquisador pontua que já há casos a serem copiados. “Estados como Pernambuco e Ceará fazem um trabalho bom na educação básica. Nesses locais, o porcentual de gente de fora nas federais deve ser menor nos cursos de ponta.”

 

De fato, após a adesão ao Sisu em 2010, a procedência dos alunos da Universidade Federal do Ceará (UFC) não sofreu grandes alterações. “Antes, quase 100% dos alunos de Medicina eram do Estado. Hoje, avaliamos que o porcentual de estudantes cearenses está em torno de 80%”, diz Yacy Mendonça de Almeida, coordenadora do curso. / COLABOROU PEDRO PROENÇA, ESPECIAL PARA O ESTADO

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